A BISNETA Ademar Ayres do Amaral
Era uma vez, no Paraná da Dona Rosa, que deram para minha bisavó criar uma filha de escravos, de nome Romana. Coisa muito comum naqueles tempos de escravidão. Assim, sob a batuta rígida da matriarca Maria Emília de Sousa Bentes Paes de Andrade, esse o nome da minha bisavó, a menina Romana cresceu forte e sadia, e foi educada para aprender tudo sobre os afazeres de uma casa, para depois continuar lá mesmo como serviçal. Isso também era coisa muito comum naqueles tempos. Quando minha bisavó faleceu, a menina Romana já era uma mocinha prendada e foi morar no casarão da fazenda São Bartolomeu, do meu tio Adalberto Amaral, o afamado coronel Dadá, onde, além de engomadeira preferida das roupas de linho HJ do coronel, aperfeiçoou seus dotes culinários com minha tia Sinamor Guerreiro, sendo sua especialidade os diversos quitutes da apreciada tartaruga do Trombetas. Pois bem, um dia a dona Romana conheceu o seu Oscar e ela saiu da casa do coronel Dadá para casar. Eu a chamo de dona porque, quando criança, eu a conheci com certa idade. Nessa época, já cheia de filhos, ela continuava como a única engomadeira do coronel Dadá e mantinha infalível, nos tempos das festas do Sagrado Coração, uma banca de guloseimas onde vendia maravilhosos doces e pirulitos, que eram alguns dos maiores apetites da minha infância. Entre os filhos que a dona Romana gerou com seu Oscar, vale destacar duas mulheres: a Francisca e a Lea. Por obra da minha madrinha Sinamor Guerreiro, a Francisca foi matriculada interna no Colégio Santa Clara, onde recebeu educação das freiras e se formou em professora normalista. A Francisca era caprichosa e foi destacada educadora no município de Santarém, tendo feito diversos cursos de aperfeiçoamento em São Paulo. A outra irmã, a Lea, casou cedo e teve muitos filhos, indo morar com o marido em Juruti. Um dia a professora Francisca comprou uma casa em Belém e deu para a irmã Lea, com a finalidade de proporcionar uma educação melhor aos sobrinhos. Dentre os filhos da Lea, destaco a Assunção que morou muitos anos com minha mãe quando meu pai comprou uma casa na Gentil para que a gente continuasse os estudos. E em nossa casa da Gentil sempre costumavam aparecer alguns irmãos e irmãs da Assunção, dentre eles uma irmã de nome Imaculada. A Assunção voltou para a casa dela depois que nós nos formamos e minha mãe resolveu voltar para Óbidos e ficar ao lado do meu pai. Depois a Assunção casou com um policial militar e foi morar em Santarém. Por muito tempo eu ainda encontrei a mãe delas, dona Lea, aos domingos, sempre na missa dos capuchinhos, mas soube que ela faleceu há uns quatro anos. Sobre a irmã da Assunção, a Imaculada, eu nunca mais tinha tido notícia dela até o mês passado, quando, ao lado da família, ela teve sua foto estampada com certo estardalhaço no jornal O Liberal. É que a filha dela, de nome Tainá, foi simplesmente eleita a garota do Fantástico. Ou seja, a Tainá, com um luminoso futuro para seguir na promissora carreira de modelo internacional, é simplesmente neta da dona Romana, a doceira dos sonhos da minha infância e, modéstia à parte, gente lá do meu sempre saudoso Paraná da Dona Rosa.
Saiba mais sobre o Ademar CLICANDO AQUI |