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Célio Simões 23/12/2010 |
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OBRA DE CARIDADE Célio Simões Meu saudoso pai Francisco Lobo de Souza era uma pessoa que a par de seus afazeres não dispensava um bate-papo, independente de hora ou local, ainda mais se o interlocutor fosse um dos seus grandes e prediletos amigos, como Francisco Aquino ou Renato Martins (colegas da SEFA), seus dois irmãos Podalyro e João, os comerciantes da rua da beira, Sr. Augusto Ferreira e um antigo e estimado parceiro dos tempos do Lago Grande, seu Armando Galúcio, um homem que disfarçava sob uma capa de singeleza grande competência e probidade profissional, com a vida dedicada ao sustento da numerosa família, pessoas dignas de quem guardo a melhor das impressões. Sobre todos eles meu pai tinha uma história para contar e eram saborosas de ouvir à luz do candeeiro, numa época que a usina de força situava-se na esquina da rua Rui Barbosa com a Justo Chermont e a energia somente era fornecida das 18 às 24 horas. Em tais oportunidades, eu recolhia de memória aqueles episódios, propositadamente contados de forma pausada, um dos quais publiquei em forma de crônica sob o título “O CASO DA MULHER DE BRANCO”, fato envolvendo seu glossário de assombrações ocorrido na cidade de Juruti. Era difícil pinçar o real do imaginário, pois meu velho colocava com mestria umas pitadas de suspense ou de irreverência, com que me mantinha atado ao seu vozeirão de timbre inconfundível até o fim da narrativa. As pessoas que maior contacto com seu Armando Galúcio davam conta de sua fina ironia, talvez para amenizar as espinhosas tarefas do cotidiano que nenhum ser vivente escapa, salvo aqueles que adotam como lema a teoria do “direito ao não trabalho”, como sabemos que existiram e ainda existem por ai, para frustração do Leão do imposto de renda. O engenheiro e escritor Carlos Antônio Silva experimentou esse lado irreverente do pacato e competente mecânico, quando chegou a sua oficina com uma espingarda antiga, dessas que mata o próprio dono, que vivia negando fogo quando no Paraná de Dona Rosa surgiam nuvens de marrecas e ele restava impotente, sem conseguir um único disparo que lhe garantisse no almoço o saboroso petisco. Com o velho trabuco na mão e as esperanças depositadas no tirocínio do engenhoso artesão, o pedido veio em forma de súplica e a resposta, propositadamente desanimadora: - Seu Armando, minha cartucheira não funciona e eu estou precisando urgentemente dela. Tem muita marreca no Paraná. Posso deixar aqui para que o senhor dê uma olhada? - Pode sim. - Acontece seu Armando, que essa é uma arma de estimação. O senhor vai guardar direitinho? - Não se preocupe. - Outra coisa. Essa marca é rara e nem é mais fabricada. O que o senhor acha? - Graças a Deus... Seu Armando, como toda a família Galúcio, era monossilábico porém tinha sempre uma resposta que desarmava o interlocutor pela dose de humor destilado nos seus subentendidos. Ele e papai, nos idos da juventude, certa vez andavam pelas planuras do Lago Grande atrás de pato do mato, marreca e ovo de tracajá, parceiros contumazes que eram nessas incursões onde o limite era a satisfação pessoal de cada qual, pois não lhes movia a necessidade do comércio clandestino e a fartura era tanta que a sociedade dita civilizada não despertara para o senso da preservação ambiental. Certa feita estavam eles incursionando nas matas do Diamantino, lugar perdido nos confins da Vila Curuai e depois de muito caminhar sem qualquer vestígio de caça, papai vislumbrou estranho objeto imitando um símbolo gótico entalhado em pedra, em torno do qual havia outros menores com formatos diversificados, porém do mesmo material, mistura de mármore com farelo de vidro. O que seria aquilo? - Armando, o que diabo é isso? - Não sei. - Vamos cavar pra ver o que tem aí em baixo, sugeriu meu pai. - Então cava que eu fico vigiando... - Mas vigiar o que se nós estamos sozinhos. Dá uma ajuda, OK? Quando já se preparavam para descobrir o que havia embaixo daquela coisa incomum, papai teve um “estalo”, parou um minuto e fez a surpreendente revelação, esperando causar no parceiro o inevitável impacto psicológico. - Já sei. É dinheiro enterrado! - É mesmo? Então será nosso, porque achado não é roubado, filosofou seu Armando. - Só tem um detalhe amigo. Dinheiro para não desaparecer durante a escavação, aquele que encontrar deve cortar o dedo e deixar cair na cova onde está enterrado todo o sangue que jorrar. Aí não some mais, porque já estará batizado. Nem bem acabou de falar notou que seu inteligente comparsa já estava segurando no ar o afiado facão rapidamente sacado da bainha, seguido do convite de todo inaceitável: - Chico, coloca tua mão no tronco desse apuizeiro e escolhe qual o dedo que não te faz falta... Se havia dinheiro enterrado ficou por lá mesmo pois nenhum dos dois reuniu coragem suficiente para o extremo sacrifício, preferindo continuar a viver de seus vencimentos, sem a tentação de verificar o suposto tesouro abandonado no Diamantino. Em outra oportunidade, lá estavam os inseparáveis caçadores esquadrinhando as matas do Piraquara, atraídos pela notícia da existência de grande número de pacas e capivaras, aquela considerada a caça de sabor mais nobre das matas da Amazônia, ambas atualmente protegidas pelo IBAMA, dado o risco de extinção. A cultura preservacionista, vale enfatizar, só mais recentemente foi adotada pelas autoridades, inclusive com a criação de órgãos de fiscalização e um ministério específico para cuidar do assunto, o que é altamente positivo em prol das futuras gerações. Porém naquela época tão recuada, onde nas várzeas tinha lugar a “batição de jacarés” conforme descreve o mestre Ildefonso Guimarães (matança indiscriminada para diminuir o risco de ataque ao gado e às populações ribeirinhas), ninguém se preocupava com esse aspecto, pelo fato da captura limitar-se ao necessário para a sobrevivência. E foi nessa bendita caçada de paca que houve o desastrado tiro que seu Armando desferiu numa cevada capivara, tendo vários chumbos da cartucheira atingido involuntariamente uma guariba que ao nível do chão estava no momento do disparo roendo tucumã-açú. Parcialmente ferido, o bicho investiu furioso pra cima dos caçadores, dentes pontiagudos rangendo de ódio, ao tempo que segurava o braço esquerdo, justo o que fora atingido pelo chumbo perdido. Meu pai ficou impressionado com aquela cena e fez um comentário que acabou por selar a sorte do infeliz animal: - Credo Armando! Parece uma pessoa gritando de dor. - Também acho. Não foi minha intenção atingi-lo. O tiro era só na capivara. - E agora? Ele não pode mais subir na árvore apenas com um braço. - Então é o jeito fazer uma obra de caridade. Ato contínuo cortou com o facão um galho da árvore e acabou de vez com aquele padecimento, fato tão impactante que também pôs fim a caçada dos dois amigos, tão arrasados que ficaram com o acontecido. Anos depois, os dois já estavam morando em Óbidos, meu pai foi acometido de aguda crise de colite que o deixou de cama vários dias. Retornando da aula da professora Glória Correa Pinto, mãos maltratadas pela palmatória de acapu pelos deslizes na tabuada, passei em frente à casa de seu Armando e lá estava ele ao portão, óculos de grau acompanhando minha trajetória. - E teu pai? - Ainda doente seu Armando. O medicamento não está fazendo efeito e acho que ele vai pra Belém se submeter a tratamento especializado. Vai ficar na casa da dona Nicota. Não está conseguindo nem levantar para trabalhar. - É assim tão grave? - Acho que é. Ele geme de dor o dia inteiro. - Então fala que qualquer hora dessa passo lá para uma visita. Entrei em casa, deixei o livro no armário e fui ver meu velho, que acamado gemia baixinho. - Pai, falei com seu Armando. Mandou um abraço. Disse que deseja visitá-lo. - Armando Galúcio? - Ele mesmo. Vem hoje ou amanhã! - Então volta lá e diz que eu já estou bem. Vai que ele resolve fazer uma obra de caridade comigo e eu nem preciso ir pra Belém. Já te contei a história da guariba? Pois trata de fazer o que estou mandando...
(*) Presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos. * Saiba mais sobre Célio Simões no nosso painel de personalidades: Clique Aqui |
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