Célio Simões                                                                                                                                                              09/11/2010

O IDEB CHEGOU TARDE

Célio Simões (*)

 

            Nos primeiros dias da semana de Julho deste 2010 – quando a atenção dos brasileiros dividia-se entre a Copa do Mundo na África do Sul (na qual os árbitros exibiram toda sua incompetência) e o crime macabro cometido com requintes de crueldade envolvendo o goleiro Bruno do Flamengo – passou quase despercebida a publicação da terceira mostra feita pelo IDEB, sobre o calamitoso nível da educação em nosso País.

            Fiquei pasmo com o resultado geral e mais ainda, com a grotesca realidade do ensino no Estado do Pará, em especial na Capital, onde se salvou com louvor a tradicional, exigente e cobiçada Escola Tenente Rego Barros, que alcançou o primeiro lugar. Com essa honrosa exceção, o topo da pirâmide albergou educandários do interior, situados em cidades de recente autonomia política como Paragominas, cujo gestor tem dado constantes exemplos de como se administra em proveito do povo.

            Município tricentenário e berço de filhos ilustres que se destacaram nacionalmente nas letras, Óbidos ficou em sétimo lugar no ranking cultural paraense, representada pela Escola Municipal José Veríssimo, cuja trajetória de mais de sete décadas orgulha quantos lá estudaram e foram capazes de sobrepairar acima e além dos de sua geração.

            Nada obstante, arrisco dizer que o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica seria outro em relação ao José Veríssimo se já existisse à época em que muitos de nós lá estivemos matriculados, para esse trabalhoso, áspero, inicialmente desagradável, porém maravilhoso contato com as letras, que nos liberta da ignorância e nos torna cidadãos de fato e de direito.

            Não sou capaz de vislumbrar as disciplinas que atualmente são ministradas nos níveis infantil, fundamental e médio das centenas de escola espalhadas pelo vasto território paraense, nem a metodologia empregada para a absorção dos conhecimentos pelos alunos. De uma coisa tenho certeza. Tanto uma como outra não são mais iguais às do meu tempo.

            Já na segunda série, os discentes enfrentavam o básico em disciplinas como Português, Matemática, Geografia, História do Brasil, Ciências Naturais. Submetiam-se ainda a uma prova mensal e como se não bastasse, a prova geral do mês, valendo lembrar que as faltas, desde que não justificadas, eram decisivas para a sumária reprovação do aprendiz.

            Estudava-se ininterruptamente de Março a Outubro de cada ano, à exceção das férias de Julho (ansiosamente aguardadas); o mês de Novembro era reservado aos exames finais, quando havia uma avaliação geral de desempenho e comportamento, após o que, gloriosamente, o boletim escolar vinha com o registro: “Promovido para a 3.ª série, com a média 8”, por exemplo. Caso contrário, o veredicto era impiedoso: “Reprovado”. Nessa hipótese, era oferecida uma segunda chance ao aluno, o chamado “exame de segunda época”, que obrigava o desleixado a estudar durante as férias de Dezembro, para se submeter a nova avaliação na virada do ano seguinte. Frustrada essa segunda tentativa, não havia escapatória: o sujeito era mesmo um repetente!

            Acrescente-se que da terceira série primária em diante, outra e decisiva nota fazia uma enorme diferença para a aprovação ou não dos estudantes daquela época. Eram os famosos “exercícios”, através dos quais o corpo docente tinha a exata medida do desempenho de cada aluno, de modo que a aprovação passava a ser as médias dos exercícios, da prova mensal e da prova geral do mês, tudo sob a direta responsabilidade das professoras, da Diretora do estabelecimento, assim do pai ou responsável, para evitar alegação futura de desconhecimento do que ocorria com os filhos ou dependentes.

            O que fizeram com essa salutar sistemática de ensino?

            Abstraindo o medieval uso da palmatória ou o constrangimento de colocar o estudante de joelhos olhando para a parede, o conteúdo das matérias em si era muito proveitoso. Para evoluir de série, era necessário saber ler e escrever com correção, o que envolvia o pleno conhecimento das regras de concordância nominal e verbal, de acentuação e as normas de tratamento. Os livros de História do Brasil revelavam segredos do descobrimento, da nossa colonização, do período imperial e no surgimento da República, com seus presidentes democraticamente (ou não) colocados no poder. Eu era fascinado pelas aulas de Geografia ministradas com absoluto conhecimento de causa pela professora Maria Jeanett Valente do Couto, assim as demais disciplinas a cargo de professoras como Maria Dilma Vale Nobre, Wanilda Carvalho de Azevedo, Maria Auxiliadora de Souza, Eurídice Bentes Brandão, que atuavam sob a direção de Maria Arlêce Teixeira Bentes e Maria Gessi de Andrade Ferrari.

            A razão do IDEB não ter feito sua pesquisa a essa época se deve, é óbvio, a sua própria inexistência nos anos cinquenta. Período de ouro da educação elementar, quando o alunado alfabetizava-se e passava a dominar sem tropeços os segredos da língua pátria, fato cada vez mais raro na atualidade, até mesmo em textos da lavra de profissionais de formação superior.

            Tenho absoluta convicção que se assim fosse, o tradicional “José Veríssimo” – assim batizado para homenagear uma das maiores glórias das letras nacionais – não apareceria num modesto sétimo lugar, ele que já foi um dos melhores lugares para um ribeirinho parco de luzes aprimorar seu aprendizado, alçando voos para conquistas mais altas e duradouras.

            Não à toda sinto até hoje justificado júbilo ao ler o já desbotado CERTIFICADO que guardo com cuidado, datado de 28 de Dezembro de 1961, assinado pelo Secretário Estadual de Educação e Cultura Professor Antônio Gomes Moreira Júnior e pela Diretora do Grupo Escolar José Veríssimo, a querida mestra Maria José Bentes Tavares (que assim se chamava antes de casar), afirmando que com 13 anos de idade eu concluíra o curso primário com a nota geral 87, acrescentando “...com o qual gozará das vantagens que lhe são garantidas por lei”.

            Que vantagens seriam essas? As legais viriam com o tempo, conforme constatei. As de caráter pessoal, com grande satisfação, eu as descobri de imediato.

 

(*) Presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos.


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