AS PERNAS DA ZULEICA
Ademar Ayres do Amaral Nos anos quarenta, cinqüenta, talvez um pouco mais pra frente, todo homem casado e bem situado que se prezasse macho, tinha uma segunda família plantada fora de casa. Relacionamento envolvido numa teia de hipocrisia social crônica que se fingia ignorar, mas que, ao mesmo tempo, era assunto farto para cochichos nas alcovas e esquinas da cidade. Geralmente dependentes dos maridos e criadas dentro dos costumes rígidos daquele tempo, as esposas aturavam caladas a situação constrangedora. O que importava mesmo era manter o máximo de aparência possível e tentar agüentar o casamento. Por simples modismo, se chamava a cara metade de "a rapariga do seu fulano". Essa paisagem meio esquisita para os dias que hoje vivemos, seja pela nova mulher que surgiu ou por um casamento mais participativo em todos os níveis, dominava a Óbidos daquela época e tinha no seu Hamid, libanês de nascimento e guarda-livro de profissão, apenas de diferente, o excesso. Enquanto a maioria se enrabichava por anos e anos com a outra, às vezes criando vínculos inseparáveis e proles numerosas, o velho Hamid (sim, vamos chamá-lo de velho porque já beirava os setenta e cinco anos) mudava de amante com uma constância de rapazinho, sempre embalado nos favores da maior cafetina da história obidense : Dona Belé. A maior parte dos grandes comerciantes, fazendeiros, homens importantes e até algumas autoridades da cidade, haviam caído nas graças, ou, melhor dizendo, nas garras afiadas da Dona Belé. Era uma velha tísica, um esqueleto ambulante virando sucata, mas muito eficiente no seu ofício. A todo momento estava de prontidão quando um marido mais necessitado precisava variar do feijão caseiro. Aliás, muito bem sobre esse assunto, eu escutei, de raspão, um comentário precioso do Coronel Dadá, meu tio, padrinho de batismo e mulherengo de muita fama: "Todo dia, até tartaruga do Trombetas a gente enjoa", ele disse, enquanto apreciava as fotos das mulheres nuas que ajudavam a decorar o luxuoso camarote da sua portentosa lancha, a Santa Tereza. O coronel Dadá era rico, mulherengo de nascença, cheiroso de perfume francês e bonito que só visto. Claro também que a Dona Belé era odiada, secreta ou ostensivamente, e na mesma proporção, por quase todas as santas e dignas esposas obidenses. Em troca de tão nobres favores, a cafetina abocanhava o rancho do mês, algum dinheirinho para sobreviver e, no caso específico do seu Hamid, dinheiro e favores especiais, como a injeção pra insistente erisipela que o guarda-livro aplicava como ninguém. É bom que se diga: não havia quem não apelasse para os bons préstimos do seu Hamid nessa área, tendo sido ele em outros tempos, um eficiente enfermeiro e contador nos seringais do Acre, até, sabe lá por qual motivo, desembarcar em Óbidos de uma chatinha da Amazon River e criar raiz. D. Odete, a esposa do libanês, além de um poço de passividade, era um caso único nesse caleidoscópio obidense. Mulher prendada, tricoteira de nome e religiosa ao extremo, navegava, já nessa época, quarenta anos de um casamento que, tirando as três filhas, não lhe trouxera um segundo da mais pálida ternura ou felicidade. "Casamento é um nevoeiro sem fim", ela deixou escapulir sem querer para uma comadre íntima. Seus momentos de maior prazer e constante fuga, eram vivenciados pela férrea devoção religiosa, a oração e a caridade que ela praticava como incondicional devota de S. Francisco de Assis. Dela nunca se ouviu uma reclamação ou lamúria, uma mísera contrariedade retratada na face e nem mesmo uma lágrima escondida nos momentos de maior dor. Era bondosa, admirada pela sua força, mas absurdamente infeliz. Protegia as filhas de toda essa alegoria, cercando-as de carinho e enaltecimento da figura paterna, até o momento em que elas entenderam tudo e passaram a olhar o pai com um misto de amor e ódio profundo. Se algum diáfano pecado D. Odete teve, algum sentimento de menor nobreza, esse momento acontecia sempre no dia do grande Círio da Senhora Sant'ana. Sendo uma das infalíveis organizadoras da procissão, não agüentava assistir todos os anos a abominável figura da Dona Belé ajudando a carregar o andor. Mal a berlinda da santa aportava no trapiche, a cafetina lançava-se como um bólido, vencia qualquer obstáculo e seria capaz de peitar até o vigário se preciso fosse, para conquistar a vaga no lugar mais importante da festa. Fora essa punhalada, causava espanto a todos a maneira cordial e delicada como D. Odete tratava publicamente o marido, ainda que em casa o relacionamento fosse distante e perdido no tal nevoeiro existencial. Quem visse os dois na rua, andando de braços dados ou em visitas de fim de tarde, diria que alí estava o resumo de um bom e gratificante casamento. Minha tia Cocota, mulher de língua ferina e empanturrada de segundas intenções, não deixava de largar um comentário irônico ao vê-los passando: "Isso, seu Hamid, assim é que é bom de se ver". O libanês respondia apenas com um rosnado que, traduzido sem muito esforço, dava a entender que minha velha parenta tinha sido mandada de véu e grinalda tomar onde as patas tomam. Seu Hamid era o típico machista juramentado. As amantes chegavam e depois eram chutadas sem a menor cerimônia, bastando que ousassem contrariá-lo ou ele plantasse a retina numa carne mais interessante. Não admitia da acabrunhada esposa ou das filhas, uma única palavra sobre o assunto, uma vírgula que fosse e todas faziam de conta que ignoravam para que o ambiente familiar não ficasse tão carregado. Praticava-se a lei do silêncio, imposta pela presença ou aos berros se fosse o caso. Abrir o bico para abordar o adultério era pior que arrastar a chinela na hora da sesta sagrada. O máximo que elas se permitiam eram promessas escondidas, rezas e ladainhas para que baixasse um milagre do céu e o velho mudasse. Mas parece que quanto mais reza e promessa faziam, mais dava o revertério e o reizão caía na gandáia. Pra encurtar história, conto uma cena que eu presenciei de camarote. Aconteceu com a primogênita do casal, um femaço de muitos talheres e invicta de homem chamada Zuleica. Ela, participante ativa da Congregação das Filhas de Maria e puxada pra mãe em muitas horas rodadas na igreja, cumpriu uma trezena inteirinha de Santo Antônio, juntando esperança do velho largar do último xodó. A molecota do seu Hamid era uma putinha que ele havia arrebanhado da cidade de Faro e logo agasalhada com casa e apetrechos nas imediações da sede festeira do Corre Liso. Certo dia, tendo passadas já algumas semanas do término da rezadeira, surge uma vizinha anunciando que o caminhão da prefeitura estava recolhendo móveis e utensílios domésticos, na casa da rapariga. "A trezena deu certo, deu certo", arrepiava Zuleica rua Bacuri acima, batendo o pé na calçada e dando com o punho cerrado na palma da outra mão, contente ao nos encontrar, eu e minha mãe, na saída do Bar Andrade. Todo lambuzado com um sorvete de chocolate, eu aguçava minha inocente curiosidade na dança hitleriana da solteirona. "Vou agradecer agora mesmo na igreja...", ela dizia. Minha mãe escutava aquilo tudo com a atenção que um caso desses requer, mas num mutismo característico dela, que, ainda hoje, já passada dos oitenta anos, é sinônimo insofismável de incredulidade. Ninguém imagina a agonia de passar por um desses silêncios sepulcrais da minha mãe. Neles, estão contidas as dúvidas, os conflitos e toda a sabedoria da alma, na incógnita machadiana do decifra-me ou devoro-te. Nunca soube o que a pobre Zuleica sentiu diante daquele misterioso silêncio, logo quebrado pela voz de alguém anunciando um "lá vem vindo o caminhão", no instante em que o maltratado caminhão Ford da prefeitura(é, o prefeito colaborava) passava chapado perto de nós. Por cima dos bregueços, a vasta cama do pecado. Ante o sinal da aflita Zuleica, doida pra saber das boas novas, o zeloso motorista pisa no freio, breca o veículo e informa a pior notícia que a esperançosa moça não esperava ouvir naquele fim de tarde: "Tou levando a mudança pra aquela casa ali no fim da rua do Quartel, casa alugada pra uma raparigona que Dona Belé trouxe de Manaus." Pronto, Zuleica despenca no meio da rua revirando olhos, entortando boca, estrebuchando-se e largando os braços em todas as direções. Isso desabriga de modo estabanado suas pernas generosas e a calcinha de alvura angelical, só comparada, em candura, aos belos anjos que um dia sumiram do altar da igreja de Sant'ana. Eu tinha meus cinco, talvez seis anos quando aconteceu o episódio. Hoje, passados tantos anos e com as mulheres quase desnudas, apreciar pernas interessantes é uma atividade super saudável e que não requer maiores constrangimentos: nem de quem espia, nem de quem expõe. De uma coisa, porém, eu tenho a mais absoluta de todas as minhas certezas: a calcinha branca e as excitantes pernas da Zuleica, desabrochadas ao sabor de um sorvete de chocolate, essas, eu não vou esquecer até o final dos meus tempos. Saiba mais sobre o Ademar CLICANDO AQUI
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