A DEMOLIÇÃO Sabe, compadre, até fico imaginando que eu sou essa coisa de criatura predestinada. Pois eu digo e lhe dou certeza que eu vim marcado como um garrote de abate, já sabendo que um dia eu ia acabar pendurado de ponta cabeça num açougue. Assim me via desde curumim e aqui volto cheio de tristeza pra cumprir esse meu destino, de olho num passado que teve começo muitas léguas atrás, se é que tempo se mede por légua, por minuto ou segundo, que eu já nem sei, mas também não tem lá muito interesse no presente caso. O fim é o fim. Pra que se “havera” de lamentar do que não há jeito nem retorno? Quem aparece não tem que um dia sumir? Taí a prova do coronel e da velha, eles de muito poder de terra e gado nesta fazenda sem medida, do meu finado compadre Zé Manduca e desses todos nossos conhecidos que se foram e já nem mais se ouve dizer. Pois então, que seja como Deus quer. Hoje eu cumpro minha missão, mas quero seu apoio pra acabar de vez com a agonia desta casa, que, a bem da verdade, morre cansada de conhecer tanto fausto por um grande tempo e doente de tanto abandono na velhice. Isso depois de passar por montoeiro de gente se cruzando da varanda pra cozinha, da cozinha pra despensa e dos quartos pras alcovas, também gente se cruzando acima das bocas da noite, num resmungo disfarçado de não chamar atenção e num vaivém de punho de rede sem limite. Agora veja: será justo, na minha vida, tão ingrata passagem de desmanchar esta casa que foi morada das minhas estrepolias? E quanto remorso, compadre, de botar essas almas pra fora, no relento, a bom pegar chuva e tempo ruim. Não, compadre Justino, eu é que não posso assumir sozinho como dono dessa difícil empreitada. Convém reforço de gente que conheceu cada prego, cada tábua de itaúba, cada pranchão de cedro, gente que morou e escarafunchou milímetro por milímetro desse assoalho adernado de suportar enchente. Enfim, gente de fibra tal qual o senhor, igualmente o compadre Raimundo Preto, na minha medida e do meu finado compadre Zé Manduca, que aquela maldita doença braba levou numa injustiça que até custa de um cristão temente acreditar. E eu, aqui, unha e carne com vocês, mais do que abatido por este legado de mil lembranças boas e algumas porqueiras, e muito, muito aporrinhado da moleza desses uns besuntados de suor que o senhor trouxe de ajutório. Olhando assim de revés, mal dou conta de como e por onde começar esta aventura, esta tal demolição de tanta vida, de tanto passado bonito e dum presente tão triste e feioso de se ver. O estado desta casa nunca que engana mais nem vista de cego, mesmo angariando simpatia de espiar o presente com disfarce da lonjura ou apreciando cheio de boa intenção na chegada do barco. Lá da testa da ribanceira já se nota um quê de passado suplicando velório. Tudo isso bem aconteceu desde ontem, no pisar do tijuco úmido com final de tarde invernosa e tristonha, de sapo resmungando e pássaro amoitado nos galhos do paumulateiro. Será, compadre, que nós já não temos tutano pra dar conta desse préstimo? Será de precisão toda essa gente? Bom, logo de primeira largada, eu penso, nada se fará sem afugentar esse esbrugueiro medonho de caba de igreja que não se sabe mais a extensão e que é o sinal primeiro de qualquer decadência neste pedaço de mundo. Vão, essas bichas, sentindo os modos do lugar, as saudades dos que partiram, a falta do alvoroço humano do dia-a-dia, e vão tomando conta, se amontoando nos beirais, nas paredes, nos caibros, nas ripas, enchendo de ferroada qualquer vestígio de vida, impregnando veneno na alma e no coração de cada alcova. E nós, justo conversando aqui neste lugar onde foi o chiqueiro dos bezerros, onde cada um tinha o seu de montaria e o compadre a preferência de escolha naquela bezerrota malhada que era da sua melhor simpatia. Sua e daquele bando de moleques sem pensamento de outra coisa pra frente, que não fosse encabrestar a coitadinha na corda de envira e se servir. Hoje eu nem digo, porque a gente tá ajuizado e é homem que presta conta de qualquer intenção maldosa, mas naquele tempo, compadre, diga se uma bezerrinha turina ou aquela égua lazoa de montaria não era de grande predileção? Até aquele molenga e amarelão de comer terra, o esquelético do Chico Preguiça, nunca reclamando de pegar resto de pão com manteiga no final da fila, aquele pobre indivíduo falecido de caganeira braba, se teve alguma alegria ou felicidade na feiúra dele, foi se prazerando no rabo daquela égua . Assim, compadre, no passar da vista, a gente vai indo, nem sei pra que se lembrando das arengas desta velha casa e dos seus arredores, imaginando as alturas daquela mangueira frondosa, onde por debaixo dela foi enterrado o Sultão que a onça matou sem piedade. Enterro de muito choro e lamentação, porque cão melhor do que aquele não havia pra caçar, fosse um arisco filho de marreca, tracajá na desova ou o farejar duma onça pintada. Se por baixo descansou o Sultão, por cima da de lembrar a queda do finado compadre Zé Manduca num depois do almoço. Escondido da patroa, ele deixava sua obrigação de carregar água e encher nos potes, pra ficar na vadiação de prender periquito com grude de tucujá. Tanto assim fazendo de ruim, ele despencou da guia da mangueira amaldiçoando castigo, e haja do corpo dele trombar de galho em galho, em triste cena assistida por minha mãe e por Maria Chapéu num coro de grito estrondoso. Saído dessa por milagre sabe Deus de que santo, ele foi retornado pro mundo depois de meses e meses de lida, na base do sumo de arnica e puxação com um ajuntado de banha de sucuriju e andiroba. Meu finado compadre foi por muito tempo essa fedilança de andiroba com catinga de sucuri. Agora eu vou lhe falar uma coisa, uma idéia que me persegue mais do que caba camaleão na estrada: que médico não me desacate se eu disser aqui uma besteira, mas aquele negócio do tamanho dum cupuaçu que apareceu uns trinta anos depois no peito dele, aposto se não foi obra da tinhosa daquela queda. Então, compadre, aqui neste lugar onde era o chiqueiro, bem neste ponto, eu montado no meu bezerrinho de amanso, unzinho avermelhado com parentesco de caracu, já de rabo quebrado, o sofredor, de tanto que a gente fazia pro bichinho andar em volta da cerca do chiqueiro, pois daqui deste ponto eu vi e o senhor é testemunha, da barulheira acontecida na cozinha, dos tapas levados pela Maria Chapéu por ter emprenhado do finado Zé Manduca. Coisa, aliás, que pra nós não foi tanta surpresa. A gente que tava canso de espiar os dois se rolando no barracão por riba da juta enfardada. Foi tanto trampesco, que a Maria Chapéu saiu mais beiçuda que mandubé na vazante. Era a trouxa de roupa na frente e o tapa comendo por trás do cangote, até ser entregue cheia de pranto e se sentindo mais do que puta, na casa do irmão. Sobrou pro Zé Manduca a bruta esculhambação que ele ouviu calado e encolhido num canto, nem bem arriou a sela do cavalo, aquele um melado, o Jaguareté, quando chegou cheio de cisma do retiro. Calado ouviu, calado ficou até quando a patroa disse que ia chamar aquele braboso do filho dela, um tal que apelidavam de Caba Tapiú, pra dar uma surra de mochinga nele. Hum, seu compadre, pra quê, o Zé Manduca pererecou de zangado e respondão, e disse de cara pra velha que ela podia bater porque tinha tido trabalho e criado ele, mas o Caba Tapiú não, esse era melhor ficar quieto no ninho dele ou ia deixar de comer farinha. Mas esse negócio de xodó de homem e mulher que se gosta e se desgosta, o senhor sabe, é tão antigo como a criação do mundo. Acabaram, os dois, se ajeitando no juiz e fazendo um montoeiro sem conta de filhos que hoje estão espalhados nessas beiradas. Depois foram se aturando como em qualquer casamento de fogaréu apagado, tintiando o conformismo na lei do menor esforço e num modo pra lá de humano de ser. Compadre, pode acreditar : nessas histórias de amor e paixão, o homem já nasceu mais fracassado do que um cavalo sem lote. Olhe só, bem alizinho tinha aquela brutela de goiabeira onde eu brincava e me escondia. Conhecia ela de verão a inverno e protegia com afeto as melhores goiabas antes das cabas brocarem elas. E mais bem pra cima eu descobri uns galhos retorcidos em forma de cadeira onde eu sentava olhando o campo, me sentindo qual um rei no trono e dizendo que todo aquele mundo eu ia herdar um dia. Sabe, porque nesta casa se falava de herança, de viver de herança como se tudo fosse eterno e isso fosse, pra bem lhe dizer melhor, mais importante do que uma boa profissão qualquer de se viver. Nesse costume, fui me costurando na bainha da saia daquela velha e sendo tratado a chá de canela trazido por cunhantã pra debaixo da minha rede, na companhia dumas bolachas cabeça de macaco lambuzadas da melhor manteiga. Um mau costume de tolice e vagabundagem sem futuro. E no trono da goiabeira eu me escondia desde gitinho, só com a cabeça de fora, olhando no redor do meu mundo, dando conta da volta do meu pai e dos vaqueiros que vinham vindo de dias a cavalo, malmente parecendo uns vultos curvados sobre as selas na imensidão do lavrado. Chegavam das pelejas de apartação, das ferras e rodeios pelos muitos retiros que o tempo levou. Daquela cadeira de rei, sacudido num pra cima e pra baixo ao sabor divino da ventania, eu fui deposto amargando sofrimento. Em Belém, compadre, no colégio, nem lhe conto como eu me achei diante da verdade e do descostume com a minha pobreza, não sabendo disfarçar a matutice de tanto apreciar os carros luxentos no leva e traz dos filhinhos de papai rico. Eles chegando, saltando do automóvel rabo de peixe, uns que chamavam de cotia, enquanto eu, compadre, penando que nem condenado, era passageiro de tostão num ônibus da linha circular entupido de gente e de fedor de sovaco. Agora veja: tudo isso e mais sendo azucrinado por um cobrador sem assento, quase amalucado de tanto estalar umas moedinhas no ouvido da gente. Ah, compadre, eu não era nadinha de rico, tudo o que eu tinha, ou melhor, que eu pensava ter, ficou pra trás naquele meu galho de goiabeira, aqui neste paraná e na curva sem pressa deste remanso de rio. Quem olha esse terreiro sem cuidado e tomado de cerradal, nem bem se dá conta que ele era limpo e varrido, no jeito de botar cadeira e sentar no fim duma tarde vadia. A vontade chamando um bom cafezinho, daquele torrado com frutinha da pajamarioba, socado no pilão e coado na peneira. Esse quintal, poeirento e seco no verão, mantido com uma boniteza de dar falança, tudo por obra e graça da velha Ervina, aquela uma visagenta, desde três da madrugada com uma lamparina de querozene na mão esquerda e o terçado amolado na direita, a bom capinar como se tivesse alguma desdita na vida, a modo esperando alguma vez se gerar pra besta, como diziam, ou outra porcaria qualquer deste mundo, porque, o senhor sabe, naqueles tempos e por estes lados, isso se dava e muito. Sem falar que nunca se viu trajes com tanto remendo como nos vestidos da velha capinadeira. Ia rasgando ela ia remendando de tantas cores e sem conta de qualquer critério ou marca de pano. Tinha pedaço de seda chinesa, adiante um de sarrapilha, outro de brim, quando não fosse mais um de riscado em formato de triângulo, retângulo e outros polígonos irregulares, num misto de colcha colorida de retalhos e teoremas euclidianos desafiando demonstração, que, eu bem sei, já é coisa de coirão sabido entender, não é assunto pra cabeça do compadre, porém, saiba o senhor, ainda perdendo de longe pra curva parabólica do seu arpão no lombo dum avantajado pirarucu. Alguém foi, se não deve ter sido aquele malino do velho Galo, quem botou nela o apelido de Brasileira, que era justo o nome da lancha a vapor do seu Pepino Tancredi, aquele um italiano cheio de filha bonita (e elas, compadre, sem um olhar de dó pra gente), morador lá perto da boca de cima, sempre arrochando remendo pra tapar os buracos da lancha, o pobre do casco quase meio afundando de tão estragado que estava. Isso foi um transtorno e tanto na vida da velha Ervina. Bastava que alguém fizesse o piiiiiii..., do apito trinado da lancha do seu Pepino, e a velha saía do bom pro mal tempo feito uma tinhosa, logo mandando quem tivesse com aquela intenção, de apitar no grelo da mãe. Aliás, meu compadre Justino, é bom até a gente não conversar muito nem alto sobre este assunto porque o compadre Raimundo Preto, nosso amigo e ali tratando de queimar aqueles ninhos de caba, é filho dessa finada. Num parece, mas é, considerando a esmirradez dela se comparada com a porrudice desse preto desdobrado de tamanho e de músculo, muito explicado por ser ele fruto da muratinga criada daquele cabra sem mais tamanho e abrutalhado de valentia como nunca igual se viu, o seu Zé Preto. Agora, seu compadre, me diga dentro da sua maior sinceridade, se mulher, ainda mais assim dessas zotas feito a finada D. Ervina Brasileira, me diga se elas não vieram neste mundo com a sina de sofrer por baixo dum jumentão daqueles. E olhando pra beira deste paraná, hein, compadre? Já se vê que das três castanheiras só restam duas. Aquela que ficava por último, mais perto do barranco do igarapé que corre logo aí no lado de baixo da casa, essa a cheia já achou de levar faz muito inverno. Hoje ela habita no perau, só servindo pra engatar na tarrafa de algum desavisado filho duma égua. Falo diante da autoridade de quem conhece, porque essa castanheira nunca que viu a extensão da sua tarrafa velheira de vinte e oito filhos e de tenso reforçado, porque o senhor sabe de cor e salteado onde ela repousa e ainda vai durar. E pra inveja de outra árvore com esse tempo de fundura, plantando um galho na terra ela ainda nasce de novo pra ficar grande e frondosa. É, compadre, esse tipo de pau, aliás, muito ao contrário do seu, e com todo respeito, não é com certeza de se estragar tão cedo. Entra cheia, sai cheia, mais forte a madeira se conserva, não tendo como não lhe dizer que eu venho acalentando um sonho de eternidade: voltar neste mundo um dia gerado numa castanheira. Pois era no abrigo sombroso dessas aí, que esse povo todo aqui chama de sapucáia, que eu, moleque, lá me plantava jogando linha e puxando apapá na vazante, volteando sem parar com o anzol iscado numa sardinha inteira e haja de esperar a batida do peixe dourado na perseguição do cardume. Credo, meu compadre, era jogar a isca no meio do rebojo do apapá e sair disparado no rumo de casa, visto que esse peixe dá de pular na frente, mal intencionado de soltar da linha e até parecendo invejoso dessa proeza do tucunaré. A gente se divertia um bocado, mas muita lembrança também essa beira de rio tem de ruim pro senhor, pro finado compadre Zé Manduca, se é que morto ainda sofre de dor, e pra esse compadre Raimundo Preto, macho ainda com sustança de despregar num puxão só essas tábuas de itaúba. Eu me refiro sobre aquele cavalo do coronel, o Ás de Copa. Muito bom de rir nesta prosa mas de triste recordação, aquela tarde foi de coisa muito da feia pra vocês três, ou, bem dizendo, muito mais pros dois que pro senhor né, compadre? Mesmo porque o senhor só apreciava junto da velha, ali de cócora na ribanceira, enquanto eles atravessavam o cavalo daquele lado de lá pra este daqui. Pois não foi que no meio da viagem, o cavalo vindo nadando, sendo puxado da canoa com destreza, pois não é que ele enfiou a pata no laço do cabresto, se enrolou todo e empinou de cabeça pro fundo? A velha gritando da ribanceira e os dois já sentindo o lombo ardido da mochinga, enquanto o senhor, compadre, moleque cheio de lambança, cheio de convencimento no lado da velha, rindo da desgraça alheia. E veja se o senhor não lembra do que aconteceu? Malmente a velha termina de aplicar o castigo nos dois, o senhor recebeu de presente duas dúzias de bolos com aquela palmatória de maçaranduba, só pra não achar de fazer caçoagem dos outros. Epa, seu compadre Justino, não é hoje que agente acaba com esse esbrugueiro de tanto ninho de caba. O compadre Raimundo Preto e esses ajudantes molengas nem bem ainda chegaram na sala de jantar onde aquela velha patroa se sentava almoçando feito uma rainha. Vocês, três molecotes de plantão pra servir debaixo da ordem dela aos brados de "braço encruzado!". Por cima da toalha, ela amontoava uma pilha de farinha de onde ia tirando de pouquinho e servindo no peixe avermelhado pelo poder de pimenta malagueta. De cara era um acari assado, uma pirapitinga ou um brutelo dum tambaqui, porque, como é do seu saber eterno, aquela velha tinha cismado, na vida, de nunca triscar na boca uma colherada sequer de peixe de couro. E não é que se fala dessas lembranças e o compadre Raimundo Preto vem saindo da sala de jantar com um pedaço, com a sobra da petisqueira onde ela guardava aqueles bolinhos de pão-de-ló? Ovo é que não faltava, era uma sem conta de desova de picota por esse cerradal afora...Arisca e cheia de ligeirice essa tal de picota. Nunca é de botar sozinha na ninhada, há sempre mais de uma, às vezes um puxirum delas. Quando se descobre já é ovo pra encher bacia e num tal alvoroço de cantar, "tô fraco", "tô fraco", "tô fraco". Só mesmo esse pedaço acupinzado de petisqueira pra não deixar passar na memória os sumiços dos bolinhos que deram de acontecer, deram de muito falar e muito de sacudir a raiva daquela velha. Mas, seu compadre, agora eu lhe revelo depois de anos do tempo passado, do muito de sua imaginação ter se gastado de pensar, como foi que pegou aquela praga bem dita da velha, de que o finório que tivesse roubando e comido os bolinhos da petisqueira, esse havera de morrer de tanto vomitar, como o senhor viu acontecer aqui com esse nosso estimado compadre Raimundo Preto. Dizer e confirmar que foi praga daquela velha de muita brabeza e bondade, não é coisa mais que se ateste prum homem da sua fama e do seu naipe, porque aí já é demais da falta de respeito. Pois saiba o senhor que a praga da danada da velha foi um tantinho assim de tártaro que ela sabidamente misturou no bolo, idéia de graça que ela teve e aprendeu com aquele boticário ladino de Óbidos, aquele um que fabricava remédio de coceira pra ilharga do saco; que aplicava injeção pra esquentamento e queimava cavalo de crista com nitrato de prata. Mas será que no fim de hoje dá pra gente chegar naquele esteio de preciosa? Acho por bem começar a pintura da numeração dessas tábuas. Arrebanhe um dos moleques e mande logo ajeitar um pincel de talo de bolota conforme a gente já fazia sabe lá quantos anos pra trás. E se o senhor me pergunta quem vai numerar, ora, compadre, se não vai ser eu mesmo ou então o senhor, que fomos nós desemburrados debaixo daquela palmatória de maçaranduba, quem “haverá” de ser? É bom que a gente se adiante, senão nem em três dias essa casa fica no desabrigo e nem eu me liberto desta minha triste situação. Mas, por essa necessidade de pincel de bolota, vem se chegando pra mim a figura do finado Zé Bolota, que Deus tenha tido pena do destino dele. Aquele nunca que viu uma chinela, unzinho sapato no pé desde quando abriu o olho e fitou a luz do dia pela vez primeira. Porem, se justiça há, a gente tem que fazer pro seu Zé Bolota. Ainda agora e se não for me rebata, considerando esses anos todos de muito pisa e repisa, mais o respeito por todas as rachaduras do seu calcanhar, diga pra mim se a pele de baixo do seu pé não é pinto perto do que era a do pé do seu Zé Bolota? Estrepadas de juquiri ou limorana nem que cismavam de alcançar a carne dele. E se malmente um aparecia fincado, ele ignorava oferta de agulha, pegando logo uma faca amolada de fio e cortando um pedaço da pele grossa junto com o estrepe. De jorro de sangue nem sinal, porque tava de muita distância. E naquela arrumação de pescaria de sardinha? Enquanto a gente haja de fazer pirão de farinha pra isca, ele deixava o pé de molho até aquele couro amolecer branquicento e ia arrancando de pedacinho em pedacinho pra servir no anzol. Eu hein, compadre? Aquele seu Zé Bolota mais parecia bicho do que gente de corpo e alma. E vamos entrando com jeito aqui pela frente da varanda, aproveitando o fumaceiro pra não levar uma triste e dolorida ferroada dessas cabas de igreja. Puxa, compadre, ainda tem por riba da porta a plaquinha metálica do Congresso Eucarístico Nacional que se deu em 1953.Vá, se espiche um pouco e tire ela pra eu guardar de recordação. O senhor, mais do que eu, se lembra: foi que a cheia grande baixou e nós pegamos o Almirante Alexandrino no rumo de Belém. Naviozão como eu nunca tinha visto na vida em tamanho e beleza. Até a lancha alinhada do coronel era barquinho de puxar na correnteza perto daquele Loyde. O Congresso então, nem lhe conto, era um mundo ajuntado de gente numa área enorme, que depois de anos de tanta pernada naquela Belém, eu acabei adivinhando que ficava onde hoje é a Praça Kennedy, e tinha um negócio de ponta a ponta feito um arco-iris gigantesco. Lá na feira de amostras do Congresso, compadre, eu andei num carrossel cheio de cavalinhos, como mesmo se eu tivesse indo pra uma ferra ali logo no Retiro da Ponta. Vi também aquela caboca que era minha ama e quase também amalucada de tanto aturar minhas tolices, a Ana Cupida, fazendo a maior vergonha de se urinar na frente daquele povo, tanto que ela riu na sala dos espelhos. Ora o cristão parecia gordo como um sapo cururu, doutras vezes comprido igual um palito engomado. Vamos, desça já logo daí, se conserve da sua coluna de velho e me dê conta dessa placa antes que apareça algum parente mais sabidão a bom de reclamar este pedaço de lata como se herança fosse. Compadre, sabe o senhor o que um dia desses eu li por aí? Pois foi que se o homem morasse num mundo de ouro, ele acabava brigando por um pedaço de lama. É isso, desde que a velha morreu, veio gente aqui se contentando de levar tudo que era porcaria imprestável. Lembra o senhor daquele penico de alumínio grande? Pois não é que apareceu um desses parentes e levou ele pra Belém? Agora eu pergunto pro senhor: pra que serventia tem hoje um penicão desse tamanho assim, naquela grandeza de cidade? Gente granfina, compadre, nunca que vai se aliviar num bicho daqueles, só defeca em bacia de luxo, e ninguém mais que pensa de limpar a bunda como antigamente. É tudo muito bem do lavadinho, o senhor pensa, nem se comparando com o tempo que a gente se ajeitava com graveto ou folha de ervanço aqui por esses lavrados. Vá ver, compadre, que um bundinha assim luxenta, digo melhor, uma bem tratada, feito dessas damas perfumadas da cidade, eu digo que dava benzinho pro compadre cheirar e dar uma enfiadinha de língua. Mas ei, espere aí, é só uma brincadeira pra disfarçar a demora e a paciência desta demolição, acabe já com essa cara feia de nojo e termine logo de tanto cuspir. Vamos adentrando, compadre, vamos avançando que a fumaça afugenta as cabas e a gente ainda pode abrir a vista pra ver um pouco do passado glorioso deste lugar. Os bregueços desta casa, o arsenal de armas antigas que ficavam protegidas por trás daquela cortina encardida do quarto. As moedas de prata igual uma que eu lhe dei como ganho de aposta e o senhor “havera” de ter bem guardada, a espada do coronel na parede, esses baús antigos de sem número de idas e vindas de Belém no navio Moacir, a burra que ficava na sala onde guardavam todo o dinheiro da venda do gado, porque essa tal inflação e poupança não eram coisa daquele tempo. Sem falar no ciúme que a velha tinha naquela miniatura de lancha pendurada na parede desta varanda. Nem mesmo eu, cheio de regalias, tinha direito de apalpar nela. Eu que era o xodó preferido da velha e regado de vontade até que surgiu e me desbancou aquele curumim que ela arranjou pras bandas do Salé. Eu que me ausentei e o peste tomou o meu lugar cativo na rede espaçosa da varanda onde eu ouvia histórias de cobra grande. Tomou conta e se apoderou do coração dela. Vê se pode seu compadre, eu vindo do colégio na intenção das férias e encontro aquele tinhoso de moleque como se rei fosse, abancado no trono da minha goiabeira, brincando com minhas linhas, meus anzóis, meus cabrestos e senhor do carinho todo que aquela patroa me dava. Veja se não foi desfeita, humilhação e mais que se pode pensar de tão ruim? Aí veio chegando aquele sentimento indigno de rancor e de maltrato, quando eu passava pimenta malagueta na gaita dele e mandava ele juntar taperebá perto do ninho da mamangáua. Pois não é que ele ia, pegava o taperebá e a mamangáua nem tava aí pra ferroar ele? Mais brabo ficou seu Bassú, vítima maior das fuxicadas daquele endiabrado, quando gritou alto e chamou pro terreiro, dizendo que uma canoa ia passando no reboque dum avião catalina da Panair. Pois o diabo do pestinha foi, olhou pro avião e ficou de tocaia fazendo, com a mão, parede pra vista. Mais do que apreciando a cena, seu Bassú disse que ele tinha se atrasado, que o avião já tinha recolhido o reboque. O filho do cão não deu o braço a torcer e gritou cínico que o seu Bassú era um bom dum mentiroso, que ele ainda tinha visto sim um pedacinho da popa da canoa sendo embarcada. Nunca mais, compadre, que eu soube desse moleque, se é vivo ou se é morto. Só sei que poucos anos depois, já com noventa e fumaça de idade, a velha apanhou uma doença de vesícula, entregou ele pro pai e foi pra Belém morrer perto das filhas. Se aquele moleque está vivo, com certeza é homem feito e deve de ser pessoa boa, quem sabe, um anônimo fabricante de paneiro num desses centrões de terra firme. Vamos, compadre, entre pelo corredor central onde mureru e premembeca varavam da frente pra cozinha quando a cheia de 53 cobriu o assoalho. Vamos chegando até aquele esteio de preciosa que a gente gostava de escalavrar pra sentir o perfume dele. Tá decidido, é o único esteio que fica como lembrança de quem viveu aqui. Que apodreça sozinho. E bom, compadre, chega já de tanta prosa e disse-me-disse, tá na hora de meter a mão na massa e ajudar o compadre Raimundo Preto no término dessa tarefa. Amanhã, esta casa será uma página virada na história deste lugar, mas a gente pode bater no peito com orgulho, dizer que aqui existiu uma casa de gente de bem e que foi um tempo muito digno e apreciado de se viver. Saiba mais sobre o Ademar CLICANDO AQUI
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