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Célio Simões 03/06/2010 |
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COMPADRE DE FOGUEIRA Célio Simões (*)
Já estamos em junho e a cidade vai aos poucos embarcando no clima das festas dos santos populares. Os primeiros sintomas são as barracas de comidas típicas que podem ser vistas dentro de supermercados e shoppings, com cobertura de palha de buriti, vendendo as deliciosas iguarias da época. Outro indicativo da chegada de junho é o intenso ensaio nos bairros mais afastados, visando o concurso de quadrilhas, hoje descaracterizadas como fenômeno popular e rural, não propriamente pela indumentária, porém pela influência de outros ritmos, principalmente o axé e o forró, fazendo aumentar substancialmente o número de pares nos cordões, que dançam num frenético sacudir de braços como se fossem voar. Nem sempre foi assim. Se tradicionalmente comemorava-se a quadra junina em quase todo o Brasil, com especial destaque para o Nordeste (quem já foi em Caruarú?), o costume de homenagear Santo Antônio, São João e São Pedro sempre fizeram a felicidade das pequenas cidades da Amazônia – Óbidos entre elas. Lembro que a infância descompromissada me fazia assíduo freqüentador das exibições do Boi Bumbá do Antonico Pé de Arpão e da Arara da dona Maria Ramos. Não me foi dado participar da Garcinha, da dona Maria José Ferreira, pois na fase áurea de sua existência já residia em Belém. No entanto, tenho nítida lembrança de serem aqueles magia pura, com os pares evoluindo ao som do pau-e-corda, exibindo-se com desenvoltura nas casas de famílias que previamente os convidavam. Impedido de entrar no Alegria Clube, pela distância de casa, pela idade e principalmente, a míngua de numerário para pagar o ingresso, não dispensava assistir os ensaios do lado de fora, onde as meninas “de segunda” (haja preconceito!) eram bonitas e acolhedoras aos que, morando no centro, para lá se aventuravam. O bom mesmo era repetir essa aventura na rua Dr. Machado ao fim da qual ficava a residência de dona Maria Ramos. Era ela que pessoalmente cuidava das fantasias, da seleção dos brincantes, mandando enfeitar a frente da casa com as famosas bandeirinhas de papel colorido tomando cuidado para que a fogueira, em chamas, não reduzisse a cinzas o trabalhão que tivera para montar as alegorias. As fogueiras eram armadas ou nos quintais ou no meio da rua. O avanço da urbanização e o asfalto foram aos poucos eliminando os quintais, itens indispensáveis à tipificação da quadra junina. Ao redor das labaredas, pessoas ligadas por forte amizade aproveitavam para estreitar ainda mais esse vínculo, tornando-se “compadres de fogueira”. Sem burocracia, bastava circundar as chamas três vezes em sentido horário e anti-horário, sentindo no rosto o calor do braseiro, repetindo de forma simultânea:
“Santo Antônio disse, São Pedro confirmou, que nós seremos compadres, porque São João mandou...”
Pronto. Estava sacramentada uma amizade para o resto da vida, mais sólida do que aquela ungida na pia batismal, dentro da premissa (verdadeira, diga-se de passagem) de que parente a gente já nasce, enquanto o amigo a gente elege. Junho é época propícia para simpatias. No dia doze - dedicado aos namorados - as moças solteiras, desejosas de casar, além de colocarem a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo sob a cama, tinham a mania de enterrar uma faca no tronco da bananeira para tirá-la no dia seguinte. Acreditavam piamente que a lâmina, refletia nas matizes do sol do meio dia, revelava as iniciais do príncipe encantado, não fossem elas próprias a vislumbrarem as letras a seu bel prazer. Nenhuma delas, já casadas, admitiu a prática anterior desses rituais, fruto da imaginação de quem vivia encalhada. Meu vizinho na Dr. Machado era o jovem Prefeito Dr. Hélio Marinho, que fazia questão de contratar os cordões (bois ou pássaros) para exibição em frente à sua casa. Era um palco privilegiado. Tangidos pelo acordeão, pandeiro, violão, triângulo, zabumba e cavaquinho, sem os quais nenhuma quadrilha vingava, lá vinham os “matutos” com suas roupas chamativas dançando ao compasso binário que propiciava o cadenciamento das marcações, com um “noivo” e uma "noiva” à frente do grupo, pois toda quadrilha que se preza termina com um casamento ou a ressurreição do animal abatido pelo caçador, pelos infalíveis remédios do pajé. No mais das vezes, o desafio entre os brincantes descambava para a desfeiteira. Versos improvisados que faziam rir pelo que tinham de irreverência. O cavalheiro para a dama:
Sai daqui sua fedorenta, sua catinga de mucura, se na vida tu já fede, que dirá na sepultura!
E ela, fazendo-se de ofendida:
Axí pixelento!
Ou então:
Menina case cumigo sô rapaz inteligente, só quero que vucê mi dei sua caixinha de fazer gente
E ela, revoltada:
Mamãe, este corno tá com saliença pro meu lado!...
Nunca deu nenhuma briga. Tudo era encenação, própria da época. Nessa festiva quadra a molecada se esbaldava soltando estalinho, foguetinho, cabeça-de-negro, rojão, buscapé e cobrinha que com o tempo foram sendo abandonadas pela possibilidade de acidentes. Outro detalhe desse nostálgico período eliminado por completo foi o costume de soltar balões de belíssimos efeitos visuais, que subiam ao céu ao sabor do vento do Amazonas e iam pousar não se sabia onde – até que veio a legislação federal banindo-o em definitivo pelo risco de incêndio que representam. Também a meio caminho ficou o famoso mastro de São João, erguido em louvor aos aludidos santos populares, no topo do qual eram amarradas três bandeirinhas, lá permanecendo durante todo o mês de Junho. As jovens queriam porque queriam apenas tocá-lo, para ter a certeza do matrimônio no ano subseqüente... O que restou mesmo daquele tempo tão gostoso? Uma única vez cheguei a integrar uma quadrilha onde o ritmo dos ensaios só não foi melhor porque as músicas eram tocadas pelo sanfoneiro Pió Pió. Um desastre. No dia da festa, enfiado numa calça remendada e chapéu de palha, com minha parceira envergando um vestido de chita, dançamos a noite inteira no espaçoso quintal confronte a esquina do Bar Andrade, ao som animado de um conjunto musical contratado no Arapucú. O arraial varou a noite e não faltou broa de milho, canjica, pamonha, munguzá, aluá e bolo de macaxeira. Lá pelas tantas, adentrou gloriosamente na ramada o “Galo da Serra” do amigo Antonico, que vinha na frente enfeitado parecia um rei. O forró virou até uma da madrugada, hora avançadíssima para aquela Óbidos de quase cinqüenta anos atrás. Daquele junho de ontem é que guardo boas imagens, tão gratas quanto distantes. Lendo esse despretensioso texto, muitos obidenses da minha geração haverão de concordar que tivemos uma fase gloriosa de tradições juninas, hoje rarefeitas. Até São Marçal, celebrado no último dia do mês com a queima de paneiros velhos, perdeu por completo o status e nem é mais comemorado. Num rápido cotejo, o que se vê pelos jornais é o aceno de noitadas juninas animadas por bandas tipo “Aviões do Forró”, de cantoras como Viviane Batidão ou do Mike do Mosqueiro, incumbidos de incrementar as cotoveladas com a ajuda de anônimos DJ’s, atacando de technobrega, que definitivamente sepultaram a espontânea alegria dos antigos pau-e-corda.
Não é culpa deles se a coisa mudou de
figura. Não há mais lugar para o “compadre de fogueira”, que
sem dúvida tornou-se um costume em extinção. Não exatamente
pela ausência de amizades sólidas, que estas felizmente
ainda existem para compensar aquelas que não o são. O que
não mais se vislumbra são as vistosas, calorentas e
crepitantes fogueiras, em torno das quais as pessoas selavam
sem maiores formalidades o antigo e bom compromisso de
sincero afeto para a vida toda.
(*) Membro da Academia Artística e Literária de Óbidos. * Saiba mais sobre Célio Simões no nosso painel de personalidades: Clique Aqui |
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