Crônicas do Haroldo Figueira                                                                                                 27/12/2006

A PESCA DO JARAQUI
José Pedro Haroldo de Andrade Figueira 

            Chega maio. O rio Amazonas encontra-se no ápice do período da cheia. Acontece então o “repique”, expressão popular cunhada para nomear o fenômeno de alternância diária de pequenos avanços e recuos no nível das águas. Logo o processo de vazante, que se prolongará por seis meses, tornar-se-á irreversível. 

            Instintivamente, apercebendo-se dos sinais da natureza prenunciadores do movimento de refluxo, os peixes, que na estação das chuvas refugiam-se em redutos aqüíferos tributários – afluentes, lagos, igapós, etc. –, fazem agora o caminho de volta à caudal maior, fugindo das ameaças à sobrevivência que a fase de estiagem costuma ensejar. 

            Dentre as muitas variedades piscosas que rumam em direção ao Amazonas, um espécime se destaca: o jaraqui. Não porque seja portador de algum atrativo especial. Trata-se, aliás, de um exemplar comum, de pequeno porte, que mede cerca de vinte centímetros, pesa aproximadamente quinhentos gramas, possui escamas brancas e as nadadeiras da extremidade da cauda listradas de amarelo e preto. Sua carne, porém, é muito apreciada pela população regional, notadamente os habitantes de Óbidos, Pará. 

            A pesca do jaraqui é aguardada em meio a grande expectativa, tanto da parte de consumidores quanto de pescadores. Aqueles se mantêm, o tempo todo, ligados ao que se passa no rio. Estes põem em prática sua estratégia de trabalho: enquanto algumas canoas vasculham as águas ao largo na tentativa de localizar os cardumes, outras, enfileiradas às dezenas, permanecem de prontidão às margens ainda inundadas, à espera do momento certo para zarpar. 

             A tripulação desses frágeis cascos é, em geral, composta de dois homens. Um incumbido de conduzir a embarcação (o piloto); o outro com a tarefa de operacionalizar a pescaria (o tarrafeador). Enquanto esperam, contam piadas, fazem troças, divertem-se. 

            De repente um grito forte ecoa no ar: pega o resto! Esse brado funciona como o disparo que aciona a largada nas pistas de atletismo. Em questão de segundos, canoas e respectivos tripulantes adentram o rio. Tarrafas manejadas por mãos hábeis, produzindo um bonito espetáculo, fazem círculos no ar para em seguida submergir e retornar à superfície abarrotadas de peixes presos às suas malhas, jaraquis na maioria. Pega o resto! Ouve-se de novo mais e mais vezes, clamado por mais e mais vozes... 

            A fartura é grande. Quem pode pagar compra barato. Quem não pode recebe o pescado gratuitamente. Ninguém passa fome. Come-se jaraqui à saciedade. O ar da cidade fica tomado pelo cheiro característico que exala das cozinhas residenciais. Quanto aos excedentes, são congelados ou salgados para consumo posterior. 

            Para quem é dado a reflexões políticas, um fato social interessante, próprio desses dias de abundância pesqueira, dá o que pensar. Ainda que impremeditadamente e restrito a um aspecto relacionado com um hábito alimentar sazonal e regionalista, os obidenses demonstram, por alguns momentos, que o sonho de uma sociedade igualitária pode, de forma espontânea e pacífica, transformar-se em realidade.  

            Com efeito, literalmente em todas mesas, seja do rico ou do pobre, do branco, do caboclo ou do negro, o prato principal é o jaraqui, servido em três variações de preparo triviais: assado, frito e cozido. Temperos? Nada mais que limão, sal e um bom molho à base de tucupi e pimenta. 
 

Natal, 12.12.2006

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