Palavras de Miguel Canto                                                                                                 24/01/2008

O DIÁRIO DE BORDO

Miguel Canto - miguelccanto@hotmail.com

     

 

      Com os bilhetes de entrada em mãos, paramos em frente a uma sala de espetáculos no shopping da gávea em pleno Rio de Janeiro com o objetivo de assistir a uma comédia onde o astro principal era nada mais nada menos que o famoso Marco Nanini. Começamos a conversar e observamos que as pessoas se aproximavam, e, deliberadamente, de maneira educada, formavam atrás de nós uma fila, que naturalmente tinha o mesmo objetivo que o nosso. Eram pessoas que aparentavam uma faixa etária de mais ou menos trinta a cinqüenta anos, todos elegantemente vestidos, que pareciam não ter pressa. Os olhares observadores, de maneira descontraída, nos cartazes de propaganda fixados nas paredes, denunciavam que eles mentalmente teciam consigo, comentários sobre os mesmos.

                                                                                                                                                                                                  - Senhores e senhoras, o teatro está aberto. - Ouviu-se uma voz firme à nossa frente.

Encaminhamo-nos para a porta, e logo nos encontramos em uma sala climatizada, acomodados em confortáveis cadeiras vendo à nossa frente o ator Marco Nanini se esforçar de maneira não muito convincente, para reviver o saudoso Paulo Gracindo no papel do Odorico Paraguaçu, o controvertido prefeito da cidade de Sucupira nos episódios do inesquecível seriado: O Bem Amado.

 

      Sua interpretação, incorporando uma pessoa nervosa falando de maneira acelerada, ficava longe da calma e da tranqüilidade acentuada no personagem verdadeiramente político de nosso inesquecível Odorico, nas investidas de seu objetivo maior, que era a inauguração do cemitério da cidade, assim como nas famosas visitas (genipapadas) na casa das beatas, acompanhadas de perto pela obsessão de fidelidade do Dirceu Borboleta, sempre tentando defender o coronel da oposição fraudulenta e do humor desagradável do valente Zeca Diabo.

 

       De bom mesmo nesse espetáculo, foi matar as saudades de uma época em que a televisão ainda não detonava tanta violência como agora, e conseguia produzir programas capazes de satisfazer as mais variadas classes, sem a demagogia costumeira das grandes reportagens sensacionalistas.

 

      Apesar da frustração, não fiquei triste não, pois este episódio era apenas mais uma etapa de um programa que fazia parte de um roteiro que vínhamos cumprindo desde o dia em que resolvi aceitar o convite de parte de minha família que reside no Rio de Janeiro, e embarcar em uma viagem de carro saindo do Rio, em direção ao Sul do País, em férias que devo confessar com toda sinceridade do mundo: nunca tinha estado durante toda a minha vida.

 

      Logo no primeiro dia de viagem, embevecido pela paisagem, e pelo movimento constante da famosa Via Dutra, que liga o Rio a São Paulo, além de protegido pela perícia de um genial condutor e guia turístico fantástico, tive o prazer de gozar da hospitalidade de meu amigo Maurício e sua esposa dona Cida. Fomos recebidos em sua mansão, edificada em um condomínio de luxo na cidade de São José dos Campos, com uma autêntica churrascada, regada ao prazer imenso de matar as saudades do casal, além de conhecer pessoas de sua família e de seu grande círculo de amizades.

 

      No dia seguinte, rumamos em direção a São Paulo, para nos defrontar com o gigantismo da metrópole que impressiona até mesmo pelos grandes congestionamentos existentes nos anéis rodoviários de sua periferia, construídos para facilitar as entradas de veículos em seu território, bem como a saída em direção a outros estados vizinhos. Livramo-nos de alguns deles, e seguimos pela Br 163 em direção ao Sul, sofrendo com as condições esburacadas de uma rodovia sob controle federal, que deixa muito a desejar diante de outras privatizadas e, conseqüentemente, pedagiadas, que conhecemos nessa viagem, notadamente, no estado do Rio de Janeiro e Paraná.

 

   Uma parada para pernoite em Joinvile deu-nos a oportunidade de admirar as construções antigas, quase todas ao estilo arquitetônico alemão, conservadas até hoje como atração turística, para não falar de suas famosas cervejas.

 

   No dia seguinte, chegamos a Curitiba. Cidade bonita, limpa e bem planejada. Cheia de atrações turísticas, com grandes parques e gigantescos prédios, como o famoso Centro de Convenções com um dos maiores salões da América Latina. O jardim botânico (coisa mais linda), o teatro da Ópera de Arame com suas estruturas tubulares, enchem de curiosidade o olhar dos visitantes. Não se pode, também, deixar de visitar o bairro de Santa Felicidade, com seus famosos restaurantes para amenizar a fome com a famosa comida Italiana, regada com seus deliciosos licores. Terminamos nosso dia de turista admirando suas belezas do alto da torre construída no centro da cidade, que dá aos visitantes uma visão panorâmica em todos os ângulos.

 

                      Depois de encantados com as belezas de Curitiba, resolvemos dar uma trégua ao nosso condutor e pegar um avião rumo a Foz do Iguaçu. Lá, tivemos o prazer de nos defrontar com a oitava maravilha do mundo moderno: a usina hidroelétrica de Itaipu. Construída em proporções babilônicas, deixa boquiaberto qualquer ser humano, por menor que seja o seu senso de observação. Não é por acaso que, não obstante a sua idade, até hoje recebe milhões e milhões de turistas do mundo inteiro, com o intuito de admirar sua grandiosidade.

 

                      Saindo da usina, fomos ao Parque Nacional das Aves. Eu, particularmente, por ser pessoa ligada à fauna e a flora Amazônica, não fiquei muito impressionado com os animais e pássaros que vi. Para ser sincero, fiquei entristecido quando vi naquele local prevalecer a hipocrisia dos homens com relação a nossa fauna. Na Amazônia, onde tudo deve ser intocável, prender um animal ou engaiolar um passarinho não pode: é crime ambiental - dá cadeia e muita perseguição. No Parque Nacional, enjaular animais, que chegam a morrer de tédio, telar viveiros de aves que cantam seu canto como se fossem músicas fúnebres, pode. Existe até licença do Ibama. Não importa o sofrimento dos animais, o importante é que eles atraem turistas, dão retorno e suporte financeiro - renda suficiente para locupletar seus idealizadores.

 

                      Saindo do Parque, nos dirigimos para as Cataratas do Iguaçu. Lá sim, encontrei o bálsamo para minha decepção anterior. Fiquei estático com tanta beleza. Passei minutos pensando no contraste que acabara de presenciar. No Parque, tanta prisão, nas cataratas, uma explosão de liberdade, onde a natureza, de maneira caprichosa e simplesmente espetacular, nos manda um recado através dos bilhões de litros de água que derrama por segundo naquele local, dizendo: cuidem de mim, pois enquanto eu conseguir sobreviver, cuidarei da humanidade, com este bem mais precioso, de que tanto precisam para vossa sobrevivência que se chama: ÁGUA.

 

                      De volta a Curitiba, retomamos as atividades em nossa trajetória terrestre, resolvendo fazer uma visita ao Parque Temático Beto Carrero Word, que fica instalado perto do balneário de Camburiú, no município de Piçarras. Neste dia, uma metamorfose tomou conta de nós: viramos crianças. Percorremos quase todos os brinquedos do parque, com exceção dos mais radicais. Brincamos e nos divertimos como nunca! Do trem fantasma às montanhas russas, dos teleféricos ao tobo-água, do show americanizado, meio sem graça da hora do almoço, da conversa agradável, sentados em baixo das árvores, discutindo sobre jacarés e araucárias, tudo isso em um clima inesquecível de descontração. Nossa visita, ao final da tarde, culminou com um show diferente, desta vez, africanizado, que conseguiu apagar, com sua beleza, a imagem negativa do anterior. Exaustos, depois de um dia cansativo, retornamos a Curitiba, para pernoitar e adquirir energias para o dia seguinte, quando iniciaríamos nossa viagem de retorno.             

 

                      De volta ao Rio, agora já mais acostumado com a grande velocidade desenvolvida pelos veículos na rodovia, pude observar as maravilhas de uma região montanhosa com mata densa, recortada por precipícios, salpicada de flores roxas por toda sua extensão, produzindo um efeito primaveril, que realmente embelezava a paisagem.

 

                      No Rio de Janeiro, já em casa, e em véspera do Natal, participamos de uma festa de confraternização com a família Corbelli. Obrigo-me a reconhecer e agradecer a hospitalidade de uma família tradicional que honra os costumes e consegue reunir filhos, filhas e netos para um congraçamento onde todos participam de uma maneira alegre, feliz e descontraída. Parabéns sinceros a Dona Yara, articuladora deste evento. Que Deus a conserve para que possamos ainda outras vezes participar dessa magnífica festa.

 

                      Para matar a ressaca do Natal, programamos uma visita ao Museu Imperial na cidade serrana de Petrópolis. Antes, porém, visitamos a casa de Santos Dumont que fica na mesma cidade. Muito visitada até hoje ela mostra como lembrança da criatividade do gênio, uma escada construída por ele, onde o usuário se obriga a entrar nela somente usando o pé direito. Daí a presunção de que o homem era supersticioso. No Museu, o deslumbramento das jóias em grande quantidade incluindo coroa, pulseiras, relógios e anéis confeccionados em muito ouro e brilhantes, assim como as louças em porcelana e muitos cristais, mostram que a vaidade ostentada pelos moradores palacianos não é privilégio dos atuais. O gosto requintado dos Imperadores é notado pelos brasões do Império esculpidos em quase todos os móveis e utensílios de uso pessoal e até mesmo no teto dos salões para reuniões e aposentos íntimos, esculturado na madeira. Visita muito importante para rememorar nossa história.

 

                      Como parte de nosso programa, tivemos a felicidade de assistir a um espetáculo do Cirque du Soleil. Aí, então, devo confessar: desabei na emoção. Em um ambiente grandioso, de muito luxo e beleza, fui transportado para um mundo fantástico e diferente, onde a magia e a ilusão conseguem superar todos os obstáculos de nossa vida, de maneira tão abrangente e versátil, que dando risadas irreverentes, relutei em acreditar que já haviam passado duas horas quando o espetáculo terminou. Foi muito gratificante.

 

                      Ao término de nossa maratona, resolvemos entrar no mundo do faz de conta, acreditando que não correríamos nenhum risco: decidimos participar da queima de fogos na praia de Copacabana na virada do ano. Nem preciso falar de nossa coragem. Envolvidos em um turbilhão de dois milhões de pessoas, pisando nas areias da praia, sentimos a terra tremer sob o impacto das bombas pirotécnicas que iluminavam o céu em um espetáculo indescritível de cores e coreografia iluminada, dificultando até mesmo o entusiasmo de nossa respiração.

 

                      Querido diário, registrei aqui, de maneira simples e sucinta, estes acontecimentos que marcaram minha vida nestes últimos dias do ano de 2007. Antes de fechá-lo, não posso deixar de agradecer a minha filha Mariléa, seu esposo Mario e meu “sobrinho” Rodrigo, meus companheiros e idealizadores dessa viagem magnífica que ficará gravada em meu coração para o resto de minha vida. Você é minha testemunha! E veja bem: o seu fechamento é apenas temporário, pois, brevemente, estarei reabrindo suas páginas para registrar outros acontecimentos. Aguarde-me... 

Óbidos, janeiro de 2008

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