Célio Simões                                                                                                                               15/01/2008

ÓBIDOS JUNINA

 

Célio Simões

 

 

Eu sou caçador afamado

que venho da cabeceira,

hoje eu mato esse boi,

seja lá de que maneira.

Não caçador,

faz pena, faz horror,

não mate esse boi,

que meu amo criou!

 

 

                               Quem estivesse perambulando pelas ruas, fosse para os lados do laguinho, na praça de Santana, no largo do Bom Jesus, nos escuros arredores do Quartel – onde se podia “caboquear” mais ou menos à vontade, sem a implacável censura das solteironas – ouvindo as estrofes acima, aliadas ao inconfundível batuque dos tambores, já sabia que o boi-bumbá ia dançar. Sabe-se lá aonde, mas ia!

                               Naqueles bons tempos, dava gosto viver o mês de Junho em Óbidos!

                               Minha pequena e querida “Cidade Presépio”, onde nasci e vivi  até aos 18 anos e outra coisa não fiz nesse meio tempo a não ser curtir suas peculiaridades, preparava-se à altura para as festas caipiras, onde desfilavam animadas quadrilhas, cordões de pássaros e os infalíveis e divertidos bumbás.

                               As quadrilhas eram um espetáculo à parte. Geralmente integradas pela fina flor da juventude local, se exibiam nos salões da Assembléia Recreativa Pauxis, oportunidades em que sobravam, além de animação, beleza para todos os gostos, pois as obidenses, via de regra são bonitas, simpáticas e acolhedoras. Ao som do modesto conjunto de pau e corda vindo do Arapucú, era especialmente gratificante vê-las dançando, nos salões sociais ou em improvisados terreiros, gingando as ancas de modo quase sincronizado, comandadas pela voz firme do Sérgio Paranatinga, parente chegado do poeta Ruy Barata.

                               Já o boi, este vinha da costa fronteira (margem oposta do rio Amazonas, pois Óbidos, terra de contrastes, é exclusiva até nisso: a costa fica na frente...), trazendo os liderados do seu Vivico, sendo que o mais famoso deles saía mesmo do Alegria Clube, sob a batuta do dono, o pitoresco Antonico Pé de Arpão. Baiuqueiro de profissão e folclorista por opção, sobre sua criatividade como artista popular já falava o Professor Zé Tostes em sua Folha de Óbidos, ainda na década de vinte. E quanto a origem de seu esdrúxulo apelido melhor discorreu o mestre Ildefonso Guimarães, esse gênio da narrativa, em seu precioso livro “A Senda Bruta”. Mordida de piranha que levou todos os outros e deixou apenas o dedão do pé direito. Os dois são unânimes na opinião de que o Antonico encarnava o próprio folclore obidense.

                               Havia também os pássaros, onde proliferavam índios, índias, curandeiros, aprendizes de feiticeiros, caçadores e outros figurantes. Nos bois, esse mesmo séquito exibia-se com desembaraço e tangidos por etílico entusiasmo, emprestavam com suas vistosas indumentárias um tom surrealista às noites quentes e mal iluminadas do início do verão tropical.

                               Vinha vivente de todos os cantos e recantos, para participar das festas. Gente do Castanhanduba, Lago Grande, Paraná de Cima e de Baixo, do Amador, de Dona Rosa, Costa Fronteira, Repartimento, Mamiá, Santa Luzia, Palha Branca, Canta Galo, Paturi, Geretepaua, Cipoal, São José do Matá, Mondongo, Engenho, Flexal, Mamaurú e a turma mais de perto, que mourejava no Igarapé do Juncal. O folguedo habitualmente era na própria rua e olha que não eram todas as ruas que contavam com a luz amarelada dos postes, permitindo o estudado brilho dos espelinhos, miçangas e demais adereços. E se tais ruas eram mantidas iluminadas, o eram graças ao empenho pessoal do Laércio ou do popular “Bebé”, funcionários da usina elétrica, ambos calejados de tanto carregar escada nas costas para recuperar a fiação, queimada ou rompida por linha de papagaio.

                               Afora as ruas, terreiros e ramadas, a apresentação desses conjuntos se dava à frente das residências de alguns moradores do centro, os “gente fina” do pedaço, que compravam a particular diversão com modestíssimo cachê e muita bebida aos comparecentes. E ao fim de meia dúzia de exibições em casas diferentes, o grupo folclórico, grana no bolso e barriga forrada de comilança, ganhava o anonimato dos subúrbios, já levando a reboque uma penca de moleques e considerável contingente de marmanjos, estes, decididamente fascinados pelas “índias” que para felicidade geral, eram generosamente receptivas ao homem branco...

                               Fazia parte da etiqueta recepcionar os brincantes e demais convidados com as iguarias da época. Pamonha, munguzá, tacacá, broa, mingau de milho, bolo de macaxeira, aluá, tarubá, rabuçado, puxa-puxa, tudo em homenagem a Santo Antônio – o casamenteiro – São João, São Pedro e São Marçal, o último deles já no finalzinho do mês quando por tradição, as fogueiras consumiam todo o estoque de paneiros velhos da cidade.  Difícil era conceber as festas de junho sem o concurso da Garcinha, do Surucuá, do Galo da Serra ou da Arara, esta, propriedade da dona Maria Ramos. Lá vinha ela sob vistoso esplendor, desfilando seu charme pela rua Dr. Machado. Quando passava em frente da residência do Dr. Eduardo Grandi, já se ouvia na minha casa seu hino oficial, sua mais conhecida toada:

 

Senhores, queiram nos desculpar,

Se a nossa linda arara,

Não vos soube agradar...

Adeus, uma ave voou

E no galho duma rama

ela pousou.

Estando, com a nossa linda arara,

Teremos, a mais bela união,

Arara bateu asa e foi embora

Meu bem,

Para dançar nesta noite linda de

São João!

 

                               Justiça seja feita ao Dr. Hélio Marinho, jovem prefeito àquela época. Fazia questão de prestigiar as manifestações populares da quadra junina, sem tirar proveito político ou imiscuir-se nas eventuais rivalidades dos participantes. Vizinho nosso, era um expectador privilegiado de onde aplaudia os folguedos, motivando-os a permanecerem atuantes nos anos subseqüentes.

                               Famoso ficou o episódio da “índia branca”. Segundo o Jorge Aquino, abalizado conhecedor do folclore obidense, para amealhar o título de campeão da temporada, o Antonico Pé de Arpão teve a original idéia de introduzir no grupo de índias do seu próprio boi – o Pai do Campo – uma moça loura, pele alva e pura como uma manhã de junho, corpo escultural, beleza rara vinda das brenhas do Cuecé, cuja tanga, cocar e minúsculo sutiã eram adornados com a mais legítima pena de garça. Não havia ainda o IBAMA, e o fiscal da “caça e pesca” era o Joaquim Almeida, que estava se lixando  para a flora e a fauna, pois além de não lhe darem os meios de fiscalizar quase nada, raríssimas vezes saía de casa.

                               Pois bem, a tal “índia branca” contrastava abertamente com suas demais colegas de “tribo”, todas morenas cor de jambo, cabelos e peles escuras, assim como a própria indumentária indígena, feita das escuras de pena de peru. O efeito era arrasador. A “índia branca” era uma verdadeira deusa de exotismo e sensualidade. Revolucionou a cabeça da rapaziada local, que passou a ser público cativo de suas insinuantes performances, abordando-a sempre que possível com certeiras cantadas.

                               Por três anos o esperto “Pé de Arpão” usou dessa inteligente estratégia e por três anos foi campeão absoluto com o Pai do Campo. Quanto à “índia branca”... Bem, foram três gestações consecutivas e três filhos robustos e saudáveis, todos nascidos em março do ano seguinte, exatamente nove meses após suas sedutoras exibições...

                               O único cordão de pássaro que quase ninguém prestigiou foi aquele bolado por um grupo de estudantes. Também pudera! Para os rígidos padrões de moralidade de então, até mesmo o nome do animal era suspeito: a Pomba Preta!

                               Seus idealizadores e brincantes eram todos colegas meus do curso primário do Grupo José Veríssimo, mas eu fiquei de fora, pois não dançava, não cantava, não tocava nada e jamais seu Francisco Lôbo, meu austero pai, ia permitir que eu saísse pelas ruas fantasiado de índio, pajé ou coisa parecida. Naquele tempo pai mandava e filho obedecia, sem direito a protesto.

                               Limitei-me a assistir algumas exibições, suficientes para constatar a irreverência daquele time barra pesada, bastando dizer que inexistia mulher no grupo e sim os próprios homens vestidos de mulher, quando entregavam-se a encenações divertidas porém ousadas, eivadas que eram de segundas intenções.

                               Passagem particularmente jocosa era aquela em que o curandeiro, após o tiro certeiro do caçador, tentava todas as misteriosas puçangas no sentido de reanimar a Pomba Preta, que caía ao chão completamente abatida. Prévia e estudadamente frustradas as múltiplas tentativas de reanimá-la, ficava ele denunciando para a platéia, em alto e bom tom, que a dita cuja não queria levantar...

                               Quebraram a cara quando foram convidados por uma beata juramentada para uma exibição em sua casa. Por descuido ou má-fé, quem sabia não lhe disse da fama daquele pessoal tresloucado, acostumado a terminar a noite no “Corre Liso”, o dançará mais desqualificado da cidade. Chegaram dançando e cantando:

 

A nossa Pomba Preta da campina

vem cantar.

Está cheia de cores, no meio

do pessoal.

Nós somos da folia,

dançamos com alegria,

viva o nosso pombual.

E o que me causa satisfação

É a “padaria” da Anadão!...

 

                               A dona Anadão, coitada, era uma vendedora de mingau do mercado, que tinha um baita bumbum... Nem assim escapou. E na primeira cena mais ousada que pintou no salão, a Pomba Preta e seus escrachados figurantes foram escorraçados a peso de água quente e muita descompostura!

                               Um dia quase terminava em pancadaria. Forçando a rima e exagerando na licença poética, foram eles com o indigitado animal se apresentar na via pública, à boca da noite, entre a Pernambucana e o Mercado e o faziam sob a observação dos trabalhadores do cais do porto, dentre eles o Nestor, um estivador alto e desempenado, que apesar da baixa escolaridade sabia das coisas:

 

Sai daqui, ô velho impertenente,

o que tu vem fazer,

aqui no meio da gente?...

 

                               - Impertenente? Se essa corja estivesse estudando em vez de ficar sacaneando com os outros, pelo menos falava direito o português... comentou o Nestor.

 

                               -  Pra que tu bebe enjoado!

 

                               A crítica mordaz e deseducada e o troco desaforado dado na bucha culminou com um ensaio de arranca rabo, que só não tomou maiores proporções pela providencial chegada do Gervásio, cabo da PM que adotou Óbidos como sua cidade, conhecendo todo mundo e tirando tudo por menos.

                               A exemplo de Belém e de todo o Nordeste, quem quer vivenciar o folclore junino, saborear as guloseimas da época, viverá um tempo e uma cultura popular diferenciada. Eu tenho ficado na saudade da geléia de cacau, do doce de castanha e do incomparável paumarí, que todos dizem ser de Santarém, mas que foi inventado em Óbidos. Na segunda década do século passado, dona Benedita Bentes Vieira iniciou ali pela antiga rua da Prainha (hoje Dr. Machado) a fabricação de um licor da polpa pura do cacau, de grande aceitação pelos obidenses. Não havia melhor bebida para oferecer a uma visita, nem mais típico presente para um hóspede. Infelizmente, dona Benedita mudou-se tempos depois para Santarém e de lá, divulgou o paumarí para o Rio de Janeiro e São Paulo, onde era vendido em garrafas especialmente fabricadas para esse fim, com dizeres em alto relevo, contendo vistosos rótulos litografados. Daí todos acharem ser uma criação santarena. Mas o paumarí é genuinamente obidense em suas origens. E qualquer dessas preciosidades, se você não estiver em litígio com a balança, são encontráveis na feira do produtor da Pérola do Tapajós, sendo prescindível esperar a quadra junina para o prazer de tê-las à mesa. Bota saudade nisso.


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