Palavras de Miguel Canto                                                                                                                                                       26/08/2009

DIÁRIO INTERNACIONAL

Miguel Canto

 

 

      Ladies and Gentleman, sejam bem vindos a bordo do transcontinental AC330 da TAP. Nossa próxima escala será no aeroporto Charles Dgaule em Paris. Nosso vôo terá a duração de dez horas e trinta minutos aproximadamente. Observem os avisos de apertar cintos etc... etc...

 

Ao escutar este aviso, confesso que tremi na base. Vejam bem. Um caboclo de várzea bem mais acostumado ao barulho dos remos que impulsionam a “igarité” (canoa grande) pelos rios Amazônicos, ou quando no máximo, experimentando um vôo domestico com duração de uma hora, senti-me como se fosse um boi sendo levado para o matadouro. Transpirando de todas as maneiras e por todos os poros, custei a acreditar que estava voando com destino a Europa.

 

 Calma criatura! Os primeiros minutos devem ser sempre apreensivos. (brigava eu com meus neurônios) Porém, logo a gente se acostuma. E como não havia mesmo outro remédio, procurei relaxar “esbabacado” com o ronco ensurdecedor das turbinas gigantes que gemiam assustadoramente impulsionando para o alto, aquelas mais de sessenta toneladas de peso, atravessando nuvens, para mais tarde estabilizar depois de alcançar a invejável altura de onze mil metros, a uma velocidade de quase novecentos quilômetros por hora, em relação a superfície terrestre.

 

 A noite curta da Europa –apenas oito horas- já tinha terminado quando na claridade do dia vislumbrei pela pequena janela do avião uma paisagem estranha, diferente das costumeiras em nossas viagens aéreas regionais. Olhando do alto, era como se eu estivesse vendo um mosaico de fragmentos espalhados na superfície. Com predominância da cor marrom, eles se agregavam uns aos outros produzindo efeito de figuras geométricas espalhadas pelo chão. Era terra nua, sendo trabalhada depois do causticante inverno Europeu, para receber o plantio de verão. Acreditem naqueles mosaicos mal traçados, estava o que restou da floresta Européia. Por mais que se procure, não se vê nenhuma árvore. Ai esta, um dos principais objetivos das investidas interesseiras sobre a nossa querida Amazônia, que ainda guarda um pouco de nossas matas, Razão de nosso orgulho.

 

Finalmente, depois de grande expectativa, pousamos em Paris. O grande movimento que se via nas dependências do gigantesco aeroporto da cidade mais visitada do mundo, implicava em cuidados especiais. Principalmente, para evitar constrangimentos nas barreiras que tratavam da imigração, assim como, em desenrolar os obstáculos para usar corretamente o emaranhado de linhas de metrô, principal meio de transporte coletivo de Paris, visto que: cruza a cidade em todos os sentidos, necessitando para isso, de conhecimento e grande percepção de movimentos.

 

 Disso estávamos orgulhosos. Tínhamos a nossa disposição, a competência e a capacidade em pessoa, de nosso guia. Genro, irmão, amigo e companheiro de grupo, ele não se preocupou nem um pouco e logo estávamos instalados em um hotel previamente reservado, bem ao centro da cidade, com todo o conforto necessário para um merecedor descanso, como preparação para cumprir a extensa programação do dia seguinte.

 

Na ansiedade natural de turista iniciante, nosso descanso não esperou o dia seguinte. Ainda no mesmo dia, saímos para visitar a famosa catedral de Notre-Dame de Paris. Uma das mais belas e antigas catedrais da Europa. Construída em estilo gótico e em lugar privilegiado, quase que totalmente rodeada pelo Rio Sena. A catedral, por sua história e sua beleza, serviu de inspiração para o escritor Vitor Hugo quando escreveu o famoso romance O Corcunda de Notre-Dame.

 

Não chegamos a ver o corcunda -ficção- porém, ouvimos ao final da tarde, os sinos badalando, ao mesmo tempo em que assistíamos dentro da nave, um coral ensaiando cantos gregorianos, que nos proporcionaram momentos de muita serenidade e de muita paz.

 

O sol de Paris, ainda não estava tão quente e nós, já estávamos postados em uma longa fila para conhecer o mais famoso museu do mundo. O Museu do Louvre.

 

Tido como parada obrigatória para quem visita Paris, O museu começa a impressionar logo na entrada, exibindo a famosa pirâmide de cristal que mede 21 metros de altura, deixando qualquer observador parado na admiração de tão soberbo monumento.

 

 Sua grandiosidade é tamanha que, um dia só, não é o suficiente para que se percorram todos os seus quatro pisos, incluindo o subsolo, que contém as ruínas de um antigo castelo, que existia ali, antes que fosse convertido em museu. Portanto, seus corredores repletos de obras de arte, como esculturas e pinturas famosas, dividem-se em três direções, para facilitar a visitação.

 

Aconselhados por nosso guia eficiente, demos preferência para a direção “denom”. Nesta direção, estão expostas as principais pinturas artísticas do museu.

 

A partir dessa decisão, nosso objetivo se misturou com uma avalanche de turistas, que como nós, seguia no mesmo corredor, em direção ao lugar mais visitado do museu. A sala onde se encontra o quadro original de La Gioconda, retrato da Mona Lisa, pintado por Leonardo da Vinci.

 

Para surpresa de todos, o quadro que mentalmente teria dimensões grandiosas, mede mais ou menos, um metro e vinte de altura por setenta centímetros de largura e está protegido por uma forte parede de vidro, que afasta para mais de cinco metros de distancia seus observadores, impedindo que se possa observar melhor a expressão daquele sorriso triste e  enigmático que apaixonou seu criador e até hoje, ainda consegue prender as atenções de quem tem o privilégio de se defrontar com ele.

 

Prosseguindo nossa peregrinação, tínhamos a nossa disposição, milhares de obras que nos prendiam à sua frente, para admirar seus conteúdos com histórias sobre suas fontes inspiradoras. Umas mais, outras menos conhecidas. Porém, obras de grande valor cultural. Como exemplo, -dentro de minha ignorância no quadro das artes- cito o quadro que retrata os três pilares de Liberdade, Igualdade e Fraternidade nas comemorações da vitória da Revolução Francesa, onde tudo começou, ostentada majestosamente em “o povo seguindo as asas da liberdade”.

 

Contrariados com o tempo que passava rapidamente, tivemos que deixar o museu. É verdade que já devíamos estar cansados. Porém, ainda tínhamos que encontrar fôlego para ver ainda nesse mesmo dia, o orgulho maior de todos os Franceses. A famosa Torre Eiffel.

 

Na medida em que nos aproximávamos, nosso cansaço ia se dissipando e então em um momento de reflexão, concordamos que, a melhor definição que já tivemos sobre aquele monumento, é que ela é “forte como o aço. Porém, delicada como uma peça de renda”. Além de ser, o símbolo mais romântico de Paris. À noite, quando iluminada, proporciona uma visão indescritível, capaz de fazer pulsar acelerado, o mais cético dos corações.

 

Contestada pelos críticos durante sua construção, ela ainda é hoje, o lugar mais visitado de Paris. São seis milhões de pessoas por ano, que a visitam. Deliciando-se com a inteligência dos arquitetos, eles ainda contam com a maravilhosa vista panorâmica sobre toda Paris que ela oferece, ou então, sobre si mesma que vista de baixo, encanta qualquer que seja o observador.

 

Nosso próximo compromisso do dia seguinte, foi visitar o Arco do Triunfo. Ponto de referência entre os monumentos históricos da grande cidade, ele foi projetado e construído ao centro de uma grande praça, lugar ideal para as comemorações das grandes vitórias de Napoleão.

 

Sua importância histórica para a França é tão grande que até hoje, reverenciada pelo povo Frances, ainda existe bem ao centro do arco, a chama acesa em homenagem ao soldado desconhecido. Suas paredes laterais são ornamentadas com inscrições históricas, que de uma maneira ou de outra, fazem referência aos grandes acontecimentos ali festejados. Em uma delas, Lê-se. “Entre as vitórias e as derrotas, o arco ajuda a contar a história da França”.

 

E como se não bastasse sua imponência e toda sua influência histórica, os arquitetos projetaram para que partisse dele, uma confluência de oito grandes avenidas formando uma estrela. Dentre elas, a mais famosa, e mais charmosa Champ Elysées. A monumental avenida que, em linha reta, mede dois mil metros de comprimento, por setenta e dois metros de largura.

 

 Representante absoluta do Paris de primeiro mundo, rico e moderno, ela se encarrega de servir de palco para os grandes desfiles militares, e também para o desfile de toda a sociedade Parisiense visitando suas lojas de grandes marcas, assim como as grandes revendas de veículos como a famosa Renault, a não menos famosa Peugeot. Em fim. O lado chique de Paris que deixa os turistas extremamente apaixonados.

 

No dia seguinte, visitamos a catedral de Sacré-Croeur. Uma das maravilhas da arquitetura de Paris. Localizada no topo da montanha de Montemarte, ponto mais alto da Cidade. De sua porta principal, ela, proporciona uma visão deslumbrante de todo o vale. O grande jardim com uma fonte à sua frente é o ponto ideal para admirar sua imponência. São nos degraus da sua escadaria que as pessoas sentam-se para curtir o vento e sentir o sol, num congraçamento harmonioso com pessoas do mundo inteiro.

 

Ali, o som emitido pelo cantor de musica popular se mistura com o de musica instrumental, sem se perturbar com o malabarista que está a seu lado exibindo seus dons. Um pouco mais abaixo, observamos os originais restaurantes populares -nem tão populares assim- de Paris, que enfeitam suas calçadas distribuindo nelas as mesas para que o turista possa contemplar o movimento, dando comida aos pássaros, enquanto espera pela refeição.

 

Conta-se que a Catedral durante a segunda guerra chegou a ser bombardeada com treze bombas que caíram em lugares distintos, todas ao lado da Catedral, sem que nenhuma chegasse a atingi-la. Considerado o acontecimento como milagroso, o parisiense da ênfase ao acontecimento aumentando seu respeito pela fé e transmitindo este sentimento aos turistas que a visitam.

 

Um pouco mais abaixo, ainda no mesmo bairro, encontramos o comentadissimo Moulim Rouge. A casa de espetáculos de cabaré mais tradicional de Paris. Muitas empresas em todas as partes do mundo, já tentaram imitá-lo. Contudo, como representante do lado boêmio de Paris, ele continua carreando multidões que ajudam com suas impressões, a manter viva sua tradição. 

 

Já com o espetáculo agendado, pudemos participar daquela emoção. Ao término da apresentação, confirmamos o entusiasmo dos franceses que ao discursar sobre o mesmo, são enfáticos em afirmar que aquele é o único espetáculo do mundo que permanece em cartaz, a mais de cem anos.

 

Realmente. São números que mostram o nu absoluto, sem parecer muito vulgar. Uma combinação de música e arte, que deixa o público extasiado com a beleza indescritível de um cenário que vive em constante metamorfose, provocando efeitos espetaculares, fazendo valer o sacrifício de uma fila interminável, obrigatoriamente vestidos com trajes de passeio, para que tivéssemos acesso ao local do espetáculo.

 

Assim é Paris. Admirada por ser autentica. Bela por ser original. Uma cidade que respira trabalho. Uma cidade que transpira história. E principalmente uma cidade que esbanja romantismo. Diferente de Londres. Diferente de Veneza. Diferente de Roma. Diferente de Lisboa, (cidades que farão parte de meu próximo rascunho), Paris terá sempre grande destaque na formação dos conceitos de todas as pessoas que procuram fazer do lazer, uma fonte inesgotável de gostosa aprendizagem.

 

Na internet, existem milhares e milhares de informações sobre todas as coisas que vimos e de que falei aqui. Porém, se é verdade que o caráter e até mesmo a personalidade das pessoas são moldados em conhecimentos, que a mediocridade desta narrativa que é muito pessoal, sirva pelo menos como incentivo para as pessoas que procuram na informação, um estímulo para também participar das boas coisas que a vida nos proporciona.

 

Óbidos, agosto de 2009.

 

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