Célio Simões                                                                                                                               02/10/2007

A DAMA DA MADRUGADA

Célio Simões                

                                               Passava havia muito da meia-noite naquele meado de junho de 1965 e o luar, varando as folhas das árvores da rua de terra batida, iluminava as feições cansadas e sonolentas do sargento Anésio Bulhões, um negro atarracado que integrava o destacamento da Polícia Militar sediada em Óbidos, uma bela e acolhedora cidadezinha nascida da aldeia dos índios Pauxís, no ponto mais estreito do Rio Amazonas, no oeste do Pará.

                                               A situação vivida por ele e seus colegas de farda era a mais incômoda possível.

                                               Não era obidense, porém conhecia praticamente todos os moradores da cidade, uns pelo nome, outros “de vista”, do mais pobre ao mais abastado. E a tal de revolução de 31 de março do ano anterior, como que passara ao largo daquele lugar perdido nos confins da Amazônia, só acessível após dez horas de ininterrupta navegação fluvial partindo do porto de Santarém, aonde se chegava de avião, vindo de Belém.

                                               De Policial Militar já contava alguns anos, onde sentara praça por opção, seguindo quase que por atavismo, uma tradição familiar. Seu pai, avô e bisavô integraram a força pública do Estado e disso davam notícias as diversas fotografias espalhadas pela sua casa e dos demais irmãos, cada uma delas revelando um ato de heroísmo de seu protagonista. Combates com jagunços travados nos ermos daqueles sertões, perseguições e lutas da fase da cabanagem, batalhas contra os fanáticos de Antônio Conselheiro na Bahia, refregas contra os legalistas na Revolução Constitucionalista de São Paulo apoiada por estudantes e militares paraenses ou simples exercícios de adestramento com equipamento militar, formavam um respeitável acervo do qual sentia especial orgulho. Daí para ingressar nas fileiras da milícia foi um passo. Faltava-lhe, porém, uma “medalha de guerra”, qual seja, uma efetiva participação num combate de verdade, coisa para exibir para filhos e netos, que o resgatasse da enfadonha rotina da vida castrense, da guerra do faz de conta. A revolução de 31 de Março era sua chance, portanto.

                                               Ao ser transferido para Óbidos, sua esperança de posar de herói foi-se esvaindo, à medida que os dias passavam. Como em toda cidade pequena do interior, ali o tempo não corria; no máximo escorria, tão lento era o passar dos dias. A vida se arrastava ao compasso das próprias embarcações que atracavam no porto, o ponto de maior movimento do lugar. Era por ali que as notícias chegavam e iam embora, depois de demoradamente comentadas pelos habitantes, a maioria de jovens ou aposentados.

                                               Até então, não havia vestígio de reação de ninguém contra o golpe militar de 31 de Março, fosse protesto de cunho político, ideológico ou seja lá de que ordem. A rapaziada do Ginásio, descontada as irreverências da idade, estava mais era preocupada em curtir a vida, fazendo serestas com músicas da jovem guarda, algumas de extremo bom gosto, desfrutando as delícias dos banhos nas praias, das pescarias de caniço nos piscosos lagos da região ou paquerando as moças nas domingueiras do salão paroquial, para desespero dos seráficos sacerdotes franciscanos responsáveis pela diocese.

                                               A coisa mais parecida com “subversão” que ouvira falar foi sobre um aluno do ginásio, a quem os demais chamavam de “Cubano”. Pôs-se a investigar intensa e secretamente, ciente de sua condição de fiscal da lei e da nova ordem estabelecida, porém ficou sabendo que o rapaz era um tremendo gente fina, atleta dos melhores de um dos times de futebol local, desfrutando de imensa popularidade e estima até mesmo dos ferrenhos torcedores do time adversário. A alcunha não passava de ingênua brincadeira de outro ginasiano que tinha por vezo colocar apelido em todo mundo, até mesmo como forma de descontar aquele que lhe haviam dado, justa comparação de sua aparência pessoal com o animal escolhido: “Esquilo”. Fosse lá o que fosse, não precisava se preocupar; a causa revolucionária não estava em perigo apenas porque um jovem do interior, pintoso e namorador, era identificado por uma palavra que naqueles anos de chumbo, sequer podia ser pronunciada...

                                               Daí que foi fácil, paulatinamente, ir se afeiçoando aos obidenses, gente pacata e hospitaleira, sem qualquer eiva de preconceito com os que vinham de fora, mesmo que esse alguém fosse um miliciano. A verdade é que passou a estimar aquelas pessoas e de si para consigo, sentia-se às vezes envergonhado de haver xeretado a vida dos integrantes da comunidade, pronto para a delação, como se alguém dali representasse perigo ao movimento revolucionário que nem mesmo ele, Sargento Bulhões (seu nome de guerra no Quartel), entendia direito o porquê e com que finalidade fora deflagrado. Afinal, era militar e não político, recusando-se a conjeturar sobre coisas desse tipo. Os homens “lá de cima” que cuidassem do assunto, porque não se sentia bem no papel de delator. A única coisa que percebeu com nitidez, é que fora mandado para aquela cidade para garantir uma ordem por si própria subsistente.

                                               A partir desse raciocínio, desligou os equipamentos de alarme que o mantinham em alerta, integrando-se de uma vez por todas ao ritmo vagaroso dos ribeirinhos. Viviam eles, podia observar, ao compasso dos remansos do próprio Rio Amazonas, das suas marés lançantes que tudo leva de roldão ou das suas impiedosas vazantes que transformam as várzeas em solo árido, com mortandade de peixe que chega a doer no coração. Com regularidade de equinócio, todo ano o fenômeno se repete, sem que aquela pobre gente outra coisa possa fazer a não ser orar para sua Padroeira, Nossa Senhora Santana, à espera de um milagre cuja tardança, mesmo assim, nunca os faz desesperar.

                                               Dizem que polícia é parece criança: quando está perto incomoda e quando está longe faz falta!... Que se lembre mesmo, só uma vez teve que usar de energia e fazer valer sua autoridade. Também pudera! O Zangão, um tapuio troncudo com cara de poucos amigos, apaniguado do rico fazendeiro Souza, tinha costa quente e vivia aprontando das suas e com ele nada pegava. Até que um dia, movido por uma discussão boba, deu uma tremenda rasteira no seu Oliveira, que o bom homem caiu de cara no chão na taberna onde bebiam juntos, deixando-o ensangüentado e gravemente ferido. Chamado para resolver o problema, não suportou ver a covarde agressão e com o chanfalho em punho, deu umas boas lambadas com o lado da lâmina na costa daquele atrevido, para ensiná-lo a respeitar as pessoas mais velhas. Tanto tempo já estava na cidade e nada mais que esse incidente, no qual atuou com dureza para todos saberem que ele não brincava em serviço.

                                               Fora esse lamentável episódio, a vida ali corria realmente mansa. Os jornais chegados de Belém, com dias de atraso, davam conta da frenética atividade dos seus colegas de farda na perseguição e  captura dos “subversivos”, trancafiando-os no xadrez sem direito a qualquer defesa. Advogados e jornalistas, embora em prisões especiais, também não escapavam. Bendita hora em que veio destacado para Óbidos, sem a responsabilidade de oprimir seus semelhantes, obedecendo ordens de superiores que ele não conhecia e que, em contrapartida, também não o conheciam. O povo ali, além de acolhedor, encarava com indiferença aquela confusão, não temendo ser molestado por ninguém. O Tiro de Guerra já fora há tempos desativado. De milico mesmo, só a guarnição da Força Pública, ou seja, ele, o Cabo Jaime e mais cinco soldados que aceitaram ser destacados para aquele lugar, unanimemente acordes sobre a paz reinante naquele fim de mundo.

                                               Se estava no cais do porto, ganhava peixe dos canoeiros; em suas passagens pelo mercado, nunca saía de lá sem um belo pedaço de carne, de bom grado entregue por um dos talhadores. Jamais pedira tais mimos, porque o achaque não era de seu feitio. Tudo lhe ofertavam de bom grado, em reconhecimento ao seu trabalho, à lhaneza no trato pessoal, ao pronto atendimento que na delegacia dava a quem o procurasse nas rarefeitas querelas de bêbados nas tardes de domingos, onde nada se tinha para fazer senão tomar uma que outra cervejinha. E apesar da merreca de salário que o Estado lhe pagava, mesmo sendo um graduado da PM, restava-lhe o consolo de saber-se um exímio saxofonista; assim, quando não estava de ronda, vez por outra se via chamado para animar as festas dos clubes de subúrbio, o que fazia com extremo prazer, porque nelas desfrutava de certas mordomias, como comida e bebida de graça, embora tivesse que permanecer acordado noite adentro, exibindo-se no sopro do instrumento, não sem o ônus de considerável dose de cansaço, mitigada ao final com o generoso pagamento em dinheiro feito pelo proprietário, excelente adjutório no apertado orçamento da família, do qual decididamente não podia prescindir.

                                               Pois bem. Naquele sábado à tarde, à míngua do que fazer, foi sentar-se num dos bancos do atracadouro de madeira do cais. O ócio era de esmagar porém não era sujeito molóide, de ficar azeitando o eixo da lua, por isso sentia necessidade de fazer alguma coisa.

                                               Lembrou-se que era Junho, quando a Amazônia desperta do seu letárgico sono invernoso e o verão, em seu início, explode no colorido multifário de plantas, frutas e flores, numa verdadeira festa para os olhos. Como de hábito, recebera convite para tocar no Alegria Clube, o mais organizado salão de danças do subúrbio, onde a rapaziada do centro podia se divertir à vontade, desde que não fosse para bagunçar, a mesma regra valendo para as mulheres, ressalvada aquelas que já tinham má fama.

                                               A quadra junina obidense é de uma incrível animação. Desfilam pelas ruas e salões os cordões de boi e pássaros, alimentando uma tradição repassada pelos índios Pauxis desde seus primórdios e que os habitantes do lugar fazem questão de cultivar, temperando o sincretismo religioso com os ritmos que lembram as festividades dos antigos quilombos de escravos. A música, onde quer que seja tocada, torna-se contagiante, nela inseridas improvisadas estrofes pela fértil imaginação dos compositores de ocasião, que o sargento-músico, ali postado sozinho, tentava decorar para não fazer feito nas horas de logo mais,  a quando da sua exibição para o distinto público. Começou cantarolando a do boi:

Eu sou caçador afamado

que venho da cabeceira,

hoje eu mato esse boi,

seja lá de que maneira.

Não caçador,

faz pena, faz horror,

não mate esse boi,

que meu amo criou!

                                               A fina flor da juventude local adorava as quadrilhas. Calma! Não é aquela dos bandidos anônimos ou “ilustres” que proliferam aqui ou alhures e para as quais, policiais como o sargento Bulhões não encontram solução. Eram as quadrilhas juninas, integradas em média por vinte ou trinta casais de animados foliões, esbanjando beleza plástica, todos trajados a caráter, os homens de blusas estampadas e as mulheres de saias rodadas, pois se há uma particularidade onde Óbidos se destaca é na própria anatomia das obidenses, via de regra bonitas e de pernas torneadas, pelo esforço cotidiano de perlustrar as íngremes ladeiras do centro urbano, presente o fato de estar a sede municipal chantada sobre elevada colina.

                                               Nos “pássaros” das festas juninas, proliferavam índios, curandeiros, feiticeiros, caçadores e outros figurantes. Nos “bois”, esse mesmo séquito exibia-se também, porém cada qual com atuação particular e denominação própria: Mãe Catirina, Pai Francisco, Cazumbá, Vaqueiro, Caçador, Rapaz do Boi e mais índios, que tangidos por etílico entusiasmo, emprestavam com suas vistosas indumentárias um tom surrealista às noites quentes e mal iluminadas do verão amazônico. Se o folguedo fosse na rua, a luz mortiça dos postes permitia o estudado brilho dos espelhos, miçangas e dos ricos adereços dos brincantes. Se nos salões dos clubes, o efeito visual era aumentado pelo estudado refletir das luminárias e do suor dos corpos em movimento, nos ambientes ainda carentes de refrigeração. Tais manifestações, em homenagem a Santo Antônio, São João e São Pedro, encarnavam a essência do próprio folclore paraense, com especial toque para a culinária local generosamente servida aos brincantes como a pamonha, o munguzá, o tacacá, a broa, o mingau de milho, o bolo de macaxeira e o aluá, para gáudio daquela gente que experimenta quase um prazer físico na hospitalidade que dispensa aos visitantes através da boa mesa.

                                               Ainda sozinho no trapiche, deixando-se embalar pela suave brisa que soprava de montante do rio-mar, já decorada letra e música do boi, passou a assobiar baixinho a toada da arara, um dos pássaros que seriam homenageados naquele ano. Afinal, logo mais à noite, teria que dar conta do recado. Procurou memorizar a letra:

Senhores,

queiram nos desculpar,

se nossa linda arara,

não vos soube agradar;

adeus, uma ave voou

e no galho duma rama

ela pousou.

Estando,

com a nossa linda arara,

teremos, a mais bela união,

 arara bateu asa e foi embora

meu bem,

para dançar nesta noite linda,

 de São João!...

                                               Testou mais uma. Desta vez, a da pombinha preta:

A nossa pombinha preta

da campina vem cantar,

está cheia de cores no meio

do arraial,

nós somos da folia,

brincamos com alegria,

viva o nosso pessoal.

                                               Sentindo-se seguro na decoreba, antevendo o papel de principal astro da festa do Alegria Clube, foi para casa tirar uma pestana, pois passaria a noite toda acordado, no seu duplo papel de músico e policial. Sim, porque ao tempo que tocava, sua robusta figura e a conhecida graduação na polícia inibiam os eventuais excessos dos dançarinos mais afoitos. Também pudera! Ninguém se aventurava a arrumar confusão, pois ia direitinho pro xaxado, “convidado aos costumes” pelo vigoroso sargentão. Sua fama de corajoso, destemido, machão, já se espalhara pelos quatro cantos da cidade, alcançando até mesmos as mais longínquas vilas do interior. E com absoluta razão, pois não era de amarelar face ao perigo, fosse ele qual fosse (pois sim!).

                                               Nesse dia, a farra pegou fogo. Perante um público em delírio, tocou e cantou as músicas do folclore junino do boi, da arara, da pombinha preta (eu, hein?!) e todas as demais que sabia do cancioneiro popular até alta madrugada. E depois de sair o último vivente, a grana recebida pelo serviço esquentando o bolso da calça, um exausto sargento Bulhões iniciou o caminho de volta para casa, situada nas imediações do antigo Quartel do Exército, um belo prédio de estilo gótico, que os rarefeitos turistas comparavam como “um castelo no meio da selva”, de há muito condenado ao mais completo abandono pela incúria das autoridades reputadas como competentes.

                                               A suave brisa noturna que soprava da Serra da Escama se espalhava por entre o cercado dos quintais; o silêncio reinava por completo vindo dos becos e vielas e o corpo, quase vencido pelo esforço que fizera, recusava a paz ofertada por toda aquela imensa quietude. Caminhava pelo meio da rua, assim evitando ser surpreendido por algum cão bravo escondido nas sombras do matagal, prova maior de que seu instinto de defesa e o férreo controle que costumava exercer sobre seus sentimentos e emoções não lhe permitiam qualquer descuido, nem nos momentos de descontração como aquele, em que a cidade já dormia a sono solto e da zoeira de antes apenas se ouvia o cantar agudo dos grilos, o coaxar dos sapos e o agourento piado de alguma coruja.

                                               O dançará onde tocara ficava próximo a um igarapé de águas frias e translúcidas, na periferia da cidade, e ele sabia que uma boa pernada o aguardava até chegar em casa. Ainda bem que deixara o pesado instrumento musical sob a guarda do dono do clube, pessoa de sua inteira confiança, com quem já travara sólida amizade. Vinha matutando planos para o futuro, quando saísse daquela vidoca de interior, voltasse a engajar na tropa em Belém, porque quase todos os de sua época já tinham sido promovidos a tenente e ele, mercê da acomodação e da distância da Capital, fora sendo preterido e continuava marcando passo como mero sargento, que nem oficial chega a ser.

                                               Continuou a caminhada, o olho pregado no chão para não cair em algum buraco, quando mais sentiu do que viu, aquele ser alto, magro e diáfano, envolto numa vestimenta preta, o rosto e a cabeça cobertos com um capuz, praticamente barrando-lhe a passagem, a aproximadamente três quarteirões de distância de sua própria residência. Credo em cruz!

                                               Parou estático, sentindo aquela “alegria nas pernas” que experimentara na única vez que viajou de avião, quando este caiu no vácuo. Não conseguia divisar quem poderia, naquele mundo de quietude e silêncio, onde era possível até mesmo ouvir o barulho do capim crescendo, àquela hora mortiça da madrugada, arriscar-se a levar um tiro nos cornos, porque do 38, sua arma regulamentar, jamais se separava. Tirou-o cuidadosamente da cintura, sentindo na mão o confortável contato da coronha, examinou o tambor recheado com as seis balas e ficou avaliando suas próprias possibilidades. O suor frio e pegajoso empapava sua testa, o coração pulsava na têmpora e quase no limiar da racionalidade, decidiu que era hora de acabar de vez com aquela lambança, com certeza, fruto da brincadeira de mau gosto de algum gaiato que saíra da festa. Alguma coisa entretanto, como uma sensação abúlica, o impedia de reagir. Apelou para o que lhe restava de imaginação. Sim, porque fora treinado para caçar marginais, apartar briga de rua, cumprir ordens dos superiores, até mesmo para capturar os subversivos que estavam colocando a Pátria em risco. Mas não para enfrentar aquela “coisa”, que surgira assim do nada, do mundo do sobrenatural, da escuridão da noite, salvo se estivesse sendo possuído por uma alucinação qualquer que lhe roubava as forças e lhe retirava a costumeira capacidade de ação. Tentou contornar a esquina e passar pelo outro lado, fazendo de conta que não dera pela presença do pavoroso vulto. Apenas tentou.

                                               Como que adivinhando suas intenções, a estranha e repulsiva figura, flutuando no espaço, deslocou-se de modo a barrar-lhe a passagem, e sem dizer palavra apontou-lhe um dedo acusador saído da manta preta e amarfanhada, qual um juiz faz com o acusado antes de ditar-lhe a sentença final. Suas pernas dobraram ao peso da monstruosa impotência que sobre ele se abateu.

                                               Desde que chegou destacado para o policiamento de Óbidos, o sargento Bulhões já ouvira inúmeras histórias sobre visagens e assombrações, por sinal, recorrentes em determinados lugares, dos quais lembrava bem, os arredores da praça da Igreja, os fundos do quintal da Prefeitura, o covão próximo ao cemitério e os fundos do antigo quartel, onde almas penadas e fadistas, nas noites de sextas-feiras, apavoravam os moradores com suas indesejadas aparições. Mas nunca dera trela para esse tipo de papo porque não era homem de acreditar nessas bobagens; se fosse, jamais poderia integrar a gloriosa milícia paraense, onde arriscar a vida faz parte do quotidiano. Agora estava ali, na calada da noite, tremendo diante daquela assombração, espécie de dama da madrugada, que o ameaçava sem nada dizer. Foi aí que percebeu que apesar da fama de durão, das lapas da graduação no uniforme, da arma que segurava e dos músculos retesados pronto para o revide, a realidade era bem outra: estava mesmo era zonzo de medo!

                                               No desespero, resolveu gritar. Quem sabe alguém abriria a janela da casa deixando-o entrar. E quando o fez, foi a plenos pulmões, como faz o afogado antes do mergulho fatal.

                                               Que grito que nada! Apesar do esforço extremo, a voz não lhe brotou da garganta, tanto que no dia seguinte teve que fazer tratamento para recuperar-se da rouquidão. Sentiu a cabeça girar, a vista ficou embaralhada e a última coisa que vislumbrou antes de desfalecer por completo foi a lua vindo de encontro a seu rosto ou, não estava bem certo, ele mesmo indo ao encontro da lua. Se tudo aquilo tivesse ocorrido à luz do dia, podia jurar que passara pelo fenômeno do heliotropismo. Porém o fato estava acontecendo naquele momento e ele ali, embora armado, sem capacidade de dar um pio, de usar o 38, sentindo-se desfalecer, ao mesmo tempo em que o vulto, que agora divisava ser mesmo de uma mulher, ia se sumindo no rumo da negritude noturna, rente às sombras do arvoredo que o luar não conseguia devassar. Apagou de vez.

-          Sargento Bulhões?

-          Sim...

-          O que foi que houve? Eu ia passando e dei com o senhor caído no chão.

-          Nada não, estou bem...

-          O senhor bebeu demais?

-          Ô cara, vê como fala com a autoridade!

-          Desculpe sargento, o senhor está do lado de sua casa e eu pensei...

-          Não se preocupe comigo. Já estou indo.

                                               Nunca vira aquele sujeito na cidade. Levantou-se e constatou que nada lhe faltava. A arma, o dinheiro ganho da festa, os documentos, o relógio, o cordão de prata no pescoço, nada. Conferiu as horas. Cinco e meia da manhã. Não andou nem vinte metros e entrou em casa, pálido e trêmulo, atou a rede na varanda  e dormiu o dia inteiro como há muito não fazia. Acordou no fim da tarde, ardendo em febre e com dor de cabeça; contou tudo para a mulher, que católica fervorosa, prometeu que ambos acompanhariam a procissão de Santana no mês seguinte, cantando e carregando o andor.

                                               Mas escondeu da esposa o intrigante detalhe. Lembrava haver desmaiado a quase  três quarteirões de onde morava, palco do aparecimento da tal mulher na madrugada anterior. Como poderia ser encontrado por aquele sujeito que nunca vira, jogado no chão, bem próximo da sua própria casa? Sinceramente, em relação a esse fato, não tinha resposta e sobre ele nem preferia pensar, evitando conclusões precipitadas.

                                               Embora de formação cristã, discretamente resolveu decifrar o torturante enigma, embora de forma pouco ortodoxa. À noite, durante a ronda, passou pela modesta barraca onde morava dona Deolinda, tida na cidade como vidente e curandeira das mais tinhosas, conhecida por suas infalíveis premonições; tanto que ninguém a importunava em sua venda de mingau no mercado e nenhum fiscal da Prefeitura se atrevia a lhe exigir propina, com medo da reação da cabocla. Provocá-la era o caminho certo para o imponderável.

                                               Sua figura rotunda era realmente enigmática. A todos fitava impassível, com seu olhar imóvel de sáurio que infundia nas pessoas uma tremenda sensação de muda expectativa enquanto ouvia os relatos feitos pelos que a procuravam. No caso do sargento Bulhões não foi diferente. Ao cabo da narrativa, tocou-lhe a testa com os dedos levemente trêmulos, segredou-lhe alguma coisa no ouvido dele obtendo a confirmação com um gesto de cabeça. Depois disso veio do fundo de sua garganta, naquela voz de tom roufenho, o veredicto que ele preferia não ouvir:

-          É ela, meu filho; você vai ter que conviver com isso, até que sua alma esteja em paz.

-          O que eu faço, tia Deolinda?

-          Nada, apenas deixe o tempo passar; um dia essas aparições cessam, quando ela encontrar o caminho da luz.

-          Mas eu não vou conseguir esperar tanto; sinto que enlouqueço antes.

-          Meu filho, ela era uma moça bonita, cheia de vida e você... Está certo que sua arma disparou por acaso, mas a hora dela ainda não havia chegado. Procure se conformar, como ela um dia também terá que se conformar com o acontecido...

-          Só isso, tia Deolinda?

-          Só e você sabe muito bem.

                                               Após esse encontro, o aparentemente destemido miliciano passou a tirar serviço duplamente armado. Com o 38, sua arma regulamentar da qual nunca se separava e no bolso interno do dólmã, em suas rondas noturnas pelas escuras ruas da cidade ou no retorno das festas em que atuava, o escapulário, presente de Frei Prudêncio, o piedoso vigário da paróquia que o ofertou em retribuição aos seus serviços, de bom grado prestados como músico e segurança na festa da Padroeira no ano anterior, quando ocorrera a tal revolução.


* Saiba mais sobre Célio Simões no nosso painel de personalidades: Clique Aqui

Home | Volta