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Célio Simões 17/09/2008 |
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A PRAÇA DO Ó
Célio Simões
Existem logradouros ou bairros inteiros que nascem com a síndrome da rejeição ao próprio nome oficial em todas as cidades, independente do porte de cada qual. Para ficar apenas em algumas do Estado do Pará, em Marabá há o bairro do “Cabelo Seco”, na Santarém do meu tempo havia a “Latada”, afora o monumento dos “Três Patetas”, em Belém a Praça Princesa Isabel ainda é conhecida como a “Condor” e a minúscula Óbidos não foge a essa regra imposta pela irreverência popular. Quem não se lembra do Beco do Fuxico, do Covão da Ribite, da Cabeça do Padre, da Rua Bacuri, da Ladeira do Cai-Cai e da Pracinha do Ó, esta última, objeto desta crônica. Qual a razão desses cognomes? A ilação é fácil no que concerne aos cinco primeiros. Através do Beco do Fuxico, ao lado da Catedral, corria de boca em boca da Praça de Sant`Ana em direção à Rua 13 de Maio (hoje Marcos Rodrigues de Souza), os falatórios das balzaquianas encalhadas que não deixavam esfriar nenhuma novidade; o Covão da Ribite era uma alusão de mau gosto ao local de moradia de dona Laurentina, espécie de bruxa concebida pelo imaginário infantil, para o que colaborava seu aspecto molambento, agravado pelos trapos que vestia, assustando-nos com sua cabeleira desgrenhada, no entremeio da qual ela guardava um chumaço de pimenta malagueta, sabe Deus com que malévola intenção. Andrajosa e agourenta com seu olhar de víbora, superava o Galvão “Urubueno”, daí a conhecida expressão “pissica da Ribite” que alguém usava para azarar o adversário; a Cabeça do Padre, velha caixa d’água, assim ficou conhecida por ser cópia fiel da correspondente figura dos frades franciscanos que laboravam na Paróquia; da Rua Bacuri, à mingua de informações confiáveis, imagino a alcunha herdada pela abundância da árvore do mesmo nome, no início da vida republicana (1889), numa espécie de improviso que se tornou duradouro, até receber o nome oficial de Deputado Raimundo Chaves, justa homenagem ao excepcional médico, prefeito e deputado estadual prematuramente falecido; a Ladeira do Cai-Cai, não mais seria assim chamada, pavimentada como está, evitando os muitos tombos aos que nela se aventuravam no rumo do mercado. E a Pracinha do Ó? Sugere alguma coisa? Quando os cabanos de Miguel Apolinário Maparajuba baseados em Ecuipiranga (próximo de Santarém) resolveram invadir a cidade (depois de fazê-lo em Monte Alegre, Alenquer e Parintins) para promover seus costumeiros desatinos, foram de imediato repelidos pela prévia estratégia da defesa, envolvendo as forças vivas da sociedade, reunindo militares e civis. Crianças, idosos e mulheres que não podiam empenhar-se na liça, eram direcionados para atividades subsidiárias, quais sejam, a alimentação da tropa, o municiamento das armas, o aprestamento das barricadas, tudo sob a orientação das extraordinárias figuras dos irmãos Padres Antônio Manoel Sanches de Brito e Raimundo Sanches de Brito, que se faziam presentes em todas as frentes, incluindo o porto, as ladeiras, os morros e as encostas, tirando estrategicamente o melhor proveito da elevada topografia do centro urbano. Dias antes da invasão, algumas senhoras impuseram uma pausa nos preparativos do iminente combate e assistiram ao ofício religioso conduzido pelos irmãos sacerdotes, ao fim do qual foi feita a promessa de soerguer uma capela em homenagem ao Bom Jesus, caso a cidade resistisse ao assédio dos cabanos. O ataque ocorreu em Junho de 1835, ocorrendo o desembarque dos caboclos ensandecidos pelo desfiladeiro do “Porto de Cima”, sendo a cidade foi impiedosamente saqueada. Após encarniçada luta, registraram-se elevadas as baixas nas hordas invasoras, resolvendo estas bater em retirada. Incontáveis obidenses, bravo povo que não foge de nenhum confronto, também morreram no pavoroso embate. Vinte anos depois, superado o clima de terra arrasada, era chegada a hora de cumprir a promessa; após subscrição em dinheiro entre os católicos, foi iniciada a construção da capela, erguida em madeira e coberta de telha no ponto mais alto da colina. Concluída em 1855 restaurou-a Dom Floriano em 1943, quando era vigário em Óbidos, posto que todo o madeirame e as telhas foram furtados em proveito de particulares. Não havia nenhuma residência ou prédio às proximidades. Não fosse a acentuada inclinação, aquilo seria mero balcedo escorregadio, coberto de vegetação rasteira. O Quartel do 4.º Grupo de Artilharia de Costa foi erguido muito depois; inaugurado em 1909, depois de sua fase áurea foi desativado e abandonado por completo em 1976, recuperado em 1998 pela SECULT e finalmente transformado em Casa da Cultura do Município no dia 22.02.2002. Acrescento esses dados porque o quartel e seu entorno, onde está inserida a praça, estão profundamente vinculados à própria memória do município. Tanto assim que lá mesmo foi construído o prédio que hoje serve de residência ao bispo, para abrigar o Grupo Escolar José Veríssimo, no qual ingressei em 1955, como aluno do primeiro ano da professora Maria Dalva Sousa da Silva. Remonta a essa época minha lembrança sobre a então denominada Praça do Bom Jesus, na verdade um descampado onde vicejava a juquira, receptiva ao pouso das borboletas brancas e amarelas que lá bruxuleavam no verão vindas do Laguinho, colorindo os olhos de quem nelas via o exuberante bailado da natureza. No centro, um coreto rústico, onde as bandas alegravam os penitentes nas festividades dos santos da devoção local; alguns bancos de madeira “curtidos de servidão” propiciavam duvidoso conforto aos que se dignavam a ouvir o clarinete do velho Nascimento, saudados pelos fogos de artifício infalíveis nas festas do interior. E assim ficou a praça, despida de beleza estética, servindo de área de expansão aos estudantes do José Veríssimo, que nela tinham uma privilegiada arena para empinar papagaio, favorecidos pelo vento esperto do Amazonas. Isto até 1957, eis que a fundação da Arquidiocese de Óbidos nesse ano, implicou na mudança do Grupo Escolar para o prédio onde até hoje se encontra, na Tv. Dr. Machado; o velho casarão episcopal não perdeu a majestade, abrigando condignamente nosso primeiro Prelado Dom Floriano. Em sua vetusta escadaria posaram certa vez cerca de trinta acólitos, liderados pelo Nadir, foto raríssima de 1958 que me foi gentilmente enviada pelo estimado amigo Cezario Andrade Torres, que hoje reside em Manaus (ele, Wilde Bentes, Edilberto e Ronaldo Galúcio, Carlos Antônio Silva, Pirão, Max, Pirex, Walmir, Nivaldo Amaral, Custódio Santos, eu e muitos outros estamos lá...). Administrações municipais posteriores resolveram adequar o dito espaço, nele construindo uma praça digna deste nome, após parcialmente nivelar a superfície do solo, minorando a inclinação. Surgiu apelidada de “Pracinha do Ovo”, pelo formato elíptico de seu canteiro central, após a remoção do coreto. O deboche não colou. Seus freqüentadores preferiram, à unanimidade, o carinhoso epíteto de “Pracinha do Ó”. Se bem lembrado, os gregos possuíam duas versões para a letra “O”: o omicron, que representa o som de ”O” breve; e o ômega, usado para designar o som do “O” longo. E desde seu surgimento na Grécia antiga, a letra “O” manteve o formato aproximado de um círculo. Estava morta a charada. O apelido pegou por esses dois fatores: sua diminuta dimensão, aliada ao formato (quase) redondo de quem a concebeu. Ultrapassada a gênese da “Pracinha do Ó”, custa nada discorrer sobre quão agradável era sentar ali nos finais de tarde, para contemplar uma das paisagens que mais me encanta em minha cidade natal – a visão do rio em união com o firmamento, tendo a emblemática Serra da Escama do lado esquerdo e a ponta da Ilha Grande, do lado direito. No início dos anos 70, como ante-sala das festas do Salão Paroquial a simpática praça era um deleite. Parcamente iluminada, nossas musas transmudavam-se em afrodites nas mãos inquietas e errantes dos parceiros, na vã tentativa de resguardar seus encantos, naquele envolver de corpos que pareciam latejar de febre. Tudo ali preconizava a paixão no aumentativo e os pleitos bem ou mal intencionados no diminutivo, como a combinar com o minimalismo do local: “Amorzinho, você se importa de uma conversa rapidinha lá na Pracinha do Ó antes da festa?”. - Mas... mas... balbuciava ela, ficando vermelha... - Mas... o que? Você já notou que aqui na Praça de Sant´Ana tem muita gente? - Êpa! Em que você está pensando? - Nada demais. Apenas desejo ficar só com você... O amor, em especial para os que dele não podem usufruir, é assim mesmo: ardiloso, enganado, fugitivo ou culpado. Mas produz sentimentos que vão e voltam mais fortes, com o passar do tempo, sem que saibamos explicar o porquê. Quantas coisas boas lá aconteceram testemunhadas tão somente pelo sibilar da brisa noturna suave e fresca... A praça era um cenário de constantes e envolventes tramas, aventuras, paixões, risos, ciúmes e ódios, essa torrente de sentimentos que desabrocha na escala de sonhos da juventude, às vezes com efeitos duradouros... E as serenatas, quem delas se lembra? O cantar romântico em frente às casas, sabendo que alguém no semi-sono esperava por aquele sublime momento. Pode-se considerar um bem essas aparentes frivolidades? Penso que sim, porque “os dias felizes não deixam à pessoa a mínima vontade nem de perder, nem de recomeçar a vida”, no dizer de Chateaubriand. Em compensação, coisas perversas foram acontecendo com aquela nobre área, ponto de atração da juventude, até transformá-la em algo amorfo, pelo que observei em minha recente estada em Óbidos. A praça está descaracterizada. Violaram o regramento constitucional que disciplina a afetação de bens públicos em detrimento da construção de imóvel particular, embora esteja ele (é bom que se diga...) passível de desapropriação extraordinária para fins de urbanização. Um amontoado de barracas grotescas completa o descalabro, mediante pedágios pagos a terceiro, conquanto construídas em área comum de uso do povo. Urge uma providência, para que não se perpetue essa aberração para com o patrimônio municipal, que não tem dono, pois é de todos os munícipes. Em Julho de 1991 passei alguns dias em Óbidos. A Praça de Sant`Ana fervilhava na expectativa das famosas gincanas, então em sua XIV edição, no interregno de 22 a 24 do aludido mês, promoção de elevados dividendos culturais que não se verificou neste ano de 2008. Algumas missões das equipes participantes eram espinhosas e as famílias dos estudantes se mobilizaram prestando ajuda para o êxito de cada qual. Havia as modalidades esportivas, as de palco e a pior delas, as “tarefas surpresas”. A Coordenação do evento (salvo falha de memória, integrada por Karla Savino, Ana Lúcia Azevedo, Pitican, Adson Amaral, Kleber Brasil, Isamar Silva, Sérgio Santos, Márcia Hamoy, Walter Rocha e Francisco de Paula), gentilmente me convidou para participar da comissão julgadora do dia 23 de julho. A uma das equipes foi atribuído fazer um breve histórico sobre os seguintes assuntos: a) o Forte Pauxis; b) o Quartel; c) a biografia do Prefeito Haroldo Tavares. Notei, entretanto, a ausência de temas voltados ao histórico dos nossos principais logradouros, porém limitei-me ao julgamento, atribuindo os pontos conquistados pelo grupo de sessenta integrantes cada. Tivesse me lembrado a tempo, arriscaria a sugestão visando incluir, sem prejuízo dos demais, algo sobre a origem e a trajetória da “Pracinha do Ó”, para perpetuar este recanto da “Cidade Presépio” aos que lá desfrutaram belos momentos. O tempo passou. A praça perdeu seu antigo encanto, embora remanesça em meu espírito alguma esperança. É que recentes notícias dão conta que existe um projeto de recuperação em andamento, apesar das naturais resistências dos retrógrados e inconformados. Oxalá seja concretizado em breve, transformando-a no point que sempre foi, restaurando-se em sua inteireza a magia daquele espaço, sabidamente modesto, porém de expressivo simbolismo para todas as gerações.
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