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Palavras de Miguel Canto 11/09/2008 |
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O VÔO INTERROMPIDO DO CINEMA
ACÁCIA
Os acordes do “Tema de Lara” conhecidíssimo por fazer parte da trilha sonora do filme clássico Dr. Jivago, foi também escolhido para se perpetuar como prefixo, anunciando o início de mais uma sessão de exibição de um filme, no único Cinema da cidade. O Cinema Acácia.
Em uma época em que se pretendia acostumar com inovações uma população carente por novidades, o prefixo estava na moda. Era muito importante. Tão importante que qualquer atividade que se prezasse, para fazer sua exibição, tinha que ter prefixo musical. As “bandas” no coreto da praça. As “bandas” nas festas de gala. A “rádio poeira” que só tocava em caixinhas instaladas nos postes para eletricidade porque a cidade ainda não tinha uma rádio de verdade. A propaganda volante, veículo divulgador onde se destacaram nossos grandes locutores de hoje como J. Fernando, Paulo Cardoso e o Américo Fernandes, todos se enchiam de orgulho percorrendo as ruas da cidade anunciando o filme do dia.
Enfim. Tudo tinha que ter um prefixo. Os Relicários, conjunto musical que nasceu da garra e da vontade de pessoas como o Ricardo, o meu amigo Alfaia, o parente Idalmir e o saudoso Gracinha, ensaiavam tão exaustivamente o prefixo que em uma festa onde eu participava, cheguei a perguntar intimamente. Será que eles só ensaiaram essa música? Tudo isso por conta do tempo interminável que eles usavam executando o seu prefixo. Até mesmo o canoeiro que ao sair para pescar em companhia de seu “joão-de-pau”, -artefato de madeira que preso à popa da canoa guiava a mesma durante a viagem- e de seu cigarro de palha que ajudava a espantar as pragas de mosquitos, não desperdiçava o momento da partida para depois da costumeira cusparada, assobiar sua canção preferida como prefixo de mais uma jornada de muito trabalho e de muito poucas esperanças.
No Cinema, portanto, não poderia ser diferente. Tinha freqüentadores que esperavam na pracinha que fica ao lado do Cinema, o som do prefixo que anunciava o início da sessão para entrar, considerando que o salão não era climatizado e também não possuía nenhum sistema de ventilação artificial. Tornando o ambiente não muito agradável dependendo da lotação das sessões.
Prefixo executado tinha início mais uma exibição. Não era assim uma monumental projeção. Era, porém, o máximo que tínhamos condições para oferecer em termos de conforto para ocupar o tempo de uma população que vivia praticamente isolada do mundo tendo apenas como benefício, uma convivência aconchegante, um relacionamento agradável e praticamente familiar entre os moradores e o mais invejável: uma paz indescritível que hoje, quando lembrada, provoca uma tremenda de uma saudade que chega a nos comover. Conforta-nos saber que hoje somos privilegiados com todos os avanços tecnológicos; mesmo assim, consideramos que aquela época, é muito difícil de se tornar esquecida por nós.
O calor excessivo que reinava no ambiente em uma sessão lotada, quando da exibição de um filme estrelado pelo famoso astro do Kung-Fu, Bruce Lee, obrigou-me certa vez a sair do salão – acho que já contei essa estória – para me refrescar com uma brisa que costumava reinar na calçada em frente ao Cinema.
Assim que cheguei do outro lado da rua, vi uma pessoa também sair e se dirigir a mim com comentários negativos a respeito do Cinema. Pela sua maneira de falar, logo vi que ele não sabia que eu era o proprietário do negócio. Reclamava de tudo. Dizia que aqueles filmes não eram originais. Eram copiados de alguma outra fita—naquele tempo ainda não existia o termo “pirata”—e que não tinha quem agüentasse assistir uma sessão naquele calor infernal que reinava no salão. Por isso, ia procurar o dono para receber seu dinheiro de volta. De repente, me vi em uma situação embaraçosa. Procurei então sair pela tangente da seguinte maneira. É meu amigo você tem toda a razão. E é por causa desse calorão todo e por eu não poder dar uma porrada no dono dessa porcaria ai que resolvi também me retirar e vir aqui para fora para pegar um vento. Dito isso, fui saindo de mansinho para procurar me refugiar na sala de espera.
É claro que o Cinema tinha problemas além da refrigeração. Problemas com os filmes que quase sempre chegavam muito estragados, problemas com o transporte dos mesmos que precisavam de avião e de barco para chegar até aqui, problemas na hora da escolha, pois os alugueis dos bons filmes custavam muito caro, problemas com a manutenção das máquinas que exigiam mão de obra qualificada, uma série de problemas que acabam sendo naturais em qualquer comércio que se pretenda expandir. Mas o negócio, também tinha seu lado bom. Além da satisfação que eu sentia em ver parte da sociedade dando apoio ao meu investimento, eu era recompensado com o apoio de clientes assíduos como o saudoso Titilo Savino que todas as noites de estréia subia a pé a rua bacuri logo cedo, para pegar seu lugar preferido e no dia seguinte encontrar comigo para comentar todo o conteúdo dos filmes assistidos. E o melhor de tudo. O investimento dava lucro. Este sim. Era o meu objetivo principal.
Tudo seguia a mil maravilhas até que, surgiu na região, a primeira estação repetidora de televisão. O Cinema, não só em Óbidos, mas, em todas as Cidades vizinhas, desabou. Desabou de uma forma tão agressiva que já estava levando consigo também, todo nosso entusiasmo. Tivemos então naquele momento, a brilhante idéia de se juntar ao proprietário do Cinema Olímpia em Santarém, senhor Raul Loureiro, para pedir socorro.
A partir daí, descobrimos no amigo Raul—como gosta de ser chamado—não somente um homem de negócios que nos proporcionou a possibilidade de exibir em nosso modesto Cinema, não só as costumeiras e populares estórias de violência, mas também, grandes filmes clássicos, épicos e de avançada ficção, demonstrando ser além de nosso fornecedor, um verdadeiro príncipe em todas as suas relações. De caráter extremamente sério e honesto, apoiado na longa experiência de pessoa culta e conhecedora profunda de todas as mazelas da vida, ele consegue permanecer até hoje como uma de nossas poucas reservas morais, ensinando-nos o caminho da virtude. Apoiado em sua fervorosa formação cristã, tão viva e tão vivenciada, ele consegue conservar em seu próprio comportamento, exemplos de dignidade, humildade e respeito para com seus semelhantes, refletindo em seus negócios e principalmente para com a família. Esta sim. Motivo principal de sua existência. Sofreu conosco ajudando-nos e confortando-nos até o último suspiro do Cinema. O dia em que foi exibido o clássico: O Grande Palhaço.
Meu amigo Raul. O famoso cantor e compositor Osvaldo Montenegro em um momento feliz de sua carreira gravou uma canção onde aconselha que se faça uma lista dos grandes amigos. Quantos eram a dez anos atrás quando estávamos no auge, e hoje quantos sobraram ao menos para lembrar da gente. Eu já fiz a minha lista meu amigo. E dos raríssimos que sobraram, tomei a liberdade de incluir você. Muito obrigado por tudo meu amigo.
Vendo hoje, as máquinas que impulsionavam o Cinema acomodadas com cuidado em um cantinho do Museu Municipal para onde foram transferidas por doação, passamos por vezes a lembrar com emoção do sonho espetacular que tivemos com o vôo do Cinema Acácia. Decolamos com muita dificuldade. Mas ao chegar a determinada altura, conseguimos estabilidade e confesso que cheguei a vislumbrar um horizonte muito brilhante e colorido que ficava exatamente na direção que eu pretendia seguir. Porém, o sonho durou pouco e nosso “céu de brigadeiro” começou a ficar ofuscado e logo desapareceu. E seguindo a lei natural das coisas que diz que tudo o que sobe, um dia acaba caindo, o Cinema também caiu. Porém. Durante essa queda, com a ajuda dos amigos, ainda tivemos força para conseguir uma aterrisagem “sem estolar”, e adquirir velocidade e força suficiente para correr em busca de novos horizontes, adaptando-nos ao progresso e suas oportunidades atuais.
Óbidos, setembro de 2008.
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