DONA ALVAMIRA E DONA ALTINA Ademar Ayres do Amaral
Nem bem abro o ultimo número da Folha de Óbidos, deparo com uma bela homenagem que dona Altina Pinto de Souza faz à sua irmã, dona Alvamira, pela passagem dos seus 80 anos. Conheço dona Alvamira há muitos anos. Como amigos dos seus filhos, particularmente do Dezinho, o Xerife e do Alvarinho, o Arigó, houve uma época em que eu e meu irmão freqüentávamos muito sua residência ali na Padre Eutíquio, vizinha do hoje Shopping Pátio Belém. Viúva e muito bonita, dona Alvamira perdeu o marido na flor da idade e, numa atitude muito comum das mulheres de antigamente, dedicou sua vida a cuidar de sua imensa prole com um desvelo admirável. Um dia dona Alvamira se mudou para o Ceará, a terra do finado marido, e levou junto suas meninas na beira da saia. Desde então nunca mais as vi e, por razões das voltas que o mundo dá, cada um de nós acabou tomando seu rumo. Meu irmão estudou odontologia, Dezinho medicina, eu, engenheiro recém-formado, fui trabalhar em Manaus e o Arigó entrou para Receita Federal. Dia desses, eu e o Xerife nos encontramos num supermercado e, como é natural entre velhos amigos, aproveitamos o encontro ocasional para colocar os assuntos em dia. Dona Alvamira, ele me disse, continua no Ceará, as meninas(acho que eram quatro) estão bem e todas encaminhadas. Ele, médico oftalmologista, tem uma clínica na esquina da Lomas com a Almirante Barroso, vai muito bem obrigado, e o Arigó ainda permanece funcionário de carreira da Receita Federal. Agora dona Alvamira atinge a invejável marca de 80 anos, anos de muita luta, de muita batalha para criar e encaminhar os filhos, e da prodigiosa ventura de viver esse tempo para assistir a vitória da bela família que ela soube construir com esmero. Que bom saber dos seus 80 anos, gozando de boa saúde. De ler a emocionada homenagem que dona Altina, com mais de 90 anos, escreveu para a irmã na Folha de Óbidos. Ambas são mulheres raras, descendentes da mais fina flor dentre as mais tradicionais famílias da cidade de Obidos. Como costuma dizer minha mãe do alto dos seus 85 anos e de quem elas foram amigas de infância e de juventude, “ as filhas do seu Alvaro Pinto são uma raça de gente muito inteligente”. Mas o que eu quero mesmo dizer é o seguinte: o que mais me impressionou na justa homenagem que dona Altina escreveu, foi o texto brilhante e digno dos maiores escritores que nossa cidade já produziu. Comparo a força criativa da dona Altina com a da poetisa goiana, Cora Coralina, mulher que escreveu uma extraordinária obra depois que ficou viúva e com idade avançada. Cora Coralina, que antes de falecer ganhou o prêmio Juca Pato de intelectual do ano, costumava explicar que sua vocação tardia para as letras, se deu por pertencer a uma plêiade de mulheres reprimidas pelas amarras de um casamento mais tradicional, e por ter vivido numa sociedade preconceituosa, cuja função primordial da mulher era parir, cuidar dos filhos e do marido. Livre das amarras e dos compromissos do casamento, ela, digamos, se soltou para as letras e construiu uma das mais belas e sólidas obras da literatura brasileira. Seria esse o caso da dona Altina Pinto de Souza ? Seja ou não, acho que a grande obra da dona Altina ainda está para ser escrita. E eu, um intrometido com o que não é da minha conta, metendo o nariz onde não devo, lanço, daqui, um repto aos meus amigos e confrades, seus filhos Geraldo Magela e Bella Pinto, para que a incentivem a escrever essa grande obra. Narrar sobre tudo o que viu e ouviu nesses longos anos que Deus, sabiamente, lhe concedeu viver. Óbidos precisa do resgate dessas memórias e dessa pena brilhante.
Parabéns à dona Alvamira pelos 80 anos de uma vida linda e à dona
Altina Pinto de Souza por nos brindar com um texto de beleza incomum.
PS – A faixa preta acima é símbolo da minha luta pela abertura e restauração da Igreja do Bom Jesus. Estarei de luto, enquanto a igreja permanecer fechada e o povo proibido de frequentá-la.
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