|
Carlos Antonio Silva 31/05/2010 |
|
O BANHO No fim da tarde, as crianças vizinhas brincavam de belário no terreiro da casa do Agapito. Dona Joana sentada no batente da casa, de assoalho alto, catava piolhos na cabeça da Rosinha. Quase todo dia esta cena se repetia. Dona Joana era uma mulher morena de cabelos longos e negros como asas de coroca. Mantinha-os enrolados e presos com pente fino, formando com habilidade um perfeito cocó no centro da cabeça. Dia de domingo as vizinhas deixavam-na atualizada dos fuxicos da redondeza. Falavam que a Zenaide tinha muitos préstimos, mas era pávula e cuviteira. Agapito falava pouco: Cuida logo no peixe; põe a chocolateira no fogo; dá o bucho pra cachorrada; e assim, ele, cansado do campo ou da pesca, comandava a casa sentado num mocho ao lado da mesa, debaixo do copiar, onde ficavam também o pote, a bilha, o fogão de lenha e o jirau. Agapito, meu primo, era franzino, porém valente. Ficou amedrontado quando o primeiro avião à jato deixou um rastro de fumaça no céu, seguido de um estrondo, como se rasgassem as nuvens, pondo meu parente de molho num aningal. Depois de várias horas, seus amigos lhe puxaram para a terroada, com o corpo coberto por sanguessugas. Ele, trêmulo, repetia sem parar, batendo o queixo: - É o fim do mundo! É o fim do mundo, minha gente! - Toma logo um copo de cana pelo gargalo, e pára com essa frescura. Rosinha acendia as lamparinas. O fogo parecia dançar, soprando a fumaça como incenso, para afugentar as muriçocas. Ela fechava as janelas de japá e arrumava a mesa, sem se esquecer da farinha amarela do Curumucurí. Do pote de barro ela tirava água com um púcaro para servir durante a refeição. Era uma moçinha magrinha, canela seca e piririca, ainda com marcas de bexiga, que pegara quando menina. Tinha cabelos sarará e atrapalhados pelo vento. Ela não andava, corria. Certo dia, no finzinho da tarde, o Agapito subia a ribanceira, trazendo uma saca com acaris, deixando grande parte do peixe imersa na água da canoa. Os acaris ainda se contorciam dentro da saca de sarrapilha em cima do jirau, quando ele desceu para o porto para tomar seu costumeiro banho, nu em pêlo, no Paraná de Dona Rosa. Dona Joana preparava o jantar, cantarolando toadas desconhecidas, acompanhada pelos cachorros atentos, que disputavam no ar as sobras do peixe. Enquanto isso, Agapito assobiava ensaboado com sabão inglês, pronto para outro mergulho. A brisa do anoitecer o envolvia de arrepios úmidos, como convite para parar. No momento que ele se abaixa para pegar seus teréns, um violento rebojo se formou, fazendo-o correr nu, gritando apavorado como se caba tapiú lhe perseguisse. Seu grito ecoava, pedindo seu arpão, para matar o jacaré que lhe botou pra correr. Foi um corre-corre no meio de gritos, latidos e pavor. Agapito fora convencido que deveria jantar e descansar, para no dia seguinte colocar o espinhel, e fisgar aquela fera. Jantavam, naquela noite, onde somente as suináras quebravam o silêncio, agourando os ribeirinhos cultivadores de juta. O Agapito planejava, resmungando, a estratégia para liquidar com aquele jacaré apavorador. Tomavam café. Agapito ainda macambúzio pulou da mesa assustado com latidos sinistros do Rompe-Mato e do Ventania, que rodopiavam pedindo socorro, caian! caian!, manchando de sangue o chão batido do copiar. Agapito acende a lanterna de três elementos e percebe que o Ventania, seu melhor amigo, rastejava somente com três pernas. A casa foi invadida por gritos, latidos e uma sensação medonha, anunciando a presença do gigantesco jacaré-açu, de papo amarelo, rastejando debaixo do assoalho a procura da sua presa. Foi um alvoroço a procura de uma rápida decisão. Dona Joana da janela repetia sem parar: - Valei-me Nossa Senhora deste bicho horrivi! Credo em cruz, Ave Maria! Agapito estonteado, pega uma corda de envira, atrai o réptil com acaris e bem posicionado, laça-o pelo pescoço, passando a volta da corda no galho de um frondoso apuizeiro, fazendo o jacaré emitir um urro cavo de agonia, lambando o rabo, levantando a poeira do terreiro. Quanto mais movimento ele fazia, mais o laço apertava. Agapito passou a volta na barriga, no rabo e nas patas, até ter certeza que venceu sozinho, um bicho de 300 e poucos quilos. Não dormiram. Passaram a noite em claro, como num velório. O bicho morreu enforcado e peiado. Rosinha passava a mão, como carinho lhe fizesse. Dona Joana ralhava com ela: - Cuidado esta zinha! Olha que o bicho reina! No dia seguinte, Agapito foi aclamado como herói pelos vizinhos. Ele fazia questão que os cachorros fossem os primeiros a comer a carne assassina. O Ventania gemia amuado e dilacerado, enjeitando a comida.
A partir
desse dia, toda família tomava banho com uma cuia pitinga,
que também servia para tirar água da canoa. Égua, parente! Carlos Antonio |
|
|