Célio Simões                                                                                                                                                                              10/03/2009

O EXTRAORDINÁRIO MIGUEL VENÂNCIO

Célio Simões 

            Com certeza ele não me conhece ou sequer se lembra de mim. Nem poderia, por óbvio. Quando definitivamente passei a residir em Belém, ele ainda não havia sido promovido a Rei. Contentava-se nos desfiles de Sete de Setembro com o título de Imperador, réplica improvisada de Dom Pedro I, aquele um que às margens do tal riacho Ipiranga, mais estreito que o Curuçambá, desembainhou a espada e proclamou a independência do Brasil, tantos eram os abusos da Corte Portuguesa contra suas colônias, num processo predatório que se ao mesmo tempo garantiu a integridade do território nacional, por outro lado carregou para Lisboa boa parte das nossas reservas auríferas, ainda por cima esmagando o povo com impostos escorchantes. Sorte que não descobriram Serra Pelada ou Carajás, caso contrário, o sacrifício de Tiradentes, o maior dos patriotas, teria sido um gesto inútil.

            Inexistia e aí falo do tempo que morei na Cidade Presépio, um único evento que não contasse com a participação do Miguel Venâncio, devidamente caracterizado, a compatibilizar a personagem com a comemoração. Se na data magna da nacionalidade, lá vinha ele cavalgando seu ginete, encarnando nosso libertador político. Se no carnaval do mascarado fobó, preferia trajar-se de Zorro, capa preta, máscara e espada reluzente, a duelar ao som das marchinhas com seu amistoso antagonista, o excelente zagueiro do Paraense cujo apelido – Canela-de-Vidro – dá bem uma idéia de quanto sofriam os atacantes do Mariano em uma peleja no antigo Estádio General Rego Barros.

            Guardadas as devidas proporções, Miguel me lembra um sujeito que morava em Marabá quando ali trabalhei. O nome, o tempo apagou. Suas presepadas não. Nas festas juninas, era o mais animado nas “quadrilhas”, nas quais rebolava vestido de mulher, braço dado com seu cavalheiro, ambos em trajes caipiras. No carnaval, instalava-se principescamente sobre um carro alegórico, com indumentária e adereços que lembravam Clóvis Bornay; na pungente “Procissão do Encontro”, que marca o ápice da Semana Santa, lá vinha ele pregado na cruz, coroa de espinhos na cabeça, sangue de mentirinha escorrendo dos ferros cravados nos pés, mãos e na costela, fazendo o papel de Jesus Cristo. Alfaiate habilidoso, produzia suas próprias indumentárias. Era fato público sua excentricidade própria dos transexuais, aspecto que não lhe empanava a criatividade, justo porque o talento e a arte independem de orientação sexual. O Venâncio, todos o sabem, joga no time dos aprimoradores da eugenia masculina, mesmo quando pula o carnaval vestido de baiana, ostentando paetês, adereços e seus inseparáveis óculos escuros. Ademais, suas personagens e modo de vida assim o demonstram. Dos que anualmente se entregam à folia na antiga Praça do Quartel, onde os blocos explodem em animação num dos mais badalados carnavais do interior paraense, sempre ouço que o Miguel capricha nas fantasias e se destaca nos desfiles encantando as platéias embasbacadas com seu vigor físico conquanto já tenha ultrapassado os setenta anos. E se o cortejo extravasa os limites da praça para exibir-se pela cidade, lá vai o lépido setentão subindo as ladeiras da velha Pauxis, como um adolescente ainda no vigor da juventude.

            Aos que me incentivaram a sobre ele escrever, fiquei inicialmente sem elementos factuais para fazê-lo, buscando na memória as magníficas performances nas efemérides em que testemunhei seu desempenho. Salvo engano, além de vigoroso atleta de futebol, que atuava no gramado com o calção amarrado no estômago, sempre foi pessoa pacífica, cordata, gente fina, simpática a seus conterrâneos em especial pelo seu inegável carisma. Ontem como hoje, seus momentos de hostilidade ele os guarda para os duelos de faz-de-conta que antes me reportei e destes não admite sair derrotado; na quadra carnavalesca, qualquer que seja o antagonista ele os enfrenta de forma destemida, em implacáveis batalhas de confetes, propiciando shows que definitivamente o elevaram ao patamar de grande figura popular.

            Em 2008 tive uma grata surpresa e constatei seu especial pendor para viver de bem com a vida. Festa de Sant’Anna dia 26 de Julho, cliper botando gente pelo ladrão; e após a gritaria infernal do leilão teve início uma festa dançante no acanhado espaço reservado para essa finalidade. Vi pares conhecidos, outros nem tanto, tapuio de Oriximiná dançando como se estivesse no mafuá do “Macaxeira”; lá pelas tantas surgiu o Miguel Venâncio. Pávulo, sestroso, materializou-se dançando sozinho. Mas sua dança não é algo comum, como estamos acostumados a ver. Perto dele, a gente esquece o Carlinhos de Jesus! O Miguel dança com ele mesmo, inventa passos que desafiam o equilíbrio corporal, transmuda sua imagem em moldura superposta que dele se liberta para petrificar-se longe do dono e a ele retorna em fraterna união entre criador e criatura. Sua postura rítmica dá aos movimentos que inventa um significado estético de perenidade, em continuada comunhão com a música, pernas trançadas, olhar de conquistador, chamando para esse jogo de habilidades sua parceira, uma senhora que atendia aos compassos da música com a mesma disposição com que ingerira generosas doses da “água que passarinho não bebe”, até tombar derreada no duro piso do salão sob o avantajado peso do corpo. Um show à parte!

            Mas o Miguel tem ainda muitas personagens a protagonizar.

            Não só da história universal, como aqueles diretamente ligados à conquista da Amazônia e do Rio Amazonas, que ele, como eu, nos ufanamos de haver nascido às margens. Soube que já se trajou de Vasco da Gama. Outros existem, contudo. Sugiro que um dia homenageie Francisco de Orelana, companheiro dos Pizarro, que representando os espanhóis conquistaram o Peru pelo Oceano Pacífico, assenhoreando-se da planície por força do tratado de Tordesilhas, chegando a Quito e de lá até a Europa, dando nome ao grande rio. E em sentido contrário, do Atlântico até os Andes, os portugueses liderados por Pedro Teixeira, que subiu plantando os fortes para a defesa do território (entre eles, o Forte Pauxis), misturando fortalezas militares com missões religiosas, traçando definitivamente na Amazônia o contorno lusitano, aceito como fato consumado após a separação das coroas ibéricas, formalizada no século XVIII pelo princípio do uti possidetis, nos tratados de Madri e Santo Ildefonso. Isto sem esquecer de Raposo Tavares, esse admirável bandeirante que partindo de São Paulo pelo planalto central, subiu os vales dos rios Paraná e Paraguai, atingiu o Amazonas navegando o Rio Madeira, tendo como destino a cidade de Gurupá, antecipando-se em 250 anos à mesma trajetória feita pelo General Cândido Rondon.

            São apenas sugestões, Miguel, pois a sua criatividade supera a minha. Orelana, os Pizarro, Pedro Teixeira, Raposo Tavares, Rondon qualquer desses andarilhos incomparáveis que você resolva distinguir, para os obidenses o que interessa mesmo é o deleite de cada comemoração onde pontifica sua imaginação delirante e seu espírito inovador. Sabendo-o carpinteiro por profissão, hoje jubilado, exímio tocador de banjo daqueles que não enjeita uma roda de samba, na verdade o reputo um artista popular de muitos méritos, que a todos encanta com suas performances, enquanto segue extraindo da vida o que ela tem de melhor: a construção de um largo círculo de amigos, que dele sentirá falta quando suas pernas não mais puderem cruzar-se naquele sapateado cuja extravagância mereceu de Eduardo Dias sutil referência numa de suas excelentes canções.

            Na folia deste 2009 o Miguel novamente abrilhantou todos os blocos em que desfilou. A internet o demonstra. É inconteste sua habilidade na produção das próprias fantasias, se é que ele próprio não vive num mundo de fantasia, só existente nos recônditos de sua imaginação. Penso mesmo que ele se coloca à roda do ano, preparando-se para o próximo, a serviço do samba e das marchinhas, que fazem a felicidade das pacatas cidades do interior, onde impera absoluto o Rei Momo, dos quais todos os brasileiros, brincantes ou não, em maior ou menor dose, são servos cativos. Não há como negar que à sua maneira, com seu jeito especial no apogeu dos seus setenta anos, esse inteligente caboclo nos tem propiciado uma lição de muito proveito. Protagonista de sua própria existência, ele leva a vida como brinca o carnaval e brinca o carnaval como leva a vida: com leveza, criatividade, descontração e felicidade, nem aí para os que se arvoram a criticá-lo. Como dito alhures, não o conheço senão de vista, mas não me furto a creditar sua importância para a memória cultural da velha Pauxis. Parabéns Miguel Venâncio! De pessoas como você e seu Valdir, sobre quem recentemente escrevi, a Cidade Presépio não abre mão!


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