ADALBERTO AMARAL, O CORONEL DADÁ
Ademar Ayres do Amaral Tio, padrinho duas vezes (de batismo e de casamento), amigão do peito e figura muito conhecida durante décadas no Baixo - Amazonas e arredores, o endinheirado coronel Dadá sempre viveu, em grande estilo e da maneira que bem quis. Sua boa vida e reputação tinham as múltiplas facetas de um caleidoscópio: por ter o melhor plantel de gado Indu-Brasil de toda a região Norte, por ser proprietário de uma portentosa e bela lancha, a Santa Tereza, e pela fama de mulherengo que vazava em muitas milhas os limites daquele vasto território. Ele foi, sem nenhuma dúvida, o último representante e talvez o mais carismático, de uma incontável dinastia de coronéis que começaram a aparecer no século dezenove com a cultura do cacau. O escritor obidense, Inglês de Souza, os descreve com rara maestria em O Cacaulista e também em O Coronel Sangrado. Os coronéis do cacau foram depois sendo substituídos por outros que emergiram a reboque da força da pecuária, a qual teve seu apogeu em meados do século passado, ali pelos anos 50. O coronel Adalberto Amaral pertenceu exclusivamente a esta última geração. Ele foi o primogênito dos sete filhos gerados no matrimônio do meus avós, Coronel Joaquim Gomes do Amaral e Nila Araújo do Amaral. Seja pela força do ovo de tracajá, ou pelo excesso da libido reprimida da época, o fato é que meu avô catou algum resíduo de inspiração divina e fabricou o homem mais bonito que já se teve notícia naquelas paragens. Era claro, altivo e passava irradiando um odor agradável e impregnado de perfume francês, “que era percebido à distância”, segundo me confidenciou certa vez uma de suas amantes. Trazia sempre, na cintura, um punhal com cabo de madrepérola cravado numa bainha com enfeites de prata, ou um reluzente revolver Smith Wetson 44, que ele usou uma única vez na década de 20, ferindo na perna um homem que tentou caluniar seu pai. Na cabeça, o inseparável chapéu adornado com uma pena de águia para proteger do sol uns olhos tão azuis e brilhantes quanto o azul infinito do céu, sem contar o sapato sempre lustroso, que, mesmo no interior da Amazônia, ele só tirava do pé na hora de dormir. Falava com gestos calculados e abanando a mão sempre espalmada, talvez para destacar a enorme pedra de diamante no dedo anelar, tão grande e reluzente que mais parecia um holofote de navio. Agora, bota em cima disso tudo um charme de nascença e um cofre(que chamavam de burra) entupido de dinheiro, e ali estava um pacote pronto de homem para deslumbrar meio mundo de mulheres. E no meio desse cenário, ainda foi viúvo duas vezes de duas respeitáveis, santas e belas esposas, tendo tido dois filhos com a primeira, Dulcita Bentes, e nove com a segunda, minha madrinha Sinamor Guerreiro. Espelhado no pai e com talento nato para o mundo dos negócios, cedo começou ganhar a vida no comércio do gado, formando seu futuro rebanho com muito esmero. E mesmo com essa queda de nascença por rabo de saia, foi pai exemplar em todas as horas, nunca descuidando um minuto da família, nem levando suas escapadas para algum significado maior que não fosse o de um simples ato de prazer. Isso é sinal incontestável de que ele amou mesmo, de verdade, as duas esposas. No fundo é sempre a força do amor que faz permanecer, que fica. O desejo apenas em si é coisa passageira, sem sustentação, que foge e se perde no caminho. Quando meu avô morreu em 1942, meu padrinho Dadá já era dono sozinho da Fazenda São Bartolomeu e também o homem mais rico e afamado do Baixo - Amazonas. Poderoso, rico, bonito e lançando charme aos quatro ventos, foi muito fácil para o coronel dar vazão aos seus dois maiores prazeres na vida: as mulheres e os cavalos. Exatamente nessa ordem. Bastava ouvir falar de um potro fogoso, fosse até na conchinchina ou no quinto dos infernos, que ele ia lá e pagava o preço que custasse. Não precisava desse truque com as mulheres, pois as ganhava na maioria das vezes sem gastar um mísero centavo, porque elas lhe caiam nos braços por puro encantamento. Houve um certo período, a partir de 1958, em que eu o via e tomava a benção apenas na época das minhas férias, no Paraná da D. Rosa. Voltei a encontrar meu padrinho em 1974, em Manaus, quando fui morar lá no começo da minha atividade profissional. Aos 77 anos, viúvo pela segunda vez e já afastado das lidas da fazenda, continuava esbanjando a boa pinta que Deus lhe deu. Estava morando com uma filha, sem a gastança da fase áurea, mas ainda longe de esquecer sua eterna paixão pelas mulheres. Certa tarde ele apareceu na companhia onde eu trabalhava, pedindo que eu lhe emprestasse o carro porque havia arranjado uma nova namorada e precisava sair com ela, logo me tranqüilizando que eu não me preocupasse pois a moça sabia dirigir . Por curiosidade, mas sem duvidar do que ele dizia, dei um tempo nos meus afazeres e fomos os dois ao encontro da fulana. Confesso que tremi nas bases quando vi a mulher. Era o que se podia chamar de um monumento. Alta, cheia de presença e proprietária de uma pequena loja de importados em plena avenida 7 de Setembro, a mulher me deixou de queixo caído. Empolgado com aquela deusa, fiz um tremendo esforço para impressioná-la, mas ela olhou pra mim com tamanho desprezo que eu me senti chutado pro canto como uma barata seca. “Deixa que eu sei cuidar dele, viu?”- ela disse pra mim percebendo a extensão da minha inveja. Esse episódio fez apenas aumentar nossa amizade e a consideração que meu padrinho tinha por mim. Eu o visitava regularmente. Numa dessas idas, achei por bem levar minha namorada para que a conhecesse, mas acabei quase me arrependendo porque durante toda a visita ele não tirava os olhos dela. Na saída, fez um sinal, me chamou num canto e disse que tinha gostado muito da minha escolha e que era a moça com quem eu deveria casar. “Mas tio, o senhor nem conhece direito a moça”, eu disse. “Meu afilhado, mulher direita eu conheço só no jeitão dela apertar a mão”, ele me aconselhou em tom de sabedoria. Dois dias depois, sem me avisar de nada, ele foi bater na casa da minha namorada. Identificou-se cheio de autoridade para minha futura sogra, disse que era meu padrinho, que meu pai morava em Óbidos e que ele tinha ido conhecer e avaliar melhor a família. Quando apareci à noite, minha namorada contou que ele fez várias perguntas e aceitou o tradicional cafezinho, “desde que não seja requentado” – fez questão de frisar. E na hora da saída, ao ver uma das minhas cunhadas chegando de carro, deu uma simples ordem : “Moça, me leve em casa !”. Pra encurtar história, acabei não resistindo aos apelos do coronel Dadá e da minha paixão, casando com a minha namorada em 1976. Como nunca me arrependi do caminho que tomei, acho que o velho coronel sabia mesmo das coisas e agiu no papel de um segundo pai, como todo bom padrinho daquele tempo sabia ser. Casei numa manhã de Sábado e apenas minha mãe pôde comparecer à cerimônia, porque meu pai ficou no Paraná da D. Rosa envolvido até o pescoço com passagem de gado, naquele inferno de água que foi a grande cheia de 1976. Convidei, então, meu padrinho Dadá para representá-lo e ele aceitou com muito orgulho, demonstrando comigo mais um grandioso gesto de carinho que até hoje eu cultivo na lembrança e numa velha fotografia. Essa foi a derradeira e uma das mais significativas imagens que eu guardo dele. Um ano depois do meu casamento, aos 80 anos, nesse tempo morando com outra filha em Belém, meu padrinho veio a falecer enquanto eu fazia um treinamento em São Paulo, sem que eu tivesse a chance de um último adeus e levando para sempre com ele todo o esplendor de um período que não volta mais. Saiba mais sobre o Ademar CLICANDO AQUI
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