Carlos Antonio Silva                                                                                                                   09/01/2008

CARAPANÃ COR DE ROSA

 

       Desde criança sempre tive uma relação muito próxima com carapanãs e muriçocas. Aliás, não sei porque, até hoje sou apaixonado pela terra onde nasci – o planeta dos insetos.

  

      Logo pela manhã, na hora da ordenha, uma nuvem de maruins começava a me ferrar, deixando uma dorzinha chata e uma coceira irritante; caminhava com balde de leite, gemendo de dor nos pés provocado pelos estrepes de juquiri, seguido por mutucas de cavalo. E, toda tarde perdia horas, eliminando do corpo as rubras colônias de mucuins.

  

      À noite era a vez dos carapanãs bundudos, que pareciam bater ponto às seis horas da tarde. Vinham em forma de puxirum sem respeitar sexo ou idade. Parece que coletavam sangue para um carapanã rei da sua tribo. Depois de esvaziarem o sangue numa cuia, o carapanã rei bebia com uma taboca ou taquari até ficar saciado, enquanto sua tropa continuava a coleta ao longo da noite.

 

      Não dávamos conta de matá-los um a um com tapinhas, tínhamos que esfregar o braço desde a munheca até o cotovelo num movimento brusco de genocídiodos hematófagos. Conversávamos na base do: hum, hum, hem, hem, porque do contrário: imaginem!

 

      Seis horas da tarde ou da agonia era um corre-corre para fechar portas e janelas. Dormíamos entrincheirados com pavor do exército dos culicídeos. Debaixo de cada rede queimávamos incenso, em forma de espiral, chamado “boa noite” o qual nos protegia, deixando os inimigos bêbados. Com exceção daqueles mais experientes que usavam nossas lamparinas para rubrizar seus ferrões e covardemente apunhalavam-nos entre os poros da rede.

 

       Coitados dos pescadores!  Tinham que passar pela aldeia dos inimigos nos igapós e chavascal. Abanavam chapéus, soltavam baforadas de porroncas, passavam nos corpos repelentes naturais das resinas das árvores. Porém, para a incômoda sinfonia fanhosa não tinham truques, simpatias ou mandingas.

 

      Que lugar fascinante é esse? Que saudades tenho desse lugar?

 

      O Paraná de Dona Rosa – que deveria ser chamado – “Uma Rosa de Paraná” é uma paragem inesquecível. Quando entramos no Paraná, sentimos o alívio das maretas do Rio Amazonas e o respirar da paz no encontro com a saudade. Navegar no Paraná é viajar no paraíso sinuoso emoldurado pelo verde da paixão.

 

      A interferência que a natureza nele provoca, faz aumentar a imaginação em busca dos registros daqueles saudosos dias que ali passamos. Rever amigos, sentir o cheiro do peixe assado, lavar o rosto com água fresca e densa de prazer, pisar no tijuco, é como abraçar um querido amor a nossa espera. Olhar o gado nas caiçaras, retribuir o aceno das crianças nas ribanceiras, é retroceder no prazer da saudade com olhos brilhando de contentamento.

 

      Quanto aos carapanãs, depois descobri que também habitam em cidades maiores. Claro, são mais sofisticados, esbeltos, tem nome e sobrenome: Aedes aegypti, corpo pintado, apelidados de pernilongo e somente são capturados por forças federais. Tem até ministério para combatê-los!

 

      O Paraná de Dona Rosa é tudo isso. Fonte de prazer, de inspiração e álbum de recordações de todas as gerações, que algum dia teve a felicidade de por ali passar, doando o matuto sangue quente da coragem cabocla.

                                                                                 

                                                        Carlos Antonio
24.12.2007

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