Carlos Antonio Silva                                                                                                                   18/07/2007

A ONÇA E EU

Dos felídeos brasileiros de grande porte, acho a onça mais bonita e elegante apesar de ser a mais traiçoeira. Por muito tempo zelou pelas nossas matas, enquanto seu couro não era comercializado.

Fui caçador amador, embrenhei-me nas mais densas matas do Paraná de Dona Rosa na década de sessenta. Sempre tive o maior receio de um dia ser devorado pela princesa da floresta, tal como escutava atentamente as histórias arrepiantes contadas pelos caboclos da região.

Passava sempre férias no retiro às margens de um igarapé, coberto com mureru exceto em volta da ponte onde dávamos banho nos cavalos e guardávamos as canoas. Água limpa e fria espelhava a lua e pelo foco da lanterna, conferíamos jacarés de bubuia.

Casa coberta e cercada de palha, assoalho alto, na varanda ao nível do terreiro ficavam o fogão de lenha e mesa de refeição com bancos corridos desconfortáveis, e nada ergométricos. Amanhecíamos no chiqueiro, conferindo os bezerros e pegadas de onça. Enquanto tomávamos a tipuca matinal, comentávamos a atuação da onça naquela noite. Sabíamos de todas as notícias da região por onde a onça causava temor. O comentário que mais durou e nos encheu de espanto, foi de um vaqueiro chamado Eunápio, nas proximidades da fazenda do Sr. Areolino Amaral, montado numa égua laçou uma onça e trouxe-a na cilha até o curral da fazenda.

Meu dia era divertido. Caçava, pescava, lidava com gado, tirava acari do buraco no lago do saraki, e passava longe de um lugar chamado: lago das cobras.

Numa noite calma e fria jantávamos a luz de uma lamparina, incomodados apenas pelos carapanãs bundudos e sapos cururus, que não nos deixavam ficar no silêncio profundo. Naquele momento de absoluto êxtase ouvimos uma explosão apavorante do outro lado do igarapé. Uma sensação de que ali caíra uma bomba atômica juntamente com um raio de grandes proporções, causando aquele trovão. Era o urro de uma onça que na mata amplificava aquele eco medonho de terror, que me fez tremer batendo os dentes. Deu-me uma tremedeira, tal qual a de um impaludismo do mais alto grau, quando um segundo uivo já mais próximo, completava o pavor, anunciando o fim do mundo. Minha tia Zizi abraçava-me como um bebê desprotegido, tentando consolar-me dizia: valei-me Nossa Senhora! Deus é Pai e não padrasto. Agapito, meu primo, subiu a escada em direção ao quarto, voltando com uma espingarda disse: Carlos Antonio pega essa lanterna e vamos matar essa onça. Nesse momento de brincadeira do meu primo, acho que eu já urrava mais do que a onça. Fui pra minha rede e fiquei enrolado como um mole de tabaco. Não sei se dormi ou se morri naquela noite. Até hoje aquele som reverbera no meu tímpano ao ponto de ouvir uma freada brusca de caminhão, e logo pensar que uma onça vai me devorar.

Passado algum tempo, já no final da década de sessenta em Óbidos, meu pai convidou-me para visitar um amigo dele do Paraná de Dona Rosa que estava na Santa Casa internado. Domingo à tarde saímos para a visita. Encontramos o Dídimo deitado na cama com a metade do rosto coberto por gaze e esparadrapos. Dídimo ficou muito satisfeito com nossa presença, considerando que não tinha parentes na cidade para visitá-lo. Meu pai, encorajador como de costume, perguntou: Que foi isso caboclo?

- Carlos Silva, meu amigo. Estava caçando, quando de repente de traz de uma moita, uma onça me pega a traição e me dá uma tapa, fazendo esse estrago que o senhor tá vendo. Não tive destreza naquele momento. Minha cara ardia tanto que parecia ter levado uma surra de urtiga na venta. Meu cachorro não sabia se latia ou me dava atenção, enquanto que ela sumia na brenha. Agora, vou lhes falar uma coisa: só se eu nunca mais sair daqui. Porque, gravei a feição dela.

Carlos Antonio
23.06.07

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