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Célio Simões 20/04/2010 |
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CARLOS ANTÔNIO Célio Simões (*) Numa folga dos afazeres, passei a vista na excelente crônica do Carlos Antônio publicada no famoso Portal de Óbidos sob o título “O BOTE DO SUCURIJU”. A dinâmica da narrativa, marca da personalidade do autor, é da melhor qualidade. Frui com rapidez e sem obscuridade, ao tempo que discorre sobre tema na qual esse grande amigo possui significativa versatilidade: as cenas do interior da Amazônia. “Escrever bem não é o que se pensa”, como afirmou Lasswell, professor da Universidade de Michigam, antes de conceber, nos idos dos aos setenta, as normas básicas para tornar mais efetiva a comunicação. O episódio trazido a lume pelo Carlos poderia pura e simplesmente circunscrever-se à sua parte mais central, qual seja, o terrível ataque de uma sucuri sofrido por seu companheiro de aventura, quando confiante e despreocupado lançou-se na água em busca de sua imbiara, mortalmente ferida pelo certeiro tiro da cartucheira. Mas seria só isso? A ser assim, o episódio ficaria nos limites de mais uma “estória de caçador” que, convenhamos, não desfruta de boa fama na grã-finagem, gente que nunca tirou o sapato a não ser para dormir ou tomar banho, apta a conceituar tais façanhas como deslavada lambança. Além do fato propriamente dito, que assusta quantos tenham a exata noção do ataque de uma bicha desse tamanho (uma robusta sucuri já passou à minha frente, no retiro do Pau Mulato, saindo da capoeira para entrar no igarapé e a única reação que tive foi ficar imóvel sobre o cavalo), aparentemente esgota-se aí o interesse do leitor. Nada obstante, o meu prazer ao esmiuçar a crônica foi muito mais além. A literatura pretende, por meio da criatividade e da palavra, causar um prazer ao leitor. Num texto literário deve ser valorizada a palavra, diria eu, mesmo em épocas de distintas tendências. Talvez herança direta de Vieira, Bilac, Coelho Neto e Rui Barbosa. Nos versos, onde a intenção do prazer se revela mais ostensiva, a seqüência vocabular pode não ter nem sentido lógico, porém vale pelo impacto visual, pela impressão sonora ou a excelência estética, de que são exemplos clássicos Guimarães Rosa e James Joyce. A pretexto de contar o que aconteceu numa caçada nas brenhas da Amazônia, o autor de “O BOTE DA SUCURIJU” aborda com desenvoltura todo o universo de sua adolescência em Óbidos. Da nossa, melhor dizendo. Com esse inteligente artifício, Carlos revela, acredito que inadvertidamente, sua face Modernista, movimento liderado por Oswald de Andrade, sobrinho de Inglês de Sousa, que em 1922 esteve à frente da Semana de Arte Moderna, buscando diminuir a distância entre a linguagem artística e a linguagem cotidiana, para tornar a arte (inclusive de escrever) mais próxima do povo – esse povo que a origem e o fim da arte. Para um tempo que já se conta em décadas, foi uma delícia lembrar das nossas vidas naquela cidadezinha pacata e sonolenta, apartada do mundo, carente de notícias recentes (nem pensar na era virtual), onde a energia elétrica só era fornecida das dezoito horas à meia-noite, inexistiam os veículos de passeio ou de serviço e se morria muito pouco do coração porque todo mundo andava, subindo e descendo as famosas ladeiras cimentadas da “Cidade Presépio”. O que o Carlos não disse e me permito faze-lo, é que fomos e somos até hoje muito amigos, mercê da influência das nossas famílias, muito ligadas. Minha mãe era comadre da mãe dele, meu pai e Carlos Silva eram partilhavam o sofrimento nas enchentes, Anete e Fátima tinham estreita ligação com minhas irmãs e nosso atual Prefeito Municipal, o caçula do clã dos Silva ainda criança ganhou um apelido que só a autoridade do cargo não me permite revelar. A convite do Carlão (assim era chamado no Colégio São José) eu ouvia na “eletrola” de sua casa os sucessos dos Beatles, as músicas do Roberto, Erasmo Carlos, Vanderlea, Martinha, Jerry Adriani, Rosimary e outros menos votados, porque simplesmente em casa não dispúnhamos dessa maravilha – na verdade, um móvel de madeira quase do tamanho de um guarda-roupa. Certa vez, já mais taludos de idade, ao ensejo de uma dessas sessões de música, ele chegou perto do mim e com cara de cúmplice, convidou: - Célio, vamos hoje à noite tomar um “quinado”? Fiquei receoso porque meu pai, apesar de fumante inveterado, detestava bebida alcoólica. - Vamos. Onde a gente se encontra e a que horas? - Sete da noite, no Bar do Plácido! Deixa que eu pago... Pretextando um giro na Praça de Sant’Ana (absurdamente batizada de Praça Barão do Rio Branco), quando cheguei, o Carlos já estava abancado me esperando. Com ar de dono do pedaço deu a ordem: - Plácido, traz duas batidas de cacau. Delícia de mata bicho! Tomamos outro. E mais outro. Arrematamos com uma dose de rum Bacardi, para fazer subir a pressão. Como a garrafa era em formato achatado e ficou sobrando a metade, a sugestão foi acabar de vez com seu intragável conteúdo. Chegou o Orlando Santos e dividiu conosco o saldo de nossa insaciável experiência de ébrios. Logo depois alguém chegou com o boato: Estava havendo festa na ARP, localizada confronte de onde estávamos regurgitando de mulheres bonitas. Todo mundo se mandou. No pórtico do salão, seu Franemil Loureiro, fortão e com fisionomia austera nos olhou de alto a baixo, fez uma avaliação do nosso estado etílico e permitiu o ingresso. Até hoje não descobri o que fui fazer lá, porque a maldita já operara seus efeitos, meu corpo estava entorpecido, a vista troncha e minha coordenação motora não acompanhava o ritmo animado da dupla Graci e Duquinha, um no sax e outro no trombone, que atacavam de “Estou guardando o que há de bom em mim; para lhe dar quando você chegar...”. No terceiro tropeço que dei no pé da Malvina, a moça que comigo tentava dançar, a simpática filha do seu Arlindo fez um esgar de dor e resolveu me despachar com a polida desculpa de que estava muito cansada. Voltei para casa cercando frango Bacuri abaixo e fui me homiziar em meu quarto, sem ter a mínima idéia do destino do Carlos e do Orlado, naquela terrível noite na qual a irreverência da juventude me condenou dia seguinte a uma ressaca de fazer chorar. Além da sólida amizade e grande admiração que tenho pelo Carlos, cuja presença abrilhanta a Academia Artística e Literária de Óbidos, arquiteto talentoso e arguto observador da vida e dos costumes da Amazônia, devo a ele a decisão definitiva que tomei em razão daquela frustrada experiência, após passar mais de meia hora pisando no pé da Malvina: a de me tornar abstêmio, contentando-me nas efemérides com um singelo copo de suco ou de Guarasuco, se é que alguém ainda fabrica essa deliciosa água choca em algum lugar deste gigantesco Pará. (*) – Membro da Academia Paraense de Jornalismo. * Saiba mais sobre Célio Simões no nosso painel de personalidades: Clique Aqui |
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