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Carlos Antonio Silva 07/12/2010 |
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AH! FESTA Aquele que já teve a oportunidade de passar uma festa no interior da Amazônia sabe avaliar as dificuldades, os prazeres e com certeza tem na memória um fato inusitado pra contar. Sabá era um afamado vaqueiro no Paraná de Dona Rosa, lá pras bandas da família Amaral. Nos fins de semana ele curtia a sua folga vindo pra nossa região, na boca de cima do Paraná. Ele participava de festas, ferras, castração e de outros eventos pra relaxar da intensa lida na fazenda pro lado de baixo. Era um rapaz esguio, meio baixote, de pernas ligeiramente arqueadas, tinha um bigodinho ralo e a pele curtida pelo sol. Usava o cinturão muito apertado, deixando a ponta pendente pro lado da coxa. Balançava a mão esquerda pra agasalhar no pulso um relógio SEIKO 5, que teimava em rolar de um lado pra outro na sua munheca. Não tinha muito sucesso com as mulheres pelo excesso de cachaça que bebia, tornando-se sempre o mais inconveniente das festas que participava. Numa esperada festa no mês de junho, num casarão tradicional, canoas e motores chegavam de todo lado trazendo os convidados e participantes que, pela fama, aguardavam durante o ano pelo maior festejo da região. Sebastião chegou cedo, amarrou seu cavalo debaixo de uma cuieira e procurou se enturmar com rapazes que aos poucos vinham chegando. As damas sentavam nos bancos corridos na ilharga da parede, enquanto que os homens formavam grupinhos pelo terreiro, bebendo cachaça na boca da garrafa. O conjunto de Juruti já tocava com muita animação, mas nenhum casal se atrevia a dançar com sangue frio. Enquanto isso, o Sabá já ensaiava sozinho alguns passos, demonstrando que já estava quase no ponto. O som estrondava na mata e os foguetes explodiam no ar, confirmando o sucesso da esperada noite. A casa era de assoalho alto, paredes de tábuas já envelhecidas com o tempo e coberta com telhas cerâmicas do tipo francesas. Um trapiche ligava a casa até o porto, onde tinha um cedro que servia de píer para embarcações. Não tinha banheiro interno. A retrete, como chamavam, era uma casinha de madeira distante da casa, também ligada por uma ponte de madeira com corrimão lateral. Uma lamparina feita num vidro de magnésia iluminava aquele cubículo. Na face interna da porta, próximo da tramela, tinha um maço de palhas de milho enfiadas num prego, para alguma serventia. O assento era uma espessa tábua de itaúba na horizontal, com um círculo vazado, bem maior que a boca de um penico de adulto, tampando a fossa com altura de duas pessoas em pé. Os homens se arranjavam por traz das árvores e dificilmente precisavam ir até a sentina. As mulheres, talvez pra esticar as pernas ou para atualizar das fofocas, iam de parelha. O salão aos poucos enchia de animados casais, enquanto o Sabá ficava de pé, equilibrando-se como se o salão rodopiasse também. Aqueles que conseguiam namoradas desciam a escada e curtiam a festa no terreiro ou nas moitas mais próximas. Assim, a farra ia varando a madrugada. O Sabá entrava e saía no salão com andar trôpego, sem rumo, tomando mais um gole da maldita. Lá pelas cinco horas da manhã, uma senhora vai à retrete e quando despejava toda cerveja ingerida, ouve uma voz ecoando dizendo: - Me tirem daquiiiii! O Sabá, muito doidão, tinha ido até o banheiro e conseguiu a proeza de escapulir pelo buraco e cair em pé atolado até o peito naquela massa sólida, onde as bactérias anaeróbias procuravam reconhecer o visitante. Ficou ali bêbado, cochilando e sem saída. Quando percebeu “aquilo preto” jorrando um líquido amarelado na sua cabeça gritou, botando a senhora pra correr com a calça na mão, dizendo que tinha um peste espiando as mulheres na privada. Homens corriam com porretes para liquidar com o espião das partes íntimas das damas chamadas de cabrochas. - Sabazinho, tu não tens vergonha? Logo perceberam que o Sabá precisava de ajuda e não de castigo. O dia amanhecia e o vaqueiro continuava atolado. Pegaram um corda de envira, laçaram-no por baixo dos braços, passaram a volta numa roldana de madeira que fora talha de embarcação e a ponta da corda amarraram na cilha do seu próprio cavalo, resgatando assim o festeiro espião. Carinhosamente vários rapazes, aplaudidos pelas fêmeas, arrastaram o Sabá pelo pasto até a ribanceira. Retiraram a corda e, utilizando um comprido mará com forquilha na ponta, rolaram o vaqueiro à milanesa, contaminando o Paraná de Dona Rosa. Ah! Festa. Carlos Antonio Nov.2010
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