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Célio Simões 08/11/2007 |
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O MALTRATO AO VERNÁCULO Tenho um amigo advogado, também Bacharel em Letras, por muitos anos professor de Português na Universidade Federal do Pará, que é radical em seu julgamento aos assassinos da linguagem: “Crime contra a língua pátria devia merecer a pena de morte”. Óbvio está que se trata de propositado exagero contra os ultrajes que diuturnamente se cometem contra o vernáculo, não só os alunos de qualquer nível, assim aqueles cuja profissão exige o manejo correto da língua, como professores, jornalistas, magistrados, assessores, etc. Quem visita São Paulo precisa fazer do Museu da Língua Portuguesa uma parada obrigatória. Assistindo aos filmes ou admirando os painéis de suas galerias, podemos contemplar as longínquas raízes do nosso idioma e toda sua evolução até os dias atuais, entendendo com mais facilidade os seus sutis meandros. De lá saí verdadeiramente maravilhado, impondo-me o inevitável questionamento: Estamos assistindo à sobrevivência ou a falência da linguagem? Às vezes não nos é permitido calar diante de tantos erros, em dimensões avassaladoras, que se vêm perpetrando, com absoluta impunidade, na linguagem da advocacia, do jornalismo, da correspondência comercial, esquecendo-se os sicários do vernáculo os inevitáveis danos daí decorrentes. Neste mês de Outubro de 2007, precisei adquirir um computador novo e fui a uma das melhores lojas do ramo existentes em Belém, para ter certeza de uma assistência técnica de qualidade, há hipótese de defeito posterior. Por vezes é melhor pagar um pouco mais caro do que virar cliente de baiúca, que some da noite para o dia e deixa o cliente falando só. Comprei a geringonça, informei o local para a entrega (Rua dos Mundurucus, entre Av. Serzedelo Corrêa e Tv. Dr. Moraes), que ficou de ser feita até três dias depois do pagamento. Ao me fornecerem o documento portador da quitação, levei um susto ao ler o que tinham feito com Serzedelo Corrêa, cujo prenome veio assim grafado, no campo destinado à delimitação do meu endereço: “...entre “Çerçedeilo Corria e......”. Fiquei pasmo com a afrontosa aberração e por pouco quem quase “corria” era eu, mas para devolver o produto à loja e exigir reparação à memória e ao nome do ilustre paraense. Ao que me lembro, conheço uma única palavra começando com “ç”, por força da tradição do “Çairé” em Santarém, herdado do alfabeto indígena. Porém, um nome próprio nessas condições... No caso aqui narrado, penso que a culpa não é da simpática funcionária que me vendeu o micro e fez as anotações e sim da escola que freqüentou e da própria empresa, que não lhe proporcionou um treinamento adequado. Esse mundo corrido, de celular tocando a todo instante, de papelório sobrando para todos os lados, sem tempo para o aprimoramento pessoal, constitui um dos principais agentes de deturpação no uso da linguagem. No máximo se lêem jornais, onde também residem significativas incorreções. A falha mais grave é a do comunicador, seja ele um modesto balconista ou um “importante” assessor, que não possui a habilidade de selecionar, em sua linguagem, aquelas informações que o receptor pode entender corretamente. Uma mensagem só pode ser recebida e decodificada se o destinatário souber manejar o código em que ela foi organizada. Nos meus tempos de advogado de Banco, ficou famoso um episódio ocorrido no interior do Rio Grande do Sul, divulgado no Suplemento DESED/4 de Outubro/78, onde um funcionário da carteira de empréstimo escreveu a um cliente – lamentavelmente semi-analfabeto – cobrando-lhe os compromissos financeiros assumidos, utilizando porém rebuscada linguagem bancária, totalmente fora do alcance do modesto agricultor:
“Prezado senhor,
Tendo em vista ter chegado ao nosso conhecimento que deixou de plantar um alqueire da lavoura de trigo financiado pelo empréstimo em tela, solicitamos que, com a máxima urgência, nos seja devolvida a importância correspondente ao não cumprimento do plano orçado, ou seja, Cr$-............. Alertamo-lo, outrossim, de que irregularidades como a acima descrita poderão prejudicá-lo em futuras operações com esta ou qualquer outra agência do Banco. Sem outro particular, subscrevemo-nos.”
Coitado! Não dominando o jargão bancário (isto é, não possuindo o mesmo repertório daquele que lhe foi enviado pelo funcionário), o lavrador não logrou decifrar os termos da correspondência, porém, sendo um homem de conduta escorreita, respondeu da seguinte forma:
“Riomansinho 11 de maio
sinho chefe da carteira de imprestimo
queria por dimais troca umas palavras com sinho mais tenho duença na famia não poço i ai não comprendi o avisu de pranto trigo em tela não comprei nenhuma tela acho que o engano também que o vizinho Orsato não cumprio plano que o sinho falou ele não tem imprestimo ai e disse que pode leva ate pra cadeia que ele não paga. na ota semana vou ai.”
Quando li o nome de Serzedelo Corrêa trucidado à base de caneta Bic na nota de compra, veio-me à mente a situação de determinada autoridade policial de Belém, que recebeu denúncia de um homicídio ocorrido na Tv. Almirante Wandenkolk esquina da Domingos Marreiros, por volta da década de 1960, quando eram comuns nas festas de fim de semana do “QUEM SÃO ELES”, as arruaças e brigas que acabavam em sérios confrontos entre facções rivais. Chegando ao local com seus auxiliares, constatou que realmente havia um homem morto a facadas, caído na sarjeta, exatamente na esquina objeto da denúncia. Escrivão a postos para lavrar a ocorrência, veio a dúvida atroz:
- Delegado, como se escreve Wandenkolk? É com V ou com W? E o final é com “c” mudo, com “q”, com dois “qq”, com “x” ou com “ç”? - Quem é o escrivão, eu ou tu? - Sou eu mas... - Faz o seguinte cara; escreve aí que o cadáver foi encontrado na esquina da DOCA!
Esses episódios podem ser tolerados. O agricultor gaúcho não entendia mesmo a linguagem bancária. O Delegado que no formulário deslocou o finado para a Doca pertencia a uma época que nem precisava ser formado em Direito para ser policial – bastava ter um padrinho político forte e saber dizer “Teje preso!”. Também fica perdoado um velho amigo da família, o caboclo Joaquim Marques, morador das várzeas da Ilha Grande, a quem meu tio José Simões encomendou um feixe de lenha (à época não havia fogão a gás), pagou adiantado e ele ficou impossibilitado de honrar o compromisso pois foi atacado por uma piranha caju, quando margeava o igarapé atrás de ovo de tracajá, que lhe levou um naco do dedão do pé direito. Homem de palavra, mandou o seguinte bilhete justificando a impossibilidade de cumprir o ajuste:
“Angu seu Jus é Simaos,
A sua linha não fui porque tivi um trupilo grande. Tivi uma dentada de elepiranha que me atirum tuda cabica do dido grandi do pi, que me dixou inortilizado por arguns dias. Sabadun levarei pro sinhô uns ovus de tracája. Mande pra mim uma saca para eu levá os ovus de tracája. Sem ser esporte, Joaquim Marques.”
Excluindo o “sem ser esporte”, que ninguém da família pode vislumbrar o significado, dá para entender o que o bom homem quis dizer, em sua estropiada redação. O que é imperdoável é que advogados, jornalistas, professores e demais profissionais de escolaridade superior, mesmo imersos no mundo caótico e conturbado em que vivemos, não tenham mais qualquer preocupação com a linguagem. Senão, com a tosca linguagem. Penso que mesmo para o redator isento de ambições literárias, a leitura de autores como Graciliano Ramos, Machado de Assis, Marques Rabelo e a “Gramática da Língua Portuguesa” de Celso Cunha, são preciosidades que não podem faltar em nenhuma estante de livros. É indispensável que a crítica, mesmo temperada de humor, seja reiteradamente feita para sensibilizar os responsáveis pela instrução dos jovens, ante a premente necessidade de acostumá-los à leitura de bons livros. O caminho a ser percorrido é árduo, mas acredito nele, enquanto existirem mestras como Lúcia Helena Alfaia de Barros, da rede municipal de ensino de Óbidos, herdeira do ideário de gigantes como Maria José Caluff, Janete Vieira do Couto, Córa Simões, Manduca Valente, Glória Corrêa Pinto, Santana Amaral, Marcos Nunes e José Barroso Tostes, que com esmero, idealismo e sacrifício educaram inúmeras gerações e tornaram Óbidos conhecida nacionalmente como berço de intelectuais. São essas, dentre outras, as personalidades verdadeiramente merecedoras da medalha da Ordem Municipal do Brasão, a maior honraria Pauxiara, teoricamente reservada aos benfeitores do povo, que enobrece o mais avantajado filho da terra, destacando-o sobremaneira no cenário estadual; alguns, como os acima citados, injustamente preteridos por outros que sequer imaginam como se luta para produzir cultura em qualquer parte deste País, máxime nos distantes rincões do interior, do que não é exceção a Cidade Presépio.
FOBlinguagem * Saiba mais sobre Célio Simões no nosso painel de personalidades: Clique Aqui |
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