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Carlos Antonio Silva 17/10/2008 |
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Após muitos anos, encontrei-me com a Socorro. Foi um encontro agradável relembrarmos cenas vividas intensamente por nós em Óbidos, na década de sessenta. A cada fato que ela lembrava, eu recordava de outro semelhante. Ríamos de saudade, do nosso comportamento e das situações inusitadas que aconteciam, pois hoje parece não ser verdade.
Socorrro se lembrou do sofrimento de uma moça quanto à liberdade, das restrições aos anseios inerentes a qualquer jovem. Lembrou do respeito perante aos professores, nas salas de aula, e que destes tomávamos bênçãos; dos castigos que os severos pais nos impunham e das penitências sentenciadas pelos sacerdotes.
Ela lembrou que a mulher sofria com as roupas e acessórios, como anágua, combinação, corpete com centenas de colchetes, saia godê e as longas saias plissadas. Na opinião dela, o que mais a incomodava era a calcinha íntima de tecido, chamada de cangulão, geralmente confeccionada em casa, com vinte botões de cada lado, tornando uma operação de difícil manuseio abotoar de um a um numa posição desconfortável. Disse ela que o laquê no cabelo também era incômodo. A preocupação em equilibrar na cabeça aquele exagerado volume parecia um concurso de ninho de pássaros.
Socorro achava que os homens levavam sorte. Trajavam calça de nycron e camisa “volta ao mundo”, um pouco de brilhantina no cabelo, e pronto! Estava arrumado. Não precisava passar a ferro! O nycron não amarrotava.
A conversa com a Socorro tomou outro rumo, relembramos dos amigos, das comidas e dos passeios. A saudade fluía tal como o cheiro agreste da mata, ou a brisa fresca soprada de um rio. Despedimo-nos com esperança de haver em breve outro encontro.
Fiquei encucado quando Socorro falou que os homens não se escravizavam diante da moda ou dos costumes da época. Passei então a relembrar item por item do vestuário masculino. Lembrei! Égua! O homem, sem dúvida, foi o mais castigado.
A roupa da mulher era somente adorno para torná-la mais bonita e deixá-la com corpo tipo violão. Nesse tempo, comparávamos a mulher com objeto artístico e escultural. Hoje elas são comparadas com as frutas: melão, uva e melancia, aguçando o paladar masculino, até levá-lo a indigestão. O homem foi severamente castigado e brutalmente amordaçado.
Lembram do “suporte”? Era uma espécie de cueca de elástico que um gênio casto e anti-viril bolou, desenhou, desenvolveu, fabricou, o IPT testou e certificou, com finalidade de crueldade, enquanto ele talvez comentasse com sua senhora mamãe da maravilha que acabara de inventar. O suporte era uma forte liga, envolvia a cintura e uma espécie de tapa-sexo mais largo e muito resistente, peiava os órgãos genitais masculinos.
Esse sustentáculo emborrachado impossibilitava qualquer movimento do atrevido pênis, ficando ali o dito cujo encamboado, de cabeça para baixo, impedido de qualquer reação, quando o homem fosse abraçar a namorada ou dançar coladinho. O bicho tufava o cangote, tentava cutucar o suporte, mas o cinto de castidade era eficiente.
Fabricado por uma multinacional, foi testado com o mais alto grau de qualidade. Nesse ponto o inventor, castrador de intenções, podia se orgulhar. Era um cabresto que deixava o parceiro imobilizado, coroando com sucesso o inventor de desprazer. Coitadinho!
As mulheres talvez não entendessem a fria reação e poderiam até pensar noutra coisa, que ofende qualquer homem varonil. Os jogadores de futebol, também usavam essa tortura de membros salientes. Quando partiam para cima com jogada do tipo pedalada, o badalo não deveria mostrar a cara, gozando do adversário. Então, o suporte chegou para acabar com a farra do passarinho.
Quantas moças talvez duvidassem da masculinidade de seus namorados? Quantas mulheres chegaram a comentar: – Ele é legal, de boa família, mas... Não sabiam que o bicho estava engasgado por conta da idéia daquele...
Carlos Antonio
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