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Carlos Antonio Silva 13/02/2009 |
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EMBIARA DE RUFIÃO
Casa cercada e coberta com palha de urucurí, portas e janelas tapadas com japá, sala grande com esteio no meio, onde eram atadas redes de forma radial. Na cozinha, um velho e sabrecado fogão de lenha, estrutura de barro, com panelas amassadas e negras de tisna, sobre trempe de ferro corroída pelo tempo. Mesa com bancos corridos, jirau pitiú apoiado na janela, projetado para o terreiro com escamas de peixe aderidas nas tábuas. Nas paredes de palhas, eram enfiados terçados, ganchos, roupas e outros objetos. No caibro, coió com sal, galinha choca próxima ao pote e do lado vassoura de pauzinho. Um púcaro amassado pendurado próximo da bilha, tampada com uma cuia pitinga.
No copiar, canoa emborcada sobre o chão batido, para ser calafetada. Sobre o casco ficavam estopas, breu, pez e ferros apropriados para calafetar. No frechal, arreios para pesca – espinhel, tarrafa, arpão e quase sempre pendurado com envira, um poraquê para isca de jacaré. Pequeno terreiro com varal para secar juta, contornado pelo murizal, com abertura apenas do caminho em direção ao porto. Nenhum pé de fruta! Assim era casa de José Ferro no interior de Óbidos.
Caboclo pachorrento, pele curtida pelo sol, poros visíveis que pareciam ser furados um a um. Veias salientes expressavam o vigor e a força daquele homem. Terço do beiço cor de rosa pelo álcool provocado. Cabelos lisos e negros com ponta sobre a testa. Paciente com tudo, violento, quando ferido seus direitos e sua família.
Antes de trabalhar, um indispensável “mata bicho” (meio quartilho de cana). Mãos pesadas, pés arreganhados, unhas ruídas de tanto trabalhar, lavando juta n’água, pescando ou roçando campos de várzeas. Calafate de mão cheia manuseava com perfeição os ferros – motivo de ser chamado “Ferro”. Família grande, oito filhos dos quais três moças, as quais protegia com muito ciúme.
Manelito, tapuio baixote, entroncado, ginete, sempre presente e atuante nas festas, jogos e porfia. Namorava sem consentimento a Maricota, filha mais velha do Ferro. Alta, magra, cabelos tesos mal tratados carregados de quirana, pele morena com sinais de caratá, pernas... não! Canelas secas e piriricas, vestido de chita, quando sentava empapuçava entre as coxas.
Chica, a mais nova das filhas, sabia que o cuirão rastejava todas as noites pelo buraco na palha da parede e deitava-se com Maricota. Ele sabia no escuro e de olhos fechados onde cada um daquela casa dormia.
Certa noite, Manelito, acostumado com as maranhas, chegou até a rede da maricota... Surpresa!!! Rede vazia. Não perdeu a linha. Andando na ponta dos pés, foi onde dormia a Chica e cochichou no ouvido dela: - Onde está Maricota? Mal sabia. Sua embiara ali o esperava de tocaia. Ferro pula no cangote do rufião e berra: - ONDE DEIXEI MEU TERÇADO? Vou capar este “sacrista sem vergonha”, “canalha duma figa”. No meio de gritos, redes e penicos, Maricota fala: - Pai, ele não foi meu autor! Momento esperado por Manelito para driblar o Ferro e embrenhar-se na capoeira até ontem. Pode ser que apareça hoje...
Carlos Antonio
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