A “TAPAGE”
E O PADRE Ai daquele que, por algum acaso, ou por necessidade, já tenha passado um dia inteiro socado numa tapagem, empurrando motor com mará. No Baixo Amazonas, a gente prefere chamar esse fenômeno de "tapage" que, convenhamos, é um modo bem mais pai d'égua de dizer. Do mesmo jeito que “caboco” é melhor do que caboclo, e “rebujo” é mais bonito que rebojo, a forma correta, conforme está no mestre Aurélio. Mas onde era mesmo que eu estava? Ah, sim, na “tapage”. Pois não queiram saber o que é varar um igarapé nessas condições. É qualquer coisa de fazer cabra valente chorar de raiva. Os igarapés são estreitíssimos e a correnteza vai juntando capim por cima de capim, enroscando touça com touça(toiça também pode e flui melhor), formando o que o “caboco”( pra todo o sempre) acostumado naquela lida de todo ano, chama de beiju. Por cima dum beiju(ou biju), qualquer pessoa pode andar como se fosse em terra firme. Existe “tapage” de até cem metros de comprimento ou mais. Viagens que durariam algumas horas, transformam-se em pesadelos de dois ou três dias, sem contar os carapanãs sinfônicos que apoquentam a vida, se por obra do tinhoso alguém anoiteça enfiado no matupá. Lembro de ter passado algumas “tapages” históricas na minha vida. Mas até hoje eu não esqueço de um beijuzão que nós enfrentamos, nos anos sessenta, quando cismamos de passar os festejos de São Sebastião na Tabatinga, um lugar perdido de tanta lonjura, que se perde nos destinos da cabeceira do Salé. O encarregado de dirigir os festejos era Frei Ricardo, o poderoso vigário de Juruti, um padre alemão austero e de pavio curto, mas muito reverenciado pelos fieis. Além da conhecida austeridade, era de baixa estatura, carregava raras penugens na cabeça e tinha o nariz adunco, o que inspirou nos paroquianos o apelido certeiro de Filhotão de Curica. No retorno da festa, ficou combinado que o barco do frei Ricardo, de quem meu pai era muito amigo, seria atrelado ao nosso, para juntarmos forças a fim de vencer, com mais facilidade, a tal “tapage” que já nos esperava no igarapé do Salé. E assim aconteceu. Uma equipe na frente cortando o capim, outra equipe nas margens puxando na corda e alguns outros em cima da tolda, empurrando com o mará. Trajando sua tradicional e grossa batina de franciscano e suando por todas as bicas, o Filhotão de Curica fazia parte dos que estavam nesse último grupo. Lá pelas tantas, já muito cansado, ele enfia confiante o mará no capim, joga todo o peso do corpo para dar mais impulsão e, azar dele, a vara atravessou a massa, fazendo o piedoso cura dar uma cambalhota no ar e estatelar-se no meio do capinzal. Ante a inevitável gargalhada de todos, ele levantou possesso, espanou o sujo da batina e esbravejou com sotaque alemão inconfundível: -Vão rir da puta que os pariu! E subiu novamente na tolda pra continuar empurrando. Saiba mais sobre o Ademar CLICANDO AQUI |