Célio Simões                                                                                                                                                              31/03/2010

MARIANA

Célio Simões (*)

 

            - Se eu tivesse medo de cara feia não me mirava no espelho!

            - Calma, meu bem, a mamãe não merece isso...

            - Então diz pra ela não me olhar enviesado nem encher o saco, ora bolas!

            Que cara grosso, pensou Angelina, ao ver aquela demonstração de hostilidade do marido. Até que ele era trabalhador, responsável, botava comida para dentro de casa, não bebericava nos botecos, mas aquele gênio tipo cruzamento de zebu com tracajá era difícil de suportar. Vivia de pinima com sua mãe, hostilizando-a de modo nada civilizado, pois nela via uma contumaz fofoqueira, conquanto fosse pessoa imprescindível em sua vida porque, viúva há anos, transferira para a filha e seus três netos toda sua afeição e cuidados. Três netos vírgula, porque ainda tinha aquele unzinho que já estava na barriga, porque o Raimundão não lhe dava folga. Mas que seu marido era um baita casca grossa, isso era.

            Diga-se ainda a seu favor, que não batia nela nem nos filhos, pelo contrário, se alguém mexesse com os meninos, fosse quem fosse, o pau cantava na hora, pois sua família era o centro de suas atenções, onde ele reinava absoluto; ela, por exemplo, não podia olhar nem de esguelha para um homem bonito, casado ou solteiro, porque o ciúme explodia no mesmo momento sem contemplações e o candidato a galã submetia-se ao risco de uns sopapos. Era um homem perigoso pelo seu potencial de agressividade, por isso que ela de há muito resolvera não se relacionar com ninguém, apenas com as comadres de sempre, para o que  Raimundo não confundisse sua vida social com acesume...

            Nesse dia, depois de uma semana longe da cidade trabalhando no sítio, o marido voltou para casa acabrunhado. Não abraçou como de costume seus três filhos; e quanto a ela, aquele costumeiro olhar de desejo, de promessa subliminares de mil peripécias à noite, esse mesmo é que não veio. A mulher resolveu puxar conversa:

            - Raimundo querido tu quer um café? A mamãe prepara agorinha...

            - Angelina, não mete a tua mãe na conversa. Ela só está aqui em casa por causa de ti. Tu sabe aquela piada de que toda sogra só devia ter dois dentes, um pra abrir tampa de garrafa e o outro pra doer o ano inteirinho? Pois é o caso dela – então deixa ela pra lá!

            - Pôxa Mundico, que coisa! Deixa a mamãe em paz... Afinal, que bicho te mordeu?

            - Não foi em mim, foi na Mariana...

            - O que foi que houve com aquela menina?

            - Morreu!

            - Não acredito! Me conta pelo amor de Deus. Morreu como meu velho?

            - Mordida de cobra. Eu sempre disse que andar de noite no murizal é perigoso, mas ninguém me escutou.

            Sob os olhos atônitos de Angelina, agora acompanhada dos filhos de cinco, três e dois anos e da indesejável sogra (que não perdia uma novidade...), Mundico se deu ao trabalho de narrar o episódio.

            Mariana, por algum tipo de miscigenação com italiano ou qualquer outro estrangeiro, diferente do biotipo da cabocla amazônica, era uma jovem branca, alta, olhos azuis e cabelo alourados, cor de violão velho. Já completara 15 anos e vivia os sonhos próprios da juventude. Adorava fantasiar-se nas festas juninas, onde brincava nos cordões de pássaro e daí para os bailes de verdade, geralmente em homenagem aos santos da devoção local foi um pulo, para a felicidade da rapaziada que a disputava na dança, embora não namorasse com nenhum. Era apenas o prazer da diversão pela diversão, como fuga do trabalho desenvolvido num sítio próximo ao Flexal, onde ela morava.

            Nesse dia a festança era a de São Pedro, mês de Junho, nos arredores da famosa Vila. Um grupo de jovens, não mais que dez ou doze, resolveu ir a pé pelo tortuoso caminho que levava à pequena igreja de madeira da comunidade, ao lado da qual ficava a ramada, trajeto previsto para um pouco mais de duas horas entrando pela noite, considerando a saída, já ao crepúsculo. A marcha até certo ponto foi acelerada para ganhar tempo e quando a escuridão caiu por completo, apenas duas lanternas divisavam os obstáculos da estradinha principal e depois, os muitos encontrados no atalho aberto no mato a facão, que encurtava significativamente a distância. Todos queriam chegar, pois o evento prometia muita alegria e comida à vontade até o amanhecer do dia subseqüente... não podiam perder aquela tremenda boca livre.

            Mais além, o grito de Mariana pegou a todos de surpresa!                         

Apontando para os pés descalços, disse que alguma coisa a mordera. À luz mortiça da lanterna, dois filetes de sangue podiam ser vistos brotando dos orifícios abertos em seu tornozelo direito. O veredicto foi unânime: picada de cobra. Os mais velhos do grupo reuniram-se, confabularam e decidiram voltar, dada à incerteza de ser ou não venenosa a serpente, porém foi a própria Mariana a insistir que desejava dançar e, tendo transcorrido mais da metade do caminho, o correto seria chegar ao Flexal, onde poderia fazer um curativo.

            Prosseguiram e essa decisão foi catastrófica, porquanto o esforço físico da caminhada ativou a peçonha fazendo que atuasse com mais virulência em seu sistema linfático. Nem bem andou duzentos metros, a menina cambaleou, queixando-se de tontura e dormência na perna atingida. Suava frio e não se agüentava mais em pé, restando sentada à margem do estreito caminho. A festa e a perspectiva de diversão foram para o espaço, pois todo o grupo resolveu retornar dessa vez carregando Mariana, no cansativo sistema “braço a braço” imitando cadeirinha; ou era assim ou ficaria ela abandonada, pois estava prostrada, dando a certeza que fora vítima de surucucú, a víbora mais venenosa, letal e temida da Amazônia.

            Ao chegarem já tarde da noite, a família de Mariana, os amigos, os vizinhos, o próprio Raimundo foram acordados, informados do fato e mobilizados para prestar o indispensável adjutório, mesmo sabendo que sem antiofídico ou a possibilidade de removê-la para uma cidade dotada de médico e hospital, suas chances de sobrevivência periclitavam. Deitada numa rede sem o controle dos movimentos, a moça foi tomada de uma palidez de moribundo, o suor encharcando lençóis, o tornozelo atingido mais inchado ainda estrangulando as unhas, agora completamente roxas, embora com esse quadro mórbido estivesse ainda lúcida, falando apenas o necessário para implorar por água.

            Todos os remédios caseiros concebidos pela tradição local, afora aqueles inventados na hora, mostraram-se inócuos para debelar aquela situação desesperadora, a bem dizer irreversível. Saíram atrás de um afamado Curador de Cobras, um sujeito moreno, alto, analfabeto e solitário, que perambulava nas imediações do Flexal bebendo cachaça com um surucucu vivo dentro de uma saca encardida lugar de farinha, tão asquerosa como sua própria roupa, que há muito não era lavada. Demoraram um tempão para voltar com o homem cujo nome era Apolônio, que chegou porre que não se lambia e pediu mais uma garrafa de pinga aos donos da casa. Trocando as pernas, escondeu-se nos fundos da residência e mais de meia hora depois voltou com uma bebida avermelhada num caneco de alumínio amassado, de sabor escandalosamente intragável, afirmando que aquela gororoba seria capaz de neutralizar o fulminante veneno. O problema é que a moça já não conseguia nem mesmo deglutir a água pela qual tanto clamava. Não foi mesmo possível fazer nada. Quando Mariana morreu por impossibilidade de respirar, os olhos estavam sem brilho, o inchaço da perna alcançava o joelho e o arroxeado das unhas dos pés vislumbrava-se também nas mãos. Constatado o óbito, um convulsivo soluço explodiu das entranhas de Raimundo, virtualmente transtornado com a perda de Mariana. Pouco mais de seis horas sobreviveu após ser atacada pela surucucu. A consternação foi contagiante e era por isso que estava tão amuado; a jovem, que conhecia desde bebê, foi sepultada por lá mesmo e ele um dos escalados para carregar o caixão; todos na comunidade ficaram arrasados com a perda fútil e inesperada daquela menina de fala amena, educada, meiga, linda...

Voltou a desforrar sua raiva na pobre da sogra:                                         

            - E eu chego aqui aporrinhado por isso e tu chama logo tua mãe pra fazer café!

            - Por favor, Mundico, eu não sabia de nada...

            - Agora tu tá sabendo. E tem mais uma, não quero conversa com essa velha durante toda a semana, até eu voltar novamente pro sítio.

            - Mas Raimundo... não foi ela que mordeu a Mariana!

            - Se mordesse ela morria na mesma hora e não seis horas depois...

            Angelina desistiu daquele absurdo diálogo. Foi tomar um gostoso banho no tanque, alimentou os filhos, atou uma rede bem larga cheirando a sabão barato, deitou e dormiu um relaxante sono para esquecer seus problemas pessoais e sua atribulada vida com aquele homem apataquado, genioso e intolerante.

            Quanto ao Raimundo, seguiu a vida imerso em suas cavaqueações trabalhando na roça para o sustento da família, porém ruminando dia e noite sua aversão pelo que agora mais detestava na vida: a sogra e as serpentes, aquela mais do que estas, pois em seu tosco modo de ver, ambas, pelo veneno que destilavam, eram exatamente a mesma coisa...

 

 

(*) Membro da Academia Artística e Literária de Óbidos.


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