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Célio Simões 16/10/2009 |
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DELÍCIA DE FÉRIAS! Célio Simões Sem maiores lucubrações, todas as cidades interioranas além dos seus encantos, peculiaridades de clima, tradições, costumes, vida social e econômica e os relacionamentos de amizade ou vizinhança, não prescindem das tradicionais homenagens aos santos da devoção local. O Círio em Belém já é um exemplo enfático, mesmo em se tratando da capital do Estado. A cada ano um mar de gente ergue as mãos em direção à Virgem de Nazaré, martiriza-se na corda, entram num visível transe de espiritualidade numa cena que não passa despercebida ao observador, como se fora um mudo e torturante diálogo entre o devoto e a Santinha. Há romeiros que vêm de longe para assistir esse momento mágico. E todos se deixam tocar pela imanente energia que paira no ar, visível nas múltiplas romarias, no trânsito, nas ruas transbordantes de gente. Foi assim este ano, num dos melhores e maiores Círios que o povo paraense já testemunhou. No interior não é muito diferente. Fala-se que na romaria de N. S. da Conceição, cerca de 120 mil pessoas conduzirão a imagem pelas calorentas ruas de Santarém. Óbidos não foge à regra, porém é conveniente registrar que a vida religiosa da Terra Pauxis remonta a épocas remotas, quando a então Igreja Paroquial de Óbidos ainda possuía uma única torre (a do lado direito de quem a vê de frente) e em estado ruinoso, foi recuperada graças ao empenho de Frei Rogério Voges. Além da matriz, quatro templos menores existiam no Município - uma no Paraná de Dona Rosa, outra no Paraná de Baixo, no Lago São José e na Colônia. O que talvez só os mais antigos saibam, é sobre a existência de inúmeras irmandades e congregações, reunindo homens e mulheres, que foram sendo fundadas ao longo do século passado e paulatinamente desapareceram, quer por falta de adeptos, quer por ausência de estímulo, senão ambos ao mesmo tempo. Lembro de todas e posso enumerá-las com relativa facilidade, valendo-me da pesquisa para elencar o ano da fundação de cada qual. a) Apostolado da Oração (1904); Ordem III de São Francisco (1912); Pia União das Filhas de Maria (1912); Conferência de São Vicente (1927); Arquiconfraria de N. Sra. Do Perpétuo Socorro (1934); Congregação Mariana dos Moços (1937) e Cruzada Eucarística (1942). Vale acrescentar que a paróquia de Santana, na década de cinqüenta, mantinha uma biblioteca (fundada em 1940), confiada à administração dos Marianos, com mais de 500 volumes, destinada a subsidiar o ensino de crianças carentes, não mais de cinqüenta, matriculadas na Escola São Francisco, que tantos e tão bons frutos deu à comunidade obidense. A par do São Francisco havia outra escola confessional, para a juventude exclusivamente feminina, o querido Colégio São José, que anos mais tarde, precisamente em 1962, daria início ao ensino público e gratuito do curso ginasial, graças aos ingentes esforços de Dom Floriano Loewenau, nosso primeiro prelado, junto ao Governo do Estado. Nos primórdios, naquele educandário onde boa parte das alunas eram “internas”, laboravam treze irmãs da Imaculada Conceição, congregação religiosa fundada em Santarém pela Madre Elisabeth Tombruck, missionária que dedicou sua vida ao serviço dos pobres, tendo trabalhado com o Padre Manoel Albuquerque e com Dom Amando Bahlmann, o segundo Bispo da Pérola do Tapajós. O dito internado vivia sempre lotado de jovens do interior e das cidades vizinhas, e o alcance máximo da escolaridade era a conclusão, após o primário, do Curso Normal Rural, sem prejuízo do aprendizado de datilografia, corte e costura, arte culinária, educação física, albergando o vasto prédio também um Jardim de Infância. Entretanto, o Colégio São José viveu outras fases. Até o final do ano de 1920, foi administrado pelas Irmãs Franciscanas da Silésia que após meritório labor, debandaram rumo ao Peru. Conquanto as dificuldades de caixa, as freiras da Imaculada Conceição que deram continuidade daquelas ministrando aulas gratuitas no curso primário, ganhou um reforço de peso. A chegada de Irmã Michaela, enfermeira formada, que dedicou seu tempo útil ao tratamento dos doentes da Santa Casa de Misericórdia, instituição fundada pelo Capitão Médico do Exército Dr. Braulino – cuja foto encimava a porta de entrada do antigo hospital, onde atualmente funciona o Fórum Cível – cujo destino desconheço porquanto jamais estive no novo nosocômio. E pensar que o imponente prédio do Colégio São José encontra-se em situação ruinosa, ameaçando desabar, tanto que o Ministério Público já adotou providências cobrando a responsabilidade de quem tem o dever de conservar incólume esse ícone da cultura obidense... Detalhei isto tudo até agora porque fiz parte de uma congregação, a de São Vicente de Paula, embora a pouca idade nem me permitisse saber direito o que eu fazia por lá. É que meu tio José da Silva Simões, que era “vicentino”, mudou-se de mala e cuia para o Rio de Janeiro e deixou-me incumbido de representá-lo nas reuniões da instituição, realizadas na sacristia da Matriz de Sant’Ana, logo após o término das missas de domingo. Presidida pelo alfaiate Paulo Matos, secretariada pelo Cartorário Enéas Cavalcante e com maciço comparecimento de circunspetos senhores vestidos de terno branco, era lida e invariavelmente aprovada a ata da reunião anterior, tratados os assuntos do dia, escolhidos os locais onde seriam distribuídos os óbolos e finalmente, o momento da coleta, onde cada qual dos participantes se “coçava” e depositava numa sacola de tecido roxo determinada quantia em cruzeiro. Como seguro morreu de velho, eu já ia com a grana (dada por meus pais, obviamente) separada no bolso da calça curta, da qual ainda sobrava algum para o sorvete do Bar Andrade. Ao encerrar, o saudoso Paulo desejava boa semana a todos e no domingo subseqüente tudo se repetia, num grande e fraterno reencontro. O tempo incumbiu-se de pulverizar a Conferência de São Vicente, pelo menos quanto à minha direta participação e a dos demais, hoje vivendo em outra dimensão. Mas involuntariamente os obidenses passaram a prestigiar um outro evento religioso – as festividades da Padroeira Sant’Ana – que a cada Julho faz convergir para a “Cidade Presépio” seus filhos queridos espalhados pelo país afora, que mitigam as saudades no costumeiro jantar no Clipper da Santa (e que jantar!...), nas gélidas e cristalinas águas do Curuçambá, perlongando as afamadas ladeiras e casarões ou dando uma esticada até o Curumú, um dos nossos mais belos cartões postais. Salinópolis nas férias? Paciência... Em julho deste 2009, a par da instalação da Academia Artística e Literária de Óbidos no centenário prédio do Quartel, hoje Palácio da Cultura José Veríssimo – justa homenagem ao mais ilustre dos obidenses – onde tomaram posse em marcante solenidade os ilustres confrades Luiz Arthur Brito da Silveira, Francisco José Alfaia de Barros e Hugo Antônio Ferrari, o primeiro vindo lá da paulicéia, tive o privilégio de um giro pelos arredores da área urbana, com dois dos meus melhores amigos, Ademar Aires Amaral e Carlos Antônio Barbosa da Silva, o primeiro dirigindo um carro estalando de novo, ainda cheirando a galalite... Finalmente conheci o bairro de Bela Vista, de onde nos ofusca o intenso brilho do Laguinho, nos esmaga o paredão da Serra e se descortinam em suaves matizes de verde e lilás os quintais floridos felizmente ainda existentes da urbe lá embaixo. Pura magia. Até mesmo nos momentos em que quase fomos compelidos a carregar o veículo, tamanha a carência de suas ruas por uma melhor pavimentação, impossibilitada tenho certeza pela insuficiência de recursos dos minguados cofres da Prefeitura, logo agora, que os repasses encolheram assustadoramente. Esticamos até a Praça do Ó e protegidos do sol a pino pela generosa sombra de uma castanholeira, fartamo-nos da refrescante e furiosa ventilação vinda do Paturi, que subia em nossa direção fazendo da Rua Justo Chermont natural passarela para aquele estranho fenômeno do equinócio. O Rio das Amazonas transbordante, na maior enchente que se tem notícia há mais de um século, não é necessário reforço de argumento para convencer do desespero dos fazendeiros vendo o rebanho definhar e, em contrapartida, do êxtase de quem o contempla a “Passagem Heróica”, postado na amurada da antiga Capela do Desagravo. Para não dizer que perdi o jeito para a coisa, na véspera do meu retorno arrisquei uma pescaria nos arredores do porto da CDP. Poderia ter sido melhor, claro, porém com toda aquela quantidade de água os peixes tomaram “doril”, porém com pertinácia insisti e o esforço foi compensado com a captura de algumas espécies, todas elas arroladas como “peixe de pele” – os conhecidos peixes lisos – que em Óbidos, terra abençoada e de enorme fartura, nenhum vivente dá o menor valor. Escolhi o maior deles (quase dois quilos de peso) e voltei para a pousada Braz Belo, onde me hospedara ávido por saboreá-lo – afinal, reza o manual que todo pescador não pode desprezar sua embiara. Para minha tristeza e para revolta do Sr. Pedrinho, as cozinheiras torceram o nariz e me mandaram em frente, dizendo: “É surubim? Não? Nós não comemos isso...”. Fiquei à porta do simpático hotel, torrando ao sol, oferecendo-o aos passantes; fui tomado pelo desânimo quando um sujeito, com aspecto bem modesto, redargüiu: “...se fosse um tambaqui tu não tava me oferecendo...”. Senti-me um trapo. E ante tantas e afrontosas recusas, decidi que só sairia dali depois de sua aceitação por alguém. Seria uma aposta contra o sol, o cansaço, a fome e a sede. Mas N. S. Sant’Ana não deixa ao desamparo seus mais diletos filhos. Fui salvo pela Lindora, amiga de infância, que chegando a sua casa vislumbrou a cena inusitada, indagou do porquê do autoflagelo e prontificou-se a aceitar a bela piramutaba, provavelmente por espírito humanitário para com este pescador, que se contenta até com desavisadas sardinhas. Mosqueiro, Fortaleza, Rio de Janeiro, Serras Gaúchas, Europa nas férias? Me poupem... Retornei da Terra dos Pauxis quase em estado de graça, tantas foram as alegrias pelo reencontro com amigos queridos, ainda sentindo nos pés o palmilhar nas ruas estreitas da cidade que dormita o secular sono das velhas urbes portuguesas, onde deixei plantada minha infância, e como dito no início desta crônica, a exemplo dos demais lugares interioranos, restam fincados no espírito e no coração suas peculiaridades, tradições, costumes, relacionamentos e as tradicionais homenagens e reverências aos santos da devoção local. Quem não vai, fica em débito com Sant’Ana, mãe da Virgem de Nazaré, que arrebanha um mar de gente a cada outubro, movido por essa força anímica que se chama fé. Neste Julho/2009 todas as pessoas muito queridas estavam lá e isto não é pouco. Aliás, quase todas. Mas essa é outra estória, a ser oportunamente contada... * Saiba mais sobre Célio Simões no nosso painel de personalidades: Clique Aqui |
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