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Célio Simões 31/10/2007 |
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MARIA CAPETA Quando a “Diacui”, nossa embarcação movida a motor Penta de 4 HP, habilmente conduzida por meu pai, aportou naquele dia de setembro de 1952 no porto da fazenda Capela, eu o esperava ansioso porque de suas viagens a Óbidos, via de regra para fazer compras, trazia ele sempre um punhado de bombons para adoçar a boca da criançada, guloseimas compradas na Casa “Careca”, firma cujo titular, José Imbelloni, era seu compadre e amigo. O nome da loja era uma referência à sua completa calvície, que ele de forma divertida adotou sem qualquer ressentimento. As guloseimas ficavam guardados em uma lata de aveia Quaker e quem tivesse bom comportamento ganhava sua cota no final da tarde. Meu velho sempre viajava só. Era a um só tempo piloto, marinheiro e maquinista, como soe acontecer com quem se utiliza desse tipo precário de transporte. Motor de popa sempre foi sinônimo de pane inesperada, pela constante quebra de pinos, velas imprestáveis pela ferrugem ou capim enrolado na hélice. Vivenciei tais episódios inúmeras vezes, quer em nosso próprio meio de transporte, assim naquele alugado ao Lisbino, um bote batizado com o nome de “LISNATO“ (mistura do nome do dono com o de Nonato, seu primogênito). As vezes a máquina simplesmente “não pegava”. Quem passava por esse transtorno próximo ao cais, não escapava dos rotineiros gracejos: “Cospe na vela que pega”... Naquele dia, no esplendor dum setembro de muito sol, vento e maresia no Amazonas, a novidade ficou por conta da passageira que meu pai conduzia a bordo. Negra, forte, cabelo estilo “black power” que não via pente há meses, pés descalços rachados no calcanhar, perna piririca de urubú geréua, rosto redondo e olhos apertados de onça maracajá, não encarava ninguém de frente. Mal a Diacui tocou a restinga, começou a azáfama para aliviar a carga de mantimentos e ela ali parada, simplesmente olhando. Nenhuma disposição para ajudar. Como que adivinhando meu interrogativo olhar de moleque de cinco anos, meu pai fez a objetiva apresentação: “Esta aqui é a Maria; veio pra morar conosco”. Caminhamos todos em direção ao casarão da fazenda, passando pelos troncos flutuantes improvisados como ponte, levando cada qual o que podia carregar. Ela, a tal Maria, portava uma trouxa de roupa, pouco mais que andrajos e um paneiro forrado com folhas de guarumã recheado de bejú. Era sua modesta provisão alimentar. Mamãe estava nos esperando na parte superior da escada de seis degraus e fez festa ao ver as compras, indispensáveis ao mínimo necessário para uma família que já somava quatro crianças. Entretanto, passeou o olhar entre papai e a estranha, como a indagar o que fazia ali aquela criatura esquisita, que nunca vira na vida. Aí veio a definitiva explicação. O Juiz de Direito de Óbidos, Dr. Reynaldo Xerfan (que anos mais tarde morreu de enfarte em Belém, em pleno estádio, assistindo um jogo do Paysandu X Remo) já havia conseguido na base da amizade empregar aquela figura como doméstica na casa de algumas famílias da cidade. Pouco tempo depois ela era gentilmente “devolvida” ao Juiz, com as mais diversificadas queixas, porque vivia aprontando, tudo levando a crer que ela não era muito certa das idéias. Tinha repentinas crises de fúria. Da última vez, armada de um terçado “rabo-de-galo”, botou toda uma família para correr, pelo simples fato de não haver gostado da ordem que recebeu da dona da casa para lavar uma peça de roupa. Ficou mofando da delegacia, mas até os presos tinham medo dela, porque parecia uma fera acuada, capaz de matar para sobreviver. Foi aí que o Dr. Xerfan conversou com meu pai e sem rodeios, expôs o angustiante problema. Tudo que sabiam dela era o prenome - Maria. Não tinha carteira de identidade, certidão de nascimento, título de eleitor, nem mesmo noção do dia, ano e local de seu nascimento. Apenas que viera de Manaus, arribada num navio da antiga SNAAPP, após se envolver numa briga no cais do porto. E no cárcere ela não podia continuar, porque não havia condições adequadas para sua permanência. Talvez o ar puro e a vida livre na fazenda... Meu pai era pessoa de boa índole, bonachão, que na vida só fez amigos. Aquiesceu ao pedido do Juiz e levou para casa aquela figura lombrosiana, de aspecto sinistro, autêntico cruzamento de bode com surucucu. E não demorou muito ela começou a botar as unhas de fora. Mamãe dava uma orientação quanto aos serviços domésticos e ela ostensivamente desobedecia. Passava o dia enfiada nos cantos da espaçosa residência, resmungando desaforos e quando estava com fome, desandava a rosnar palavrão. Ganhou roupas, sandálias, uma rede nova e outras prebendas; alimentação não faltava pela abundância de leite, mandioca, frutas, peixe e caça, mas Maria vivia permanentemente insatisfeita, o olhar de ódio fuzilando a família que a acolheu e os demais empregados da fazenda. Não trocava palavra com ninguém. Não era chegada a tomar banho. Suas obrigações eram módicas: ajudar na cozinha, lavar a louça, enxaguar uma que outra peça de roupa e uma vez na semana passar uma vassoura de piaçava na parte assoalhada da casa. O resto do tempo era exclusivamente seu, para repouso, sono ou alimentação. Porém nada disso a seduzia. Seu espírito malévolo vinha à tona mesmo na execução de pequenas tarefas. Costumava pegar a panela de água fervente e com ela se esgueirar por trás do imenso fogão a lenha, para dar um banho escaldante no “Boca Negra” nosso cão de guarda, que disparava desesperado no rumo do aningal; o pobre animal não podia ver ninguém com uma panela na mão que saía de carreira, instintivamente condicionado pelo efeito da gratuita agressão. Por essas e outras ganhou o apelido de MARIA CAPETA, porque todos nós, que dela tínhamos verdadeiro pavor, estávamos convictos que ela tinha “parte” com o “Cramulhão”. De outra forma não seria possível justificar suas atitudes irracionais, agressivas, o jeito diabólico e o olhar acúleo de ofídio com que encarava as pessoas, sem nunca sorrir ou demonstrar qualquer sentimento de afeto ou gratidão por aquilo que recebia. Cansei de vê-la se internar no mato, andando descalça por cima do juquirí, sem ligar para a dor desses espinhos e de lá só sair quando meu pai conseguia encontrá-la. Éramos todos bem pequenos e não tínhamos como opinar para que a nefanda figura fosse excluída de nosso convívio. O destino, porém, incumbiu-se desse mister. Aldinha ainda não havia nascido de modo que Ena, a querida irmã que a Virgem de Nazaré levou às vésperas do Círio de 1995 era a nossa caçula, com aproximadamente dois anos e por óbvio, não falava, vivendo entre o colo e o berço. De quando em vez, porém, despertava do sono gritando desesperada e tinha fortes crises de pranto. Trocavam a fralda para verificar se havia vestígio de picada de inseto. Nada! A única coisa estranha era uma vermelhidão na braço, na perna ou na barriga, igual queimadura de sol. Coincidentemente nessas oportunidades, a Maria Capeta (f.d.p...) estava sempre por perto e resmungando, dizia nada saber informar a respeito. Um dia minha mãe desconfiou e resolveu ficar de tocaia, observando. Era uma hora da tarde, o café acabara de sair da chocolateira e cheirava convidativo. O bebê dormia tranqüilamente em seu berço. De repente, entra no quarto furtivamente a odiosa criatura segurando uma xícara fumegante da bebida e ato contínuo, encostou-a no braço da criança indefesa, que acordou aos gritos, assim ficando justificado o porquê da mancha rubra na pele delicada. Sem poder se controlar, minha mãe entrou em cena, verberando de forma incisiva contra aquele procedimento irracional e desumano e foi a próxima a ser agredida. Papai ouviu o quiproquó, interferiu em defesa dos seus e Maria Capeta correu até a cozinha em busca do terçado para terminar o serviço. Deu azar. Foi alcançada no fim da varanda, levou um “chega pra lá” e na mesma hora foi-lhe ordenado que arrumasse a trouxa que seria devolvida ao Juiz. Obedeceu sem rebuços, o olhar furibundo encarando toda a família, como se a qualquer instante fosse novamente investir contra as pessoas que, intimamente aliviadas, presenciavam sua serôdia despedida. Mas os confrontos com a Maria não ficavam baratos. Já atravessando o Amazonas, aprontou sua derradeira maluquice. Repentinamente, pulou da Diacui no meio do rio encrespado, assustando os botos em primícias de acasalamento, obrigando meu pai a uma arriscada operação de resgate naquelas águas barrentas e revoltas, para amarrá-la ao convés até completar a travessia. Foi passando para o xadrez e de lá deportada para Manaus, com mandado judicial para ser internada em manicômio judiciário. Se tinha ou não parte com o “Tisnado” ninguém nunca ficou sabendo. Entretanto, de uma coisa estou absolutamente convicto. Algum ente maligno, daqueles que habitam o terceiro subsolo do inferno, tinha influencia deletéria sobre aquela infeliz criatura, de temperamento sádico, violento e descontrolado. De todos os incontáveis desatinos que protagonizou no breve tempo que esteve conosco, só não a vi rasgar dinheiro, para o qual, por sinal, nunca deu a mínima importância. * Saiba mais sobre Célio Simões no nosso painel de personalidades: Clique Aqui |
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