Ademar Ayres do Amaral                                                             27/02/2010

O DIA “D” DO MEU CARNAVAL

Ademar Ayres do Amaral

Em 1993, quando emplacamos dezessete anos de casados, eu e minha esposa nos demos um jantar e levamos também nossas três “crianças”. Lá pelas tantas, um dos filhos comentou se já tínhamos planejado alguma idéia de como seria nosso aniversário de vinte anos. “Não, ainda não pensamos em nada, mas bem que merece algo diferente” – eu disse. E começamos a fantasiara algumas opções cabíveis para nosso bolso, quando, minha filha, que tinha acabado de fazer quinze anos e sempre foi cheia de  idéias arrebatadoras, matou a charada:

- Vocês vivem sonhando em conhecer a Europa... Por que não?

Na semana seguinte tratamos de colocar nossa ideia em prática. Visitamos uma conhecida agência de viagens onde explicamos nosso objetivo e o drama financeiro para viabilizá-lo. Eles foram gentis, souberam acalmar nossa ansiedade e nos apresentaram um convincente roteiro para visitar sete países. Também aceitaram receber o pagamento em três anos e no valor mensal que a gente pudesse dispor, desde que, no dia da viagem, tudo estivesse liquidado. Assim feito e pago religiosamente, numa noite de julho de 1996, embarcamos de Recife num avião  da  TAP com destino ao aeroporto de Roma, o ponto de partida da nossa excursão.

Esta crônica não tem a intenção de narrar sobre aqueles maravilhosos e inesquecíveis vinte e dois dias na Europa nem sobre as principais cidades dos sete países que visitamos. Quero apenas comentar a respeito de um episódio inesquecível que eu vivi ao chegar na costa da França, quando cruzamos o Canal da Mancha para a Inglaterra, num imenso Ferry-Boat. Antes de entrar naquele deslumbramento de navio, para uma travessia que não durou mais que uma hora, nosso ônibus tinha passado por campos verdejantes do norte da França, e minha emoção estava à flor da pele desde o momento em que avistamos casamatas alemães do tempo da guerra, e alguns cemitérios onde os aliados sepultaram seus milhares de mortos do dia D. Cemitérios atulhados de cruzes brancas e simetricamente enfileiradas até onde a vista podia alcançar.  

Acomodados no navio, sugeri à minha esposa irmos até o último convés para dar uma olhada no famoso Canal da Mancha. Era um ensolarado dia de julho de um bom verão europeu, mas, ao chegarmos no último andar, pouco demoramos devido a um frio de moer os ossos que batia do vizinho e gelado Mar do Norte. Foi o tempo suficiente para tirar uma foto e uma rápida olhada na paisagem de areia alva da costa francesa. Naquele momento voltei a pensar na histórica manhã do dia 6 de junho de 1944 e naquela fileira de cruzes que tínhamos visto na estrada. Fiquei imaginando a cena de como aquela praia de aparência tão serena e pacífica estivera coberta de cadáveres e de como aquele mar se tornou avermelhado de sangue, na mais cruel batalha de todas as guerras.

Fiz este preâmbulo para falar sobre o dia D, no meu carnaval. Há muitos anos não sou mais da folia, gosto mesmo é de ficar descansando em casa, de aproveitar a Belém como eu gostaria que ela sempre fosse, de pegar um cinema, rabiscar coisas e de ficar mudando os canais da minha TV, até topar com algum programa que me agrade. Foi assim que eu encontrei, no Discovery Channel, um documentário sobre a Companhia Easy, um grupo de soldados do 506º Regimento de Infantaria de Para-quedista do exército americano, que participou da segunda grande guerra. A Companhia Easy, assim como cada uma das demais que compunham o  regimento, não chegava a duzentos combatentes bem treinados. Como outros milhares, no dia da célebre invasão, eles saltaram de madrugada por trás das defesas alemãs da Normandia para tomar pontes, fustigar o inimigo e facilitar o avanço das tropas que desembarcavam na praia. No salto, centenas desses para-quedistas nunca souberam o que aconteceu, atingidos e mortos pelo fogo antiaéreo das metralhadoras alemãs.

Das muitas Companhias que compunham o 506º  Regimento, a Easy foi a que mais se destacou por sua coragem e por seus atos de heroísmo. E inspirados em suas bravuras, o cineasta Steven Spielberg e o ator Tom Hanks gastaram vinte e cinco milhões de dólares para produzir Band of Brothers, série de muito sucesso na televisão e tida como a melhor produção já filmada sobre aquele episódio. Mostra toda a trajetória da Companhia Easy, desde antes do dia D até a captura do famoso Ninho da Águia, a casa de campo de Adolf Hitler,  nos Alpes de Berchtesgaden.

Mas o documentário que eu assisti no meu carnaval, por ser recheado de depoimentos dos homens que sobraram da Companhia Easy, ao final da guerra, alguns deles mutilados, é muito mais tocante que a espetacular série da televisão. Na realidade, a missão final deles para se apoderar do Ninho da Águia, foi um presente do comando aliado em agradecimento pelos seus inúmeros feitos. Chegaram lá sem dar um tiro, não havia mais inimigo a combater e a casa tinha sido praticamente destruída pelos próprios alemãs e pelos bombardeiros aliados. Foram férias depois de meses recheados de horror desde o dia D, passando pela libertação da França e da Holanda, e no enfrentamento da última grande cartada de Hitler, nos bosques das Ardenas, onde quase foram aniquilados pela mais poderosa arma da guerra: um gigante canhão alemão com bala de 800 milímetros, cuja bala eu vi em Londres, na visita que fizemos ao Museu da Guerra. Os dias no Ninho da Águia foram de festas, de muita comida e de muita bebedeira. Os nazistas, na pressa da retirada, deixaram uma adega intacta, cheia das melhores marcas de vinhos e champanhes francesas.

O documentário termina com a volta dos heróis para casa e com declarações emocionadas sobre o que fizeram de suas vidas depois de passar por todo aquele inferno. Dos quase duzentos para-quedistas que compunham a Companhia Easy, pouco mais de sessenta ficaram vivos para contar a comovente aventura, e enfrentaram a velhice sem imaginar que no mesmo lugar do  estratégico Ninho da Águia, seria construído um luxuoso hotel para milionários.

 
O Ninho da Águia, em Berchtesgaden,
nos Alpes da Baviera(fonte:Google)
  Soldados para-quedistas da Cia. Easy
 em descanso (fonte: Google)
     

Nosso ônibus passando por  cemitério dos
aliados e suas cruzes enfileiradas.
 
    Londres, Museu da Guerra, eu escorado
na bala do canhão alemão de
800 milímetros, o terror dos aliados

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