Crônicas do Ademar Ayres do Amaral

O CASO DO CAPITÃO DRUMOND

      Baixote, atarracado, cabelo liso de porco-espinho e face sangüínea sempre a ponto de explodir, o capitão Drumond não era o tipo de pessoa que alguém desejasse ter como amigo. Muito menos, aliás, como inimigo. Mais grosso que o papel usado para embrulhar prego na loja sortida do seu Zé Imbeloni, havia sido transferido, a contragosto, ninguém sabia ao certo de onde, para servir como comandante da 8ª Bateria Independente de Artilharia de Costa(8ª BIAC) e também do Forte de Óbidos. E desde sua chegada num navio do Loyde, passou a encarar essa missão como um castigo supremo. Todos o temiam pelo gênio explosivo e truculento, e sua fama de homem mau logo tomou conta da cidade e arredores. Cresci no Paraná da D. Rosa ouvindo histórias nada agradáveis a respeito desse demoníaco militar. Histórias acontecidas muitos anos antes de eu nascer mas nem por isso menos temerosas e estarrecedoras. Mais medo, só da velha Joaquina Coroca quando brandia o terçado em riba da ponte nos ameaçando de castração. Minha vó, Nila Amaral, mulher de não guardar assunto, assim resumia a impressão que teve dele ao conhecê-lo de vista: "Era o próprio diabo em pessoa".

          Muito pouco se conhecia a respeito do capitão Drumond. Se tinha esposa, filhos ou parentes.Com certeza, e isso todos sabiam, não tinha em Óbidos um único e escasso amigo. Pessoas que foram obrigadas a privar mais de perto com ele, afirmavam ser um homem que transpirava contra a humanidade um ódio profundo e, ao mesmo tempo, vivia imerso em uma grande solidão. E solidão, já dizia o poeta Antônio Maria, "só serve mesmo pra ir no banheiro porque a gente tem a liberdade de deixar a porta aberta". Não resta dúvida que é extremamente difícil sobreviver como um ser humano digno e normal, sem a boa convivência dos amigos, o olhar terno de um filho e o afago de uma doce e, de preferência, bela mulher.

            Sempre externando mau humor e atirando raiva gratuita pra todos os lados, de pronto o capitão Drumond elegeu Óbidos e seu povo como o inimigo maior da sua triste existência. Não tardou a ir em busca das primeiras vítimas para por em prática uma espécie de vingança particular, como se algum descendente dos pauxis fosse o culpado do seu inferno interior. Começou aporrinhando a vida dos pobres recrutas e soldados do quartel. Reunindo todos os dias o que ele chamava de "cambada de merdas", comandava pessoalmente a limpeza do lago no sopé da Serra da Escama. Só quem não nasceu ou morou no local, não é capaz de imaginar o que significa o calor insuportável de duas horas da tarde num verão obidense. Os soldados eram obrigados a entrar com água pela cintura para executar a difícil tarefa. Haja sofrimento. Esse lago, que hoje é o espelho da serra e tem aparência de limpinho(eu disse, aparência), era um aningal impenetrável onde conviviam surucucus, jacarés, mosquitos de impaludismo e coceira de cauixí. Sentado numa vasta cadeira, o temido capitão comandava aos gritos de "vamos seus cambadas de merdas", batendo com o sabre no tronco de uma itaubeira que lhe fornecia sombra. Cada cipoada era como se ele degolasse um habitante da cidade. E ai de quem mostrasse cara feia, algum indício de corpo mole ou resmungasse uma queixa: saía direto pro xadrez.

       Após o primeiro embate com a soldadela, vomitava sua ira nos cabos e sargentos. Havia, naquele tempo, uma jogatina sadia na esquina da praça, espécie de cassino funcionando desde a boca da noite na casa do velho Rosário, o banqueiro do jogo e também pai vigilante da minha parenta Zuráia. Ela, moça bonita e iniciante na profissão de enfermeira, tantos anos mais tarde continuou trabalhando nessa atividade, que existe dúvida, hoje, de quem veio primeiro: se ela ou a Santa Casa. Pois na melhor hora, no exato instante em que as apostas esquentavam, o odioso militar ordenava ao corneteiro que aplicasse o toque de reunir, ou aparecia como fera espumante no mais sacana intuito de flagrar e punir com cadeia algum desavisado.

         Está claro, que o capitão Drumond era de longe e sem meio termo, o sujeito mais detestado de Óbidos. Da fazenda Paturi ao porto de cima, do mercado e até muito pra lá do bar bem frequentado do seu Zezinho Andrade. Passava e não cumprimentava ninguém. Tanto seus colegas de farda quanto a população queriam lhe ver pelas costas ou no bucho duma piraíba. Promessas mil foram feitas, apelaram pro vigário, pro juiz e nada do homem ser removido. Que mandassem ele infernizar a vida do quinto dos infernos, que fosse sentar no trono do belzebu, mas deixasse a pobre Óbidos em paz. Corria boato que até a finada Caçula,  nessa época disputando clientela fina e rivalidade com Maria Cueca, foi escalada pra apaziguar o homem e não aguentou o tranco: bateu em retirada.

           Mas, nada neste mundo é pra sempre. E se alguém duvida disso, basta fazer uma visitinha num cemitério. Assim, chega finalmente o dia da alvissareira notícia sobre a transferência do capitão Drumond. A boa nova rápido se espalhou e foi uma festa completa na cidade. Na hora da partida, do embarque numa chatinha da Amazon River, havia mais gente no trapiche da Cia. de Aniagem, do que chegada do círio fluvial da padroeira Sant'ana. Estavam lá muitos dos que sofreram perseguição na mão dele e outros que compareceram por simples prazer, pra ter certeza de que o vapor levaria o peste pra bem longe. Foi, portanto, debaixo de uma sonora vaia misturada com impropérios de todos os lados, que ele, cheio de pose e em traje de gala, adentrou no navio. Subiu e não contou conversa: acintosamente postou-se com desprezo na amurada do segundo piso e, com o sabre em punho, raspa das botas todo e qualquer resquício de solo obidense. "Daqui pra nunca mais seus cambadas de merda"- esbravejou.

         É, mas a vida é cheia de encontros, desencontros, de idas e vindas, de retas e curvas. Tristes aqueles que ainda não tomaram consciência disso e optam pela intolerância e pela malquerença. Pra encurtar ladainha, mal aporta a chatinha em Belém, o destino agarra o capitão Drumond pelo colarinho numa dessas curvas da vida, e ele recebe contra-ordem de retornar imediatamente para reassumir seu posto de comando na 8º Bateria e no Forte. Foi um balde de água gelada no "desinfeliz" e muito mais na alma sempre alegre do povo de Óbidos.

          Ninguém, nenhum civil estava esperando no porto quando outro vapor encostou em Óbidos desembarcando o indigesto. Tirando uma pequena guarnição de praças, apenas um cão leproso e remelento perambulava uivando ao longo do trapiche. Na sede do regimento, já o aguardava uma cerimônia solene de recondução, incluindo desfile de tropa, corneteiro e execução do Hino Nacional. "Vou tocar fogo nesta cidade", ele brada ameaçador para o chefe dos praças ao descer do navio. Marchou na direção do quartel por ruas completamente desertas e silenciosas. Pelos cantos da boca, soltava um acúmulo de baba bovina e elástica, que prenunciava um início de apoplexia iminente. Não houve uma única e mísera janela a bisbilhotar o cortejo, numa cena que lembrava, às avessas, o sacrifício de Lady Godiva. Empertigado, com os olhos latejantes e esbugalhados de ódio, o capitão Drumond se submete à cerimônia por dever do ofício. Em seguida, caminhando ao lado da guarda, se dirige ao interior do quartel para tomar posse do cargo. Justo quando atinge a fileira dos benjaminzeiros que ornamentavam a frente do histórico e tradicional prédio, empalidece; dá dois passos cambaleantes, leva bruscamente a mão no peito e, com berro colossal, desaba fulminado sobre as pedras portuguesas. De suas narinas cadavéricas, brota ainda um leve filete de sangue, que o mesmo cão leproso do trapiche se põe a lamber.

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