Célio Simões                                                                                                                               15/02/2008

BENEDITO CARARÁ

Célio Simões  
 

                               É verdade que entre nós havia uma enorme diferença de idade. E só. No mais, éramos grandes amigos, daqueles em que a consideração, o respeito e a estima são recíprocos e fluem naturalmente, sem as mesuras e salamaleques que ornamentam as (falsas) amizades ditadas apenas por passageiros interesses materiais.

                               Não sei quando começou, conquanto me lembre porque começou. Eu chegara em Óbidos, vindo de Santarém e fervia de vontade de ir até à fazenda Capela, para as inesquecíveis incursões nos piscosos lagos de várzea, nichos privilegiados de tudo quanto é peixe gostoso, como soe acontecer no Baixo Amazonas. Deparei-me porém com a barreira do Rio Mar. Intransponível, gigantesca, imponente, a impedir-me de realizar o desejo, embora o contorno da fazenda de nossa propriedade, tendo um céu de azul lavado como pano de fundo, estivesse bem ali na margem oposta do rio, podendo ser facilmente divisada de qualquer ponto do cais do porto.

                               Seu Benedito encontrou-me nesse dilema. Era só um fim de semana, o tempo se diluindo no compasso das horas e minutos e eu, com toda a minha tralha de pesca (linhas, anzóis, chumbadas, tarrafa, faca e um depósito com gelo), ainda pirangava carona para o destino, ali próximo da cidade... e ninguém aparecia. Nenhum barco desatracando do cais, rumando “para baixo” pelo lado direito do rio. Nenhuma canoa de caboclo vendedor de verdura perlongando no mesmo rumo. Nada. Daí que veio a oferta, naquele seu jeito matuto de falar, a sinceridade e o desejo de ser útil aflorando nos olhos:

                               - Se vosmicê não se importa, fique com o “Santos” que eu não vou precisar dele neste fim-de-semana. O Nélio vai como motorista.

                               O “Santos” que ele aduzia, era um pequeno porém simpático barco a motor utilizado em sua faina de criador de gado no Mondongo, comprando, vendendo e abatendo matrizes em Óbidos, com o que a grana ia pingando regular e naturalmente. Tanto que na cidade morava bem, em sua principal artéria, a Bacuri, confronte ao sobradão do Titilo Savino.

                        De lambuja, o Nélio, sobrinho e filho-de-criação como motorista. Era tudo o que eu desejava, porque a dupla de quase idêntico nome (Célio/Nélio) era amiga desde a infância, quando um dia o visitei na Santa Casa, onde estava atacado de toxoplasmose e erisipela e dei-lhe de presente uma lata de leite “Moça” mandada por minha mãe. A amizade varou o primário, o ginásio e a vida afora, pois até hoje brindamos cada reencontro.

                            Para a viagem, senti-me na obrigação de custear as demais despesas, porque o excedente veio de graça. Mas foi um dia sem paralelo, dessas pescarias que nem dão tédio, porque todos os peixes já estavam como que esperando, numa espécie de imolação voluntária funcionando como mecanismo auto-regulador do controle das espécies. Acari, tamuatá, piranha preta, piranha caju, surubim, piramutaba, piracatinga, jatuarana, tambaqui, arraia, pirapitinga e aruanã. Para que alguém havia de querer pescar aruanã? Sua beleza plástica contrasta com a pobreza de paladar, pois não há tempero que torne saborosa sua carne absolutamente sem graça, com gosto de palha. Fica aqui meu repto a quem se julga cozinheiro para tornar aceitável aquela coisa!

                               Pescaria à parte, coberta de êxito, na boquinha da noite o Nélio me contou a peripécia maior daquele parceiro mais velho que eu, mas nem por isso menos camarada ou generoso com os arroubos da juventude. Ele, seu Benedito Carará, já brigara com onça no tapa, armado apenas de uma faca!... Ante minha expressão de incredulidade, o episódio veio à tona.

                                À margem do imenso e soturno aningal que vai do rio Amazonas até às fraldas do Mondongo, seu Benedito viajava em mais uma de suas missões com destino à fazenda, época de inverno, quando o Igarapé do Paulo praticamente transborda e obriga o viajante a cavalgar apertado entre a nesga de várzea e o dito aningal. De lá partiu o ataque, porque a pintada estava à espreita no galho da mungubeira e mal deu tempo do velho usar a espingarda calibre vinte, daquelas de carregar “pela boca” num tiro dado praticamente ser firmar a pontaria.

                    O resultado não podia ser outro. A fera apenas ferida, em meio à densa fumaça do disparo, investiu novamente, com ânimo de matar. Como é de cediço conhecimento, espingarda de um cano não é arma de repetição, por isso o confronto deu-se de forma violenta e desigual, com meu estimado amigo armado apenas de um facão, insuficiente ante os repetidos ataques de unhas e dentes, dilacerando a pele e os nervos, embora pagando o felino, a cada bote, o alto preço da própria ferocidade - as múltiplas e profundas facadas desferidas no corpo elástico e musculoso. Ao fim da batalha, caíram ambos, extenuados e agonizantes, oportunidade em que seu Benedito ainda encontrou forças, tiradas da própria fraqueza, para uma última estocada. Liquidou com a onça mas levou azar. A faca, embebida em sangue, penetrou o quanto pode e estancou no osso dorsal do felino. Não obstante, pelo fio liso e amolado da lâmina, tal qual navalha, deslizaram os dedos do vencedor, também cortados até às falanges, quase por completo decepados.

                               Em nossas habituais conversas eu já notara o universo de cicatrizes no corpo desse herói, as marcas dos pontos na cabeça, cuja pele foi quase toda arrancada à unha pela onça, as limitações nos movimentos do braço esquerdo, mas não sabia maiores detalhes do episódio que tornou ímpar a vida daquele homem humilde e corajoso.

                               Cultivamos salutar e desinteressada amizade até o dia do meu definitivo retorno a Belém, naquele Janeiro de 1972, para cursar a faculdade de Direito. Anos depois soube de sua morte, num acidente trágico da navegação fluvial, onde ele e o “Santos” foram colhidos por uma gigantesca balsa carregada de bauxita numa curva do Trombetas, desaparecendo ambos no fundo do imenso rio, que hoje lhe serve de sarcófago. Antes do choque frontal, outra demonstração de coragem desse intrépido caboclo. Recusou-se a se jogar na água, salvando-se, para tentar safar seu barco da monumental colisão. Não deu.

                        Nem por isso reputo esse gesto como insano ou imprudente. Esse tipo de coisa era dele mesmo, de sua personalidade arrojada, de seu perfil desafiador. Quando em vida, desse amigão nunca ouvi uma bravata, uma única palavra sobre o caso da onça. Nem explicações sobre o apelido, que decididamente não o agradava. Matar a bicha a facadas, no modo direto, simples e prático de ver e resolver seus problemas, parecia ter sido a coisa mais natural do mundo. Seu Benedito era único em sua singeleza. Que eu conheça, ninguém vivenciou tal façanha e ficou vivo para contar a história. Aliás, se esse feito fosse protagonizado por algumas pessoas que eu conheço, imagino o escarcéu que fariam em termos de promoção pessoal.
 


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