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Carlos Antonio Silva 27/08/2009 |
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O BOTE DO SUCURIJU
Zeca era um rapaz esperto, forte e sadio. Filho de italiano com mãe descendente de portugueses, com seus quinze anos já era um exímio tratador de gado, desempenhando com satisfação e presteza as rústicas lidas de uma fazenda nos campos de várzea, no Paraná de Dona Rosa. Éramos vizinhos e amigos naquela paragem, numa época que dominava o prazer, a fartura e o encanto, onde relembro com saudade as nossas aventuras de adolescentes.
Porfiávamos a cavalo, saltando por cima de paus caídos no campo; atravessávamos lagos e igarapés segurando no rabo das vacas; varávamos aningais em busca de caças; tirávamos acari do buraco e tantas outras aventuras de intenso risco que para nós era como atravessar uma rua ou bater pernas num shopping center. No caminho da escola, corríamos entre os cacauais, devorando as frutas maduras que pareciam nos esperar. Nos trechos de mata densa, chutávamos folhas secas caídas e gritávamos, sem razão, delirando com o eco que reverberava nas frondosas árvores as quais não existem mais. Pescávamos de tarrafa, de caniço, de linha e de arco e flecha. Não conhecíamos cidades, tampouco o falado progresso, tão noticiado através do rádio. Mesmo com pouca informação, sentíamos no âmago da Amazônia, as influencias da inesquecível década de sessenta: a corrida espacial; o carismático Juscelino Kubitschek de Oliveira; o futebol com Pelé, Garrincha e a seleção canarinho de ouro; Brigitte Bardot; e por aí vai... Meu pai era assinante da revista “O Cruzeiro” nos deixando bem informados. A influência daquela década era tanta, que meu cachorro foi batizado de Sputnik e nossa cadela tinha o nome de Laika (o primeiro ser vivo a orbitar o Planeta Terra a bordo da nave soviética Sputnik II, em 1957).
Certo dia, numa das nossas habituais caçadas, estávamos no retiro São Jorge nas cabeceiras do lago Saraki, lugar onde os pássaros pareciam marcar encontro para namoros e banquetes, fazendo uma algazarra de satisfação, colorindo e dando movimento ao céu, que parecia tampar aquela região feita com esmero pela natureza. Caminhávamos de parelha, espiando para um lado e para o outro à procura da primeira caça. Talvez uma capivara ou um velhaco cametaú de vigília na copa da mais alta árvore. O céu já começava a brilhar naquela manhã de poucas nuvens arejada por uma leve brisa fresca soprada do fascinante lago. Trajávamos diariamente somente calção amarrado no cós com linha americana e nas pontas dado “nó de padre”. Nesse dia, o Zeca vestia um calção vermelho desgastado e eu, calção de mescla azul tradicional. Lembro-me muito bem daquela manhã sadia e alegre onde o vento parecia nos guiar, mostrando o capricho da natureza, para depois sair penteando o pasto e acordando a mata com seu sopro matinal. Naquele momento de profunda serenidade, ouvimos um barulho por cima da copa das árvores como o som de vários helicópteros pousando sobre nós. Era um bando de patos do mato, voando rasante para pousar numa lagoa entre o vasto pasto, bordado com vários tons de verde. Nossa caça estava garantida. Tomamos todos os cuidados, rastejamos vários metros até uma moita mais próxima, sem demonstrar nosso contentamento. O bando fazia festa na lagoa. Mergulhavam, batiam as asas, catavam piolhos numa cerimônia de festa e alegria, transmitindo para nós nervosismo de satisfação. Meu coração batia num ritmo intenso, cadenciado pela emoção, me deixando extasiado diante daquele bando cobiçado e o mais arisco das florestas.
Minha arma era um rifle winchester calibre 22, com 15 tiros de repetição. Não precisava de pontaria precisa para aquele alvo, tal como um grande tapete negro em movimento naquela lagoa de água serena, onde espelhava o azul pálido do céu. Mirei e disparei o tiro já quase de olhos fechados de expectativa. O bando voou. Ficou apenas um pato que batia com as asas na água como se pedisse socorro aos outros que manchavam o céu, voando em liberdade.
Zeca correu entre charcos e capim, pulou e nadou em direção à nossa presa. Com o braço direito erguia o pato como um troféu olímpico, enquanto anunciava numa mistura de fala, grito e canto:
- Parente, ta aqui o bicho!
Deixei o rifle no galho caído de um catauarizeiro e caminhei em passos largos de prazer para compartilhar do momento de êxtase, naquele paraíso onde os verdes se confundiam, emoldurando aquela cena.
Nesse momento, um grande rebojo se formou em volta do Zeca, como se ele travasse uma grande luta contra nossa caça. Fiquei desesperado na margem da lagoa, quando percebi que a presa naquele momento era meu amigo.
O Zeca fora envolvido por um bote de um sucuriju de aproximadamente quatro metros e talvez quinze centímetros de diâmetro. Fiquei atônito sem saber o que fazer naquele momento de pânico. Uma volta e meia entrelaçavam meu amigo já sem o pato e transtornado de pavor. Lambado ora pra direita ora pra esquerda num movimento de total desespero, angústia e sofrimento após minutos de felicidades e prazer. Urubus no galho de uma árvore seca pareciam agourar e esperar o derrotado para saborearem mais uma refeição.
Voltei correndo para buscar o rifle, enquanto o Zeca fazia força se contorcendo para livrar-se daquele abraço de agonia, deixando sua fala escassa. Eu não sabia onde atirar. Procurei então a cabeça da cobra e cinicamente ela olhava-me com cara de inocente, enquanto mais um acocho ela aplicava no Zeca que suplicava:
- Atira, atira nela! Atira nela!
Naquele instante, um universo de dúvidas rodopiava na minha cabeça em busca duma imediata solução para salvar meu companheiro. O Zeca estava desesperado. Seus olhos brilhavam, expressando o último grau de angústia clamando socorro. Minhas idéias se confundiam com pânico e medo. Pensei disparar um tiro e a bala resvalar nas brilhantes e lisas escamas verdes, atingindo o Zeca. Imaginei em bater com a coronha da arma, mas poderia também não ser um golpe mortal, irritando ainda mais aquele réptil de sangue frio com aparência de um rolo de borracha. Gritávamos um com o outro, e não me recordo o que discutíamos. Devido ao nosso movimento no lago a lama cedia, dificultando nosso equilíbrio. Permaneci com braços levantados, já com água pelo pescoço, para proteger o rifle, deixando-me com pouca resistência. Dei um passo para trás, quando de repente muito próximo, surge a cabeça dela com boca aberta, fazendo pouco de mim, balançando a língua que parecia ser recortada com tesoura, inspirando-me para introduzir o cano do rifle – goela dentro – e disparar vários tiros em direção oposta ao refém. Lentamente sua força, seu molinete natural, relaxava, deixando a lagoa numa cor rosada, enquanto o Zeca cambaleava num andar trôpego no tijuco da lagoa. Retornamos abraçados. Ele queixava-se de dores no corpo, impregnado por uma forte catinga, contaminado por um líquido gosmoso insuportável. Tomamos banho num igarapé de água limpa, cercados por murerú, relembrando aquela cena horrenda e lamentando a perda do nosso pato.
Quando o Zeca chegou à sua casa e relatou sua aventura, sua mãe falou determinada:
- Agora tu vais levar uma surra com galho de cuieira assada, pra não te meter com má companhia. Só o que faltava! Ver meu filho no bucho de um sucurijú. Credo!
Carlos Antonio |
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