Carlos Antonio Silva                                                                                                                   29/08/2008

ASFALTO DE ÓBIDOS PROVOCA TERREMOTO

Na década de sessenta, principalmente em Óbidos, a juventude era ingênua. As brincadeiras eram isentas de malícia, dolo ou premeditação. Naquela época, nosso planeta parecia trocar a roupa. O homem vivia revolução nos costumes, lançava-se ao espaço sideral; o rock and roll, iniciado no sul dos Estados Unidos na década de cinqüenta, chegava zunindo com as guitarras e separando os dançarinos de rosto colado. 

Os prefeitos também tinham ânsia de acompanhar esse desenfreado desenvolvimento, no qual o presidente Juscelino Kubitschek não se contentava com o – a seu ver – minúsculo Palácio do Catete. “Ansiava por integrar povos e regiões, administrando o país no centro do território brasileiro”. Juscelino tinha pressa e regulou seu cronômetro: “cinqüenta anos em cinco” (1956 a 1961). 

No período seguinte, um prefeito de Óbidos resolveu também colocar nossa cidade no patamar de desenvolvimento, asfaltando as ruas, para provocar inveja aos municípios vizinhos. As gerações mais novas podem até duvidar se um dia aquelas ruas foram asfaltadas. Não duvidem: Óbidos é a cidade do “JÁ TEVE”. 

Imaginem caçambas, pesadas máquinas vibro-acabadoras e rolos compactadores, subindo e descendo as íngremes ladeiras da Dr. Machado e da Corrêa Pinto. Talvez diante dessa dificuldade o prefeito bossa nova limitou-se apenas a aplicar uma camada de primer (pintura primária) pretejando as ruas e deixando os obidenses orgulhosos. Tínhamos basicamente um par de sapato, usado para ir à missa, às festas e procissões. O sapato era um acessório do vestuário masculino comprado para durar, sendo que algumas providências tornavam-se habituais antes de o usarmos. Costumávamos levá-lo a um sapateiro chamado Bico-Fino para colocar uma espécie de ferradura metálica na ponta e outra no salto, tais como dos dançarinos de catira. Após o desgaste parcial do solado, mandávamos colocar uma meia-sola e o mantínhamos engraxado. Assim, o sapato ia ganhando durabilidade. Um dos motivos de briga era quando um amigo insinuava pisar na ponta do sapato, dizendo tirar o selo. Imaginem o transtorno que o piche provocava, aderindo no nosso elemento de vestuário de estimação chamado de “meu pisante”. Aqueles que andavam descalços nas ruas piçarradas e betuminadas ficavam com um beiju preto colado no solado dos pés, removido com bastante querosene Jacaré, sabão inglês, e massageado com vigor através de bucha vegetal. Quando chovia o betume escorria pelas sarjetas, com aparência de garapa fermentada e azeda, deixando pampa as calçadas.  

O trânsito ainda era tímido, porém a prefeitura tomou todos os cuidados para sinalizar os cruzamentos, com tambores vazios de duzentos litros, impedindo que os veículos danificassem o sonhado revestimento negro. 

Costumávamos freqüentar as festas sociais promovidas na ARP, porém imbuídos do mais rígido comportamento social. Como estratégia para um namoro mais avançado e talvez um momento de amor na capoeira mais próxima, aproveitávamos o restinho da noite na sede dos estivadores. Não tinha erro, embora não tivesse ainda a dança do créu. 

Certa noite, três rapazes de fino trato voltavam dessa aventura e, na esquina do bar Andrade, tambores isolavam o trânsito para a cura perfeita do dito asfalto. Eles tiveram uma brilhante idéia naquela silenciosa madrugada. Soltaram os camburões, descendo a Rua Bacuri, ganhando extrema velocidade e provocando um infernal barulho, apavorando os moradores que jamais tinham sido acordados por uma espécie de terremoto medonho. Extasiados com o sucesso da operação, eles vibravam e guiavam os tambores para o leito da rua, quando estes ficavam encalhados num poste. Nas proximidades do colégio São José, os tambores ganhavam altura de quatro metros, aumentando o atormentador barulho naquela pacata rua. Algumas freiras, despenteadas e de camisolas, tentavam identificar os pilotos parecendo que Óbidos fora naquela noite invadida por tanques de guerra dos temidos cubanos, enquanto outras se abraçavam com imagens, com terço pressionado na mão e iniciavam o “ CREIO EM DEUS PAI”. A imagem de Fidel Castro era pura versão do demônio, induzindo-nos a fazer o sinal da cruz, quando seu nome fosse pronunciado. O dia amanheceu e muitas famílias não saíram de casa, estonteadas com aquele estrondo jamais visto em Óbidos até hoje. As irmãs identificaram os santos alunos da turma B do ginásio, aplicando no dia seguinte o maior demérito regulamentar na presença dos austeros responsáveis. O pau comeu! E o asfalto desapareceu. 

Hoje, Óbidos orgulha-se desses filhos ilustres: um médico traumatologista e empresário bem sucedido; um bacharel em Ciências Contábeis, especialista em administração pública; e o líder do grupo, um respeitado advogado pós-graduado em Direito do Trabalho, membro da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, membro vitalício da Academia Paraense de Jornalismo, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-Pará, Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará e membro da Academia Paraense de Letras Jurídica.  

Carlos Antonio
07.09.08
 

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