Ademar Ayres do Amaral A idéia de fazer a cerimônia da AALO dentro do Quartel, atual Casa da Cultura, e de escolher o salão onde estão homenageados os grandes vultos da cultura obidense, contribuiu muito para o brilhantismo da solenidade. Certa vez, numa festa de carnaval, naquele mesmo salão, meu tio Manuel Ayres, um festivo estudante de medicina em férias, passou pulando e encheu o terno de linho branco do meu pai com um jato da tinta do diabo. Muito usada pelos foliões da época, a tinta vermelha, uma novidade levada da capital, sumia minutos depois de lançada sobre a pessoa, mas meu pai queria partir pra briga quando viu seu HJ lambuzado de tinta, sem sequer imaginar que um dia eles dois acabariam cunhados e grandes amigos. Como exige o protocolo da AALO, não foi fácil colocar o terno e opalanda no calor escaldante de um julho obidense, Só não foi pior porque o carro que o Gico me emprestou tinha ar condicionado. Entrei, acompanhado do Pescada e do meu filho. Logo de cara fiquei surpreso com a organização nota dez e com a quantidade de pessoas que lá já se encontravam para prestigiar o evento. Na passagem para uma sala lateral que nos foi reservada, tive o prazer de encontrar um casal de bons amigos, os sempre gentis Gracilda e Pedro Marinho, por quem meu pai tinha grande amizade e consideração. Na conversa o Pedro me disse que tinha um presente para minha mãe. - Vou pegar em casa e te entrego mais tarde no Clipper – ele disse. A solenidade foi tão bonita como a de Belém e me foi concedida a honra de entregar a medalha a uma das personalidades homenageadas: minha professora de catecismo - talvez ela nem lembre disso - Maria Lúcia Brito. Destaque para os excelentes discursos do Edílsimo Eliziário, em homenagem aos novos acadêmicos empossados, do Hugo Ferrari em agradecimento, do vice-prefeito e o da professora Maria Lúcia, que se disse muito feliz em ver alguns dos seus ex-alunos na Academia. Da solenidade, foi só o tempo de botar uma roupa mais leve e começar a curtir a festa. No Clipper, recebi do Pedro Marinho o presente da minha mãe, uma foto dos meus pais que me deixou bastante emocionado. Foi tirada em maio de 1987, no sítio do Pedro, um lugar bonito onde meu pai gostava de ir e de ficar de molho, agarrando uma corda que o Pedro Marinho esticava de um lado a outro do riacho. Olhando a foto do meu pai cheio de saúde, não dá para imaginar que nove anos depois ele nos deixaria para sempre, para o terrível “momento em que tememos encontrar-nos unicamente conosco”, como nos ensina o mestre Dalcídio Jurandir. Andei por todo o clipper olhando o ambiente, conversando com uns poucos conhecidos e parando na roda de amigos que sempre se formava na mesa do Célio Simões, lugar escolhido para autografar os 40 exemplares de Catalinas e Casarões que eu levei e doei para a festa da padroeira. Os poucos exemplares que sobraram, entreguei para o Jorge Ary deixar na ACOB. Concordo com o Carlos Silva de que o Clipper está acanhado para o tanto de gente que o freqüenta, e que precisa ser modernizado, quem sabe, com uma espaçosa sacada para o rio, a fim de permitir maior ventilação. Mas alguma coisa me agoniava muito mais que o desconforto do local. Passei três dias morando na praça, indo todas as noites no Clipper e pasmem: só vi o rosto do novo bispo uma única vez, e assim mesmo de longe. E foi nessa hora o maior elogio que eu ouvi a respeito dele, vindo de um grupinho de moças que estavam perto de mim. - Nossa, ele é um gato! – disse uma delas. Ótimo que a juventude simpatize com o novo bispo, mas seria bom ele dar uma passadinha diária no túmulo do Dom Floriano e rezar um Pai-Nosso para se inspirar. Dom Floriano foi o maior prefeito que Óbidos já teve sem nunca ter sido. Como primeira sugestão, que Dom Bernardo faça Deus perdoar o único pecado que Dom Floriano cometeu no dia em que mandou fechar com tijolos as portas da igreja do Bom Jesus. O templo virou exclusividade do bispo, à moda da capela Sistina, e o povão que o construiu como promessa pela saída dos cabanos, agora virou apenas detalhe, fica do lado de fora chupando o dedo. Conversando com uma santa senhora obidense sobre essa calamidade histórica, ela me disse que Dom Floriano mandou emparedar a frente da igreja porque alguns casais aproveitavam aquele lugar romântico para um outro tipo de reza. Ora, se a causa foi mesmo essa, que botassem lá um “empata-aquilo” de vigia, mas deixassem o lindo templo com sua arquitetura primitiva e do jeito como foi concebido àbase de muito sangue e suor do povo de Óbidos. Senhor bispo, escreva seu nome na história e escancare as portas do templo, o Bom Jesus e o povo vão lhe agradecer. E não esqueça de convidar esta alma perdida para a inauguração. Num dos concorridos leilões de todas as noites, houve uma ferrenha disputa por uma linda imagem em madeira da Senhora Sant’Ana. Arrematada por oito mil reais, a vencedora que levou a imagem pra casa foi a senhora Rosinha Pinto. Essa festejada dama, juntamente com minha amiga Aldinha Simões, são a cara da festa. A impressão que eu tenho é que à falta de uma delas, a santa até se recusaria a sair na procissão. Dona Rosinha, e todas as filhas do português Álvaro Pinto foram amigas de infância da minha mãe, de brincarem juntas, uma amizade que ainda perdura no passar dos anos. Meu avô Ayres, quando não podia comparecer a uma festa, só confiava as filhas se fossem na companhia do compadre Álvaro Pinto. Sou um admirador apaixonado pela alegria e pela felicidade que dona Rosinha irradia, e lhe faço um suplicante pedido para quando a senhora estiver diante daquela linda imagem: reze alguma coisa em minha intenção, peça à senhora Sant’Ana que interceda por mim junto ao Criador. E palmas pra dona Rosinha que ela merece. No sábado à noite, depois de um apetitoso almoço e de um belo descanso no sítio do jornalista Ronaldo Brasiliense, fomos todos a uma “big” festa dançante na ARP. Sempre me encho de recordações quando entro naquele clube, lembro dos bailes carnavalescos da minha infância em companhia do meu amigo Célio Simões e da nossa inesquecível namorada. O nome dela? Nem sob tortura. Por falar em clube, desta vez senti orgulho de estar em um lugar agradável, limpo e organizado. Valeu a pena o trabalho de recuperação das instalações, obra de um grupo de grandes mulheres obidenses, lideradas pela minha parenta Cinira. Parabéns a todas elas, de joelhos. Mas o melhor mesmo da festa foi o impacto causado por duas gatas que não se largaram a noite inteira. A aposta geral era que elas eram de fora e estavam em Óbidos a reboque da parada gay que promoveram no Curuçambá. Dançando com ar apaixonado ou de “mãos dadinhas”, elas mostraram como é lindo o amor e foram o que de melhor aconteceu naquela noite da ARP. No dia da festa, às nove da manhã, apanhei os amigos Célio Simões e Carlos Silva para darmos uma volta pela cidade. Meu filho preferiu sair a pé com o Pescada, queria bater fotos do casario, do Quartel e do Forte Pauxis. Fomos primeiro conhecer o novo bairro da Bela Vista. Entramos por vielas nunca dantes navegadas e saímos num lavrado cheio de casas rústicas, de gente que migrou para a cidade, fugindo da grande cheia. Em determinada hora, a par da real bela vista da serra e do laguinho, me senti mais perdido do que aquele avô desorientado no nevoeiro de Amarcord, o belo filme de Frederico Fellini. E como num ambiente felliniano, de um caminho lateral surge repentinamente um motoqueiro com uma mulher na garupa. - Pra onde vai esse caminho? – perguntou o Célio. - Vai pra longe, meu senhor, seguindo em frente a gente bate no Curuçambá. - E onde vocês moram? - Tenho uma barraca aí pra dentro. De lá fomos ao Curuçambá e depois voltamos para o Carlos nos mostrar a área onde será construída a futura Praça do Estreito. Sobre o Curuçambá? Belo lugar, mas ainda carecendo de uma urbanização adequada para merecer o nome de balneário. A primeira providência seria retirar aquele banheiro fétido do meio do igarapé. Sei que o Lataria tem idéias novas e que está projetando grandes mudanças para tornar o Curuçambá um lugar digno de receber um turista. Tem todo o meu incentivo. No dia seguinte nós iríamos retornar direto a Juruti, mas meu filho me disse que ainda queria passar mais um dia, dormir de novo no Paraná da Dona Rosa. -Pai, é que a vó me pediu para olhar o estado da igreja. Ela quer que eu tire umas fotos lá. Outra coisa: o tio Joaquim ainda quer pescar uns pacus e levar pra Juruti. - OK, amanhã agente sai cedo e dorme no Paraná da Dona Rosa. Sete horas nos despedimos da Emília e do Gico. Foi abastecer o barco e seguir viagem, não sem antes passar no mercado para comprar um tambaqui. Durante a viagem preparamos um cozido de caldo grosso à base de chicória e cheiro verde, arrematado com um molho de tucupi na pimenta malagueta que também compramos no mercado de Óbidos. Almoçamos e fomos atrás dos peixes no igapó. Decidimos dormir no barco, dentro do Igarapé do Bom Lugar, porque a Salomé e o Haroldo já tinham ido para Juruti. Pescamos a tarde inteira e já cuidávamos de uma pirapitinga para a janta, quando ouvimos um barulho de rabeta. Era o Haroldo. - Eu vim buscar vocês, vamos lá pra casa. -Mas vocês não estavam em Juruti? -É, mas disseram que vocês vinham e nós viemos também. - Nós quem? -Eu e a Salomé. Ela tem um pato guisado esperando vocês. - E a pirapitinga? - Ela morre na brasa. De novo, quem tem amigos na praça ... Dia seguinte fomos visitar a igrejinha do Sagrado Coração. Deu pena de ver o estado do templo construído com tanto esmero pela minha madrinha Sinamor Guerreiro. A água da cheia entrou quase meio metro sobre o piso, e no lado esquerdo externo havia uma enorme colméia de abelha africana. Saí triste por ver destruída a igreja onde frei Angélico me batizou em 1948, e onde fiz minha primeira comunhão, em 1957. Fotografamos tudo e saí sem olhar para trás. Chegamos em Juruti e a cidade estava eletrizada com a festa das tribos Muirapinima e Mundurukus. Elienai, sempre ela, nos conseguiu um camarote para a primeira noite. Lá encontrei os amigos Nivaldo Pereira, dono da TV Ponta Negra, que comandava a cobertura para a Rede Amazônia, e o Carlos Meschede, proprietário do famoso Bar Mascote, o melhor point de Santarém. Mas chegou a hora de voltar e viajamos no dia seguinte para Santarém, onde pegamos nosso voo para casa. Da janela da lancha Tapajós, ainda avistei ao longe os acenos amigos da Elienai, Haroldo, Salomé e Pescada. E como no verso daquele poema que minha mãe gosta de recitar, “nas despedidas, a gente parte, mas são as mãos que ainda ficam por muito tempo acenando um lenço branco no ar.” Um grande abraço e obrigado a todos os que me acompanharam nesta viagem pelos sete Respingos das Férias.
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