Crônica  de  Hugo Antônio Ferrari                                                                      23/06/2008

A SERENIDADE DE UM PASSARINHO

Hugo Antônio Ferrari

 

Um dos políticos mais honrados que o Brasil já conheceu nos últimos tempos foi, sem dúvida alguma, o ex-Senador da República Jarbas Gonçalves Passarinho.

 

Dono de uma primorosa oratória, deixou marcas indeléveis nos anais do Senado Federal, onde defendia com eloqüência e entusiasmo o seu ideal, notadamente num momento conturbado da vida nacional, em pleno regime militar.

 

Debates memoráveis ocorreram no plenário daquela Casa com nomes respeitáveis da oposição daquela época, sem nunca desmerecer do respeito e da  admiração dos seus pares.

 

Ao assistir a TV Senado, vi o preclaro ex-Senador sendo homenageado, recebendo mais um Título de Doutor “Honoris Causa” concedido pelo Parlamento maior, dentre tantos outros já conquistados ao longo de sua caminhada cívica.

 

Dava para perceber a sua vontade de ainda estar lá, usando aquela mesma e memorável tribuna de onde se notabilizou como excelente orador, mesmo do alto dos seus oitenta e oito anos de lucidez, defendendo o Brasil.

 

Culto, inteligente, o Senador Passarinho tornou-se uma “jóia rara” da política brasileira.

 

O Pará - terra que adotou como sua, já que é acreano de nascimento -, deve aos paraenses os relevantes cargos públicos que galgou, sendo o primeiro de Governador nomeado do nosso Estado.

 

Já a sua brilhante trajetória - em alguns momentos -, encontrou sérias incompreensões: derrotado uma vez para o Senado, e numa outra oportunidade para o Governo do Estado em pleito direto.

 

Não sabia a maioria do eleitorado paraense o que estava perdendo ao deixar de eleger um político do quilate de Passarinho, vítima que fora do ódio, da inveja, da calúnia, muito própria  da política rasteira que, muitas vezes, chega a abater as pessoas de bem, como foi o seu caso.

 

Atualmente, ao ver a escalada da corrupção desafiar os interesses nacionais praticamente todos os dias, Jarbas Passarinho que sempre defendeu a ética e a decência na vida pública, deve ficar desapontado com tantos escândalos envolvendo figuras até então julgadas ilibadas.

 

Em conversa aqui em Óbidos com o saudoso amigo Deputado Federal Edison Bonna - levado à política pelas mãos de Passarinho -, dizia que o único defeito do Senador era ser Coronel, num regime em que somente caberia Marechal e General de quatro estrelas. Jarbas é Coronel reformado. Tinha razão!

 

Não sei se procede, pois tomei conhecimento de que certa vez, o General Orlando Geisel - então Ministro do Exército e irmão do ex-Presidente Ernesto Geisel - ter afirmado,  que jamais bateria continência a um Coronel, no caso de Passarinho vir a ser Presidente da República, já que essa possibilidade chegou a ser amplamente cogitada no âmbito das Forças Armadas.

 

Então - se verdade o episódio -, confirmou-se o que disse o ex-Deputado Bonna, que também era Coronel da Aeronáutica.

 

Assim, relembramos um pouco a atuação de Jarbas Passarinho, um dos políticos que fez da vida pública um exemplo de probidade a ser seguido.

 

Que a sua postura possa contagiar todos aqueles que desejam enveredar pelos caminhos da política, onde somente a dignidade e a firmeza de caráter pode ajudar o Brasil a banir os desmandos que comprometem sonhos e esperanças de um povo que precisa e merece ser feliz.

 

Assim, vale a pena contemplar o envelhecer jovial e sereno de um Passarinho, cuja consciência do dever cumprido é o prêmio maior que a vida lhe reservou até hoje.

 

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ÓBIDOS (PA), 22 JUN 2008

 
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