Crônicas do Ademar Ayres do Amaral

EL DORADO, A CIDADE PERDIDA 

Riquezas, como ouro e pedras preciosas, sempre representaram um grande fascínio, em qualquer época, na história humana. Por isso, a procura por cidades lendárias, com calçamento e ídolos de ouro, logo aguçou a curiosidade dos primeiros navegadores, associada aos primórdios da conquista e exploração das civilizações que habitavam a América do Sul, durante os grandes descobrimentos. A lenda de El Dorado e do Homem do Ouro, eram narrativas extraordinárias herdadas dos primeiros exploradores espanhóis, assim como a do rei de Mamoa e de seu reino encravado nas misteriosas profundezas da grande floresta tropical. A lenda contava que, diariamente, esse poderoso monarca tomava um banho de ouro, ensaboando seu enorme corpanzil com o pó desse nobre metal, que depois era retirado quando ele se banhava num lago sagrado.

Esses boatos de riquezas sem limite, se espalharam mundo afora logo após o descobrimento do Brasil, em 1500, e acabaram por motivar a vinda de uma plêiade de aventureiros que, por séculos, andaram pelas novas terras em busca desse tesouro, até mesmo influenciando outros sonhadores mais recentes. Um deles, no início do século passado, foi o famoso Coronel Percy Fawcett, um britânico cuja obsessão ao longo de seu tempo, foi provar a existência dessas civilizações perdidas na Amazônia, baseando-se nas indicações deixadas por um aventureiro e náufrago do século 16, de nome Diego Alvarez, que jurava ter descoberto aqui numerosas minas de ouro, prata e pedras preciosas.

É certo também que, Francisco Orellana, o primeiro europeu a percorrer todo o Rio Amazonas, estava muito menos interessado na glória que sua aventura lhe traria, ou na conversão das almas dos nossos primeiros habitantes, do que no sonho do ouro de El Dorado. Orellana foi um respeitado combatente nas tropas do espanhol Francisco Pizarro, na conquista do Peru. Após a destruição da civilização Inca e do roubo da grande quantidade de ouro existente, ele tornou-se o segundo comandante em outra expedição chefiada por Gonzalez Pizarro, para explorar novos territórios, isso no ano de 1540. Forçado pela fome e pelos índios hostis, Gonzalez foi obrigado a retornar para sua base no Equador. Orellana, desobedecendo o patrão,  separou-se dele e resolveu corajosamente seguir em frente com um pequeno bando de homens, tendo assim realizado a fabulosa façanha de navegar o Rio Amazonas, desde o Perú até o Oceano Atlântico, sem bússola nem piloto. Como sabemos, no meio da viagem, ali pela região do Rio Nhamundá, Orellana foi atacado pelos índios cumuri, mas imaginou ter visto uma tribo de mulheres altas e brancas, mulheres guerreiras que ele comparou com as Amazonas guerreiras da mitologia grega. Daí que, anos mais tarde, o grande rio passou a se chamar para todo o sempre de Rio das Amazonas ou, Rio Amazonas. Ainda segundo a narrativa, uma dessas índias foi capturada e contou que elas moravam em aldeias habitadas somente por mulheres, e apenas uma vez por ano convidavam os índios homens da redondeza para uma espécie de festival de sexo e acasalamento. Orellana também ouviu da índia, que a rainha delas comia em utensílios de ouro e prata, e que suas aldeias eram cheias de estátuas de ouro, mas a história indica que ele nunca conseguiu encontrar o lugar dessa fortuna. Nessa mesma viagem, o frei Gaspar de Carvarjal, membro da expedição, fez a primeira referência histórica ao súbito estreitamento do Rio Amazonas, no local onde muitos anos mais tarde se construiria o forte Pauxis, que foi a origem da nossa Óbidos. Na verdade, sempre de olho em El Dorado, Orellana foi um contador de histórias tão convincente, que obteve financiamento do governo espanhol para voltar em 1544 e explorar a região, mas acabou perdendo a vida nessa nova empreitada. A Amazônia não faz graça com ninguém.

Em 1754, outro explorador, o português Francisco Raposo, escreveu ter descoberto o que restou do reino de El Dorado. Segundo ele, quando alcançou o local, tudo havia sido aparentemente destruído por um grande terremoto. Sua narrativa descreve relíquias de uma grande cidade, com ruas pavimentadas por pedras, praças bem planejadas, imponente arquitetura com afrescos coloridos, estátuas e um tesouro em moedas de ouro. Os restos dessa fascinante cidade nunca foram encontrados, mas continuou não faltando gente para acreditar na existência de tanta riqueza. O já citado britânico, coronel Percy Fawcett, considerado por seus amigos como um vilão e grande sonhador, escreveu em 1925: “É certa a existência de impressionantes cidades antigas, ruínas incomparavelmente mais velhas que aquelas do antigo Egito, localizadas no interior do Mato Grosso”.  Sempre exibindo uma amostra de pedra que ele dizia ter obtido da ruína da cidade descrita por Francisco Raposo, o coronel Fawcett se aventurou várias vezes pelo interior da Amazônia, até que desapareceu misteriosamente nas selvas do Mato Grosso, acreditando-se que tenha morrido de fome ou pelo ataque fatal de alguma fera. Nem seus restos mortais foram encontrados.

Mas os sonhos de uma El Dorado continuaram e continuam até os nossos dias. Recentemente, no início dos anos 80, grandes depósitos de ouro foram descobertos em Serra Pelada, ao sul de Marabá, provocando mais uma grande corrida por esse metal precioso. De lá, pelas mãos de milhares de heróicos garimpeiros, foram retiradas muitas toneladas de ouro, em quantidades até superiores ao imaginado pelos primeiros aventureiros, provando que os sonhos do ser humano não têm limites, sendo a realização deles apenas uma mera questão de tempo. Seria então Serra Pelada a grande El Dorado ou ela ainda está por ser encontrada?  Coincidência ou não, como conseqüência da corrida do ouro e da avalanche de riquezas descobertas naquela região do sul do Pará, foi criado um novo município batizado com o nome intrigante(nem tanto) de Eldorado dos Carajás. O certo, é que nossa ainda pouco conhecida Amazônia, essa terra abençoada por Deus, é dona não de uma, mas de várias El Eldorados, com suas riquezas incomparáveis de ouro, ferro, bauxita, cobre, caulim e níquel, só para citar alguns grandes projetos já implantados ou em fase implantação. Talvez só Deus mesmo saiba o que ainda nos reserva o futuro. Nada a estranhar, portanto, que não muito longe pra frente, num dia qualquer, a verdadeira e fantástica El Dorado, sonhada por Francisco Orellana e outros aventureiros, ainda venha a ser descoberta para deslumbrar nossos olhos.

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