Célio Simões                                                                                                                               14/06/2007

O CARTEIRO E O PIRANHA

                               Debruçado na janela do prédio do Correio, fumando placidamente seu Continental sem filtro, o décimo de sua cota de três carteiras diárias, seu Lima observava em obsequioso silêncio o movimento da rua.

                               O entre e sai de clientes da loja do casal Luís e Coracy Aranha Martins, os hóspedes da pensão da vó Miquita, as empregadas domésticas jogando lixo no covão vizinho à casa do seu Andrade, enfim, nada escapava aos atentos olhos do fofoqueiro.

                               Ele era daquele tipo de pessoa, como diria nosso querido Ildefonso Guimarães, que não deixava “esfriar uma novidade” e para tê-las bem quentinhas, impunha-se aquele plantão diário em seu estratégico posto de observação, pelo período da tarde, tão logo encerrava-se o expediente postal, naquela época de pequena monta.

                               Para se ter uma idéia, as cartas e volumes chegavam a Óbidos no “pata choca” da Panair do Brasil, que pousava no Rio Amazonas, bem em frente à cidade, ficando preso a uma bóia. Sob os auspícios do Titilo Savino, desatracava do cais uma catraia conduzida pelo caboclo “Cachimbo”, despejava na aeronave os poucos passageiros, entregava a correspondência e demais volumes, fazendo a mesma coisa no trajeto de retorno. Não era raro alguém desembarcar no trapiche parcialmente molhado, porque os solavancos da maresia do rio não tinham, como hoje ainda ocorre, qualquer respeito pelas embarcações pequenas.

                               As cartas e encomendas, depois de selecionadas, eram destinadas ao Correio, situado ali no topo da Avenida Dr. Corrêa Pinto e somente no dia seguinte seu Lima, depois da sagrada sesta e a partir das duas da tarde, com sua voz roufenha de fumante inveterado, fazia a chamada dos destinatários. Quem estivesse presente recebia a carta na hora. Caso contrário, receberia depois, eis que ficavam sob sua guarda todos os haveres da repartição. Não valia receber “por procuração”, a não ser que fosse “peixe” do homem.

                               Naquele dia tudo já havia sido entregue. Para espantar a pasmaceira e deixar o tempo fluir, ficou ele observando o que fazer das redondezas, pra ver se pintava alguma novidade. Por isso fumava e fumava. Velho e alquebrado, sabia que o tabaco lhe agravava os problemas de saúde, mas não largava o vício. Aquela ferida no calcanhar direito, que lhe impunha um caminhar claudicante, o Dr. Lauro já até dissera (para persuadi-lo a abandonar o vício) que vinha piorando por causa da nicotina. Apesar de tudo, continuava seu consumo diário de quase duas garrafas térmicas de café puro, durante a jornada de trabalho, pretexto infalível para o uso do tabaco.

                               No dia do fato aqui narrado, encontrava-se seu Lima entregue às suas indecifráveis conjecturas, naquele fim de janeiro que ainda produzia um enorme calor no interior do prédio. E o panorama quase deserto de viventes àquela hora da tarde não prometia nada de anormal. Uma droga!

                               Descendo a rua do Correio, lá das bandas da praça de Sant’ana, vinha andando o Piranha. Moleque de uns quatorze anos, robusto e esperto, era “cria” da família do João Souza. Vendia doce na rua, arrumados com capricho num tabuleiro de madeira e vidro, com divisões internas. Cocada, pé de moleque, beijo de moça, broa, bolo de macaxeira, rosca de tapioca e doce de castanha, eram os mais freqüentes. Ao passar em frente à casa do seu Mário Prata, espiou lá pra dentro e viu o famoso carnavalesco dando os últimos retoques na fantasia para a quadra momesca que já se aproximava. Resolveu brincar com ele:

-          E aí, mestre Mário, vai desfilar este ano?

-          Mas claro Piranha. Carnaval é cultura. E essa é a minha maior diversão!

-          E que fantasia é essa, seu Mário?

-          Espera aí Piranha. Não poso dizer. É surpresa. Se eu revelar perde a graça...

-          Tá me parecendo uma borboleta esvoaçante!

                      Seu Mário, um homem habitualmente educado, sentiu a provocação mas não perdeu a calma. Fixou naquele enxerido os olhos azuis e pronunciou pausadamente:

-          Sabe o que é melhor? Vai vender teus doces. Preciso adiantar o serviço...

                               Piranha não se deu por achado. Já estava acostumado a tirar chalaça com todos em Óbidos e ser esculhambado por eles. Continuou seu caminho no rumo do porto, levando na mão esquerda seu brinquedo predileto – um pião de jacarandá – e na outra, em vez do habitual tabuleiro, portava dessa vez uma bandeja redonda de esmalte, coberta com um pano branco, com renda nas bordas.

                               Ao passar pelo do Correio, seu Lima não resistiu aos impulsos da sua famosa curiosidade e, por pura falta de assunto, arriscou a pergunta:

-          Escuta aqui, ô Piranha, o que é que tú estás levando nessa bandeja, embaixo desse pano?

A resposta malcriada veio em cima da bucha:

-          Se fosse pro senhor saber não vinha coberto...

A indignação tomou conta do velho carteiro.

-          Olha aqui, seu sacana, repara na minha idade e na tua. Respeito é bom e eu gosto. Espera aí que eu vou de dar uma coça!

A resposta do molecão foi ainda mais patética e agressiva. Com sua tendência para versejar, apelou para o bordão que qualquer fedelho da cidade aprendia nas dependências do grupo escolar:

“Sacana é pau de cana

da bandeira do Brasil,

quem me chama de sacana

vai pra p.q.p...”

                        Seu Lima endoidou. Furioso, jogou a bagana do cigarro na sarjeta e esboçou a atitude – vã, diga-se de passagem – de alcançar aquele atrevido para aplicar-lhe uns merecidos cascudos. Quando chegou à porta do prédio, nem sinal do Piranha. Havia descido a ladeira da Av. Dr. Corrêa Pinto, no rumo do mercado, em desabalada carreira e a bandeja coberta, que nada mais continha que uma dúzia de quindins feitos pela sua patroa, dona Lula, de encomenda para o restaurante do Azamor Marialva, tinha sumido de sua mão, sem que pudesse descobrir quando e onde. Mas seu tesouro maior, o pião de jacarandá, feito com capricho no torno da carpintaria do velho Inácio, estava salvo.

                               Por falta do que fazer, entrou no mercado para bagunçar a fila da carne. Moleque ordinário não sossega se não estiver aprontando. E naquele tempo, com a oferta menor que a procura, o Prefeito Municipal, Dr. Raimundo Chaves, vislumbrou uma forma democrática de equilibrar a venda do precioso produto.

                               Tudo era feito na véspera. No início da tarde, a fila era organizada em frente ao boxe onde trabalhava o administrador, o Bebé Moreira e começava a venda de cartões que garantiam o recebimento da carne no dia seguinte. Ninguém, independente do poder aquisitivo, podia levar quantidade superior a dois quilos, pois essa prática implicava numa partilha mais equânime entre as famílias ávidas pelo alimento. A entrega do produto se dava a partir das cinco horas da manhã do dia seguinte, nos poucos talhos existentes no mercado e não é preciso dizer de quem era essa tarefa na minha casa, que eu procurava desempenhar a contento, meio dormindo, meio acordado. Apenas evitava comprar carne no talho do Teodoro, porque ele tinha a estranha mania de meter a mão dentro da calça para arrumar os “pertences”, isso bem na frente de todo mundo sem qualquer constrangimento ou noção de higiene. Diziam que era uma baita hérnia que o incomodava, mas ninguém estava ali para resolver seus problemas de saúde.

                               Pois bem, na fila do cartão antes do início da venda, a molecagem corria solta, com brincadeira de pira-mãe, ficando os lugares de cada qual marcados por uma pedra, um papel de cigarro com o nome do distinto, um pedaço de madeira, uma lata vazia ou outro objeto qualquer.

                               Era quando chegava o Piranha. A esbórnia que já era grande, só fazia aumentar. O sujeito era escrachado, desbocado, irreverente, provocador e, bom de porrada, não levava desaforo pra casa. Seus insultos vinham e iam em forma de versos, para brigar ou desafiar, como fez com o pobre do velho Lima. Tinha porém uma grande qualidade. Não mexessem com seus amigos que ele tomava as dores.

                               Numa dessas situações fui salvo por ele. A fila para o cartão pegava fogo, a escumalha se envolvera num jogo de porrinha e o perdedor, estando na frente na “cobrinha”, foi obrigado a recuar um lugar dando sua vez ao ganhador. Entretido na porfia, nem notei quando entrou um sujeito no mercado, vindo das bandas da antiga Pernambucana. E mesmo morando numa cidade pequena, nunca o havia visto na vida. Por pura malícia, quem estava próximo a mim segredou-me dizendo para que eu chamasse bem alto o recém chegado pelo apelido: “Passa Cuspo”. Não me fiz de rogado e gritei a plenos pulmões o indesejado epíteto, ignorando por completo que o camarada era... bem, sei lá... vocês já entenderam...

                       Ao ouvir a ofensa grosseira e feita de forma gratuita, partiu em minha direção bufando de cólera e só então me dei conta de que caíra numa armadilha, porque correu todo mundo e eu fiquei ali paralisado, vislumbrando pela expressão raivosa do moço(?) o tamanho do revide, mesmo porque, maior fisicamente, o resultado da briga era previsível.

                               Foi quando apareceu o Piranha, meu velho amigo de jogo de pião. Interpôs-se entre nós e aparou o agressor com um violento encontrão de ombro, que o fez recuar na marcha em minha direção. Em seguida veio a sentença, para variar, em trova de pé quebrado, com uma inevitável pitada de imoralidade no meio:

“Se bate nele, bate em mim,

ou vai bater no c... do jacamim”

                               O antagonista mediu a largura do tapuio que o desafiava, a musculatura de lutador, o olhar ferino e determinado e preferiu desistir. Resmungando desaforos, saiu de fininho e sumiu, tão misteriosamente como apareceu. Aí foi a vez do Piranha encarar-me e disfarçando o ar triunfal pela fuga do adversário, arrogar-se o direito de passar-me uma descompostura, em mais uma de suas tiradas:

“Escuta aqui empambado,

se tu não agüenta, não te mete;

se eu não estivesse no mercado,

tu já estavas lascado...”

                               Atualmente o Piranha vive em Manaus e apesar dos 64 anos bem vividos ainda não conseguiu se aposentar, por falta de tempo de contribuição, trabalhando como cozinheiro fluvial nas embarcações que singram os rios da região. Daqueles bons tempos ficaram suas estórias, que recordo com saudade. Os demais da fila do cartão esqueci por completo, mercê da passagem implacável do tempo. É a marcha da vida, que não admite retrocesso.

                       Visitei o mercado em 2004, após muitos e muitos anos sem ir a Óbidos, para constatar como estava em termos de conservação. Do hotel do Braz Belo, onde me hospedei, até o histórico prédio, fizemos eu e meu filho Célio Augusto, andando e batendo papo, o mesmo percurso que o Piranha fez em desabalada carreira, com medo do carteiro Lima. Passamos pelo Correio, as ruínas da pensão da vó Miquita, o Cartório do Valdir Bentes, a loja da família Martins, a antiga residência do seu Andrade, a “Formosa Obidense” do patriarca italiano Silvestre Savino, o restaurante do Azamor, cada esquina me trazendo uma recordação boa.  No interior do mercado, quase tudo na mesma, guardada as devidas proporções.

                        Após visitar os boxes, por um minuto fixei o olhar no espaço onde era organizada a fila do cartão e aí a imaginação resolveu viajar no tempo. Foi inevitável o peso da saudade. Meu filho notou que algo de estranho se passava e resolveu indagar o que era. Me senti no dever de disfarçar.

                 - Não é nada. Mas vamos embora daqui...


* Saiba mais sobre Célio Simões no nosso painel de personalidades: Clique Aqui

Home | Volta